Entrevista: Claudio Porto analisa o Brasil em 2014

[-] Texto [+]
23/12/2013 | Macroplan
"Uma travessia trabalhosa". É assim que Cláudio Porto, diretor-presidente e fundador da Macroplan, define o ano de 2014 para o Brasil. Porto vê os desafios a serem enfrentados pelo país vem sobretudo da expansão de investimentos para garantir o crescimento da economia, dado o esgotamento do modelo de estímulo ao consumo. 


Entre os pontos fortes do país, o economista destaca o montante de reservas cambiais e a demanda externa por commodities, além das concessões e privatizações de infra-estrutura recém-concluídas. Somando-se a isso as eleições presidenciais que se aproximam, Claudio Porto vê 2014 como um ano chave para o desenvolvimento futuro da economia brasileira.


1) O que podemos esperar do Brasil em 2014?


Uma travessia trabalhosa. Dificilmente haverá uma mudança substancial em relação a 2013. O mais provável é a continuidade do que está sendo feito. Inclusive porque há incertezas e riscos latentes que inibem manobras mais ousadas. 2014 será um ano eleitoral, com maior pressão sobre o gasto público dos governos federal e os estaduais, mas as margens de manobra são pequenas. Há pressões inflacionárias represadas, restrições fiscais e um quadro externo que pode nos criar dificuldades. Por outro lado, o Banco Central está atento e, a meu ver, não hesitará em aumentar juros e tomar outras medidas prudenciais se o teto da meta de inflação for ameaçado.


2)  A seu ver, quais serão os principais desafios ao crescimento competitivo e sustentável do Brasil no próximo ano?


O principal desafio é a expansão dos investimentos. A contribuição do consumo como motor de crescimento competitivo está esgotada, as famílias estão endividadas e temos sérias restrições de oferta que afetam nossa capacidade de atender à demanda interna e a competitividade de nossas exportações. Uma esperança é a aceleração da execução dos investimentos com a expansão da infraestrutura (aeroportos e rodovias) decorrente das concessões e privatizações recém concluídas.


3) Quais influências externas podem vir a impactar - positiva ou negativamente - o Brasil em 2014?


A forte demanda externa em relação a nossas commodities (minérios e alimentos) e o montante de nossas reservas cambiais são dois pontos fortes do país neste domínio. Por outro lado, há duas ameaças significativas: (i) a eliminação dos incentivos monetários hoje vigentes nos Estados Unidos ("quantitative easing"); e (ii) um possível (embora ainda improvável) downgrade nos ratings de classificação de risco do Brasil e da Petrobras, esta última muito sacrificada pela política de contenção dos reajustes dos preços da gasolina que está descapitalizando a empresa. Ou seja, é um cenário externo que exigirá muita habilidade para navegar nele. 


4) O Brasil vai às urnas no ano que vem. Como as eleições podem influenciar o rumo do desenvolvimento do país a partir de 2015?


Os resultados das eleições terão um impacto significativo no cenário de desenvolvimento a partir de 2015. Tanto em nível federal como nos principais estados da federação. Estamos convencidos de que ?mais do mesmo?, ou a pura e simples continuidade das políticas atuais não nos levarão ao melhor futuro. Está esgotado o ciclo do crescimento baseado no consumo e na expansão pura e simples do emprego mesmo que de baixa qualidade. O foco tem que mudar para o investimento e a noção de longo prazo deve ser recuperada. 


Espero que em 2014 haja um verdadeiro debate sobre os possíveis futuros do nosso país, para além das dificuldades do momento. Neste sentido, participei, junto com colegas da Macroplan, da organização do livro "Propostas para o Governo 2015/2018 - Agenda para um País Próspero e Competitivo".


Sou otimista quanto as nossas possibilidades futuras. Temos imensos desafios a superar se quisermos galgar melhores posições na corrida do desenvolvimento. Mas o Brasil tem ativos estratégicos muito valiosos e é capaz de mobilizar recursos e competências neste sentido. Para tanto, precisamos de uma estratégia clara, uma liderança firme e senso de urgência, porque não temos mais tempo a perder.