"Uma travessia trabalhosa". É assim que Cláudio Porto, diretor-presidente e fundador da Macroplan, define o ano de 2014 para o Brasil. Porto vê os desafios a serem enfrentados pelo país vem sobretudo da expansão de investimentos para garantir o crescimento da economia, dado o esgotamento do modelo de estímulo ao consumo.
Entre os pontos fortes do país, o economista destaca o montante de reservas cambiais e a demanda externa por commodities, além das concessões e privatizações de infra-estrutura recém-concluídas. Somando-se a isso as eleições presidenciais que se aproximam, Claudio Porto vê 2014 como um ano chave para o desenvolvimento futuro da economia brasileira.
1) O que podemos esperar do Brasil em 2014?
Uma travessia trabalhosa. Dificilmente haverá uma mudança substancial em relação a 2013. O mais provável é a continuidade do que está sendo feito. Inclusive porque há incertezas e riscos latentes que inibem manobras mais ousadas. 2014 será um ano eleitoral, com maior pressão sobre o gasto público dos governos federal e os estaduais, mas as margens de manobra são pequenas. Há pressões inflacionárias represadas, restrições fiscais e um quadro externo que pode nos criar dificuldades. Por outro lado, o Banco Central está atento e, a meu ver, não hesitará em aumentar juros e tomar outras medidas prudenciais se o teto da meta de inflação for ameaçado.
2) A seu ver, quais serão os principais desafios ao crescimento competitivo e sustentável do Brasil no próximo ano?
O principal desafio é a expansão dos investimentos. A contribuição do consumo como motor de crescimento competitivo está esgotada, as famílias estão endividadas e temos sérias restrições de oferta que afetam nossa capacidade de atender à demanda interna e a competitividade de nossas exportações. Uma esperança é a aceleração da execução dos investimentos com a expansão da infraestrutura (aeroportos e rodovias) decorrente das concessões e privatizações recém concluídas.
3) Quais influências externas podem vir a impactar - positiva ou negativamente - o Brasil em 2014?
A forte demanda externa em relação a nossas commodities (minérios e alimentos) e o montante de nossas reservas cambiais são dois pontos fortes do país neste domínio. Por outro lado, há duas ameaças significativas: (i) a eliminação dos incentivos monetários hoje vigentes nos Estados Unidos ("quantitative easing"); e (ii) um possível (embora ainda improvável) downgrade nos ratings de classificação de risco do Brasil e da Petrobras, esta última muito sacrificada pela política de contenção dos reajustes dos preços da gasolina que está descapitalizando a empresa. Ou seja, é um cenário externo que exigirá muita habilidade para navegar nele.
4) O Brasil vai às urnas no ano que vem. Como as eleições podem influenciar o rumo do desenvolvimento do país a partir de 2015?
Os resultados das eleições terão um impacto significativo no cenário de desenvolvimento a partir de 2015. Tanto em nível federal como nos principais estados da federação. Estamos convencidos de que ?mais do mesmo?, ou a pura e simples continuidade das políticas atuais não nos levarão ao melhor futuro. Está esgotado o ciclo do crescimento baseado no consumo e na expansão pura e simples do emprego mesmo que de baixa qualidade. O foco tem que mudar para o investimento e a noção de longo prazo deve ser recuperada.
Sou otimista quanto as nossas possibilidades futuras. Temos imensos desafios a superar se quisermos galgar melhores posições na corrida do desenvolvimento. Mas o Brasil tem ativos estratégicos muito valiosos e é capaz de mobilizar recursos e competências neste sentido. Para tanto, precisamos de uma estratégia clara, uma liderança firme e senso de urgência, porque não temos mais tempo a perder.