Onde estão as oportunidades

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21/08/2012 | Exame - PME
Mais brasileiros moram em grandes cidades. Mais brasileiros têm casa. mais brasileiros compram pela Internet. mais brasileiros estão estudando. E há mais brasileiros na terceira idade. Quais são os negócios que podem dar certo num país que mudou tanto?

Há pouco mais de 70 anos, extasiado com o que descreveu como "combinação sem igual de mar e montanha", o escritor austríaco Stefan Zweig lançou Brasil, País do Futuro, um livro de impressões sobre uma nação que iniciava a década de 40 com 705 da população morando no campo, sem acesso à educação nem a serviços básicos. A alcunha de Zweig ainda foi utilizada por muitos anos, e seu uso foi diminuindo quando surgiram as classificações "subdesenvolvido", "em desenvolvimvneto" e "emergente". Atualmente, com toda a confusão econômica que bagunçou tantos países, qual seria o apelido certo para o Brasil ? Para os mais de 27 milhões de empreendedores brasileiros, uma classificação adequada poderia ser "país de oportunidades". O setor de ensino expandiu. Mais moradias foram construídas, sobretudo nas grandes cidades, que ficaram superpovoadas. Muita gente  passou a fazer compras pela internet, incluindo as pessoas de terceira idade, que estão vivendo mais. Na última década, a média salarial cresceu mais de 20% e o consumo aumentou. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, como saber onde, exatamente, estão as oportunidades ? A seguir , voce encontra um conjunto de 20 páginas de reportagens com análises de cinco setores onde há bastante espaço para os pequenos e médios negócios. É pouco provável que não exista um lugar para a sua empresa.

 

CIDADES

Em 2005, mais de 90% da população brasileira será urbana. Com o crescimento das cidades, cresce também o número de oportunidades

A incorporadora paulistana Vitacon, fundada em 2009 pelo engenheiro Alexandre  Lafer Frankel, de 34 anos, lançou seu mais recente prédio residencial na segunda quinzena de julho. O apartamento mais barato foi vendido por 400.000 reais. Tinha apenas 29 metros quadrados, onde se deu um jeito de caber um  quarto com banheiro, sala e uma minicozinha. O mais caro, de 130 metros quadrados, foi vendidos por 2 milhões de reais. No total eram 90 apartamentos. "Todos foram vendidos numa única tarde", afirma Frankel.

Quando ficar pronto - segundo Frankel, a entrega deverá acontecer no primeiro semestre de 2015 - o edifício vai ocupar uma esquina no cruzamento entre duas ruas do Jardim Paulista, considerado um dos melhores bairros da capital paulista. No entorno há de tudo um pouco: faculdades, restaurantes, hospitais, cinemas, cnetros comerciais, museus, praçcas. os moradores que trabalahm na região da Paulista poderão ir à pé ao escritório. Dali não é difícil ir a outros lugares, tomando-se o metrô numa das cinco estações próximas. "Eu não vendo imóveis", diz frankel. "Vendo qualidade de vida para quem mora numa grande cidade".

Frankel é um  exemplo de empreendedor que está ganhando dinheiro  ao explorar oportunidades típicas de grandes cidades do Brasil. " Há muito espaço para uma pequena ou média empresa que tenha um produto ou serviço que torne a vida nos grandes centros urbanos mais fácil", diz Odmar Almeida Filho, presidente do insituto  de pesquisa Ipsos.

Estiam-se que em 2025, mais de 90% dos brasileiros vão viver em zonas urbanas, tornando as cidades muito populosas mais populosas ainda. Foi o que aconteceu recentemente. De acordo com dados do IBGE, existem hoje 38 municípios  com mais de 500.000 habitantes no Brasil - há dez anos eram 25. Nessa lista estão cidades que vêm crescendo muito rapidamente. É o caso de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Sua população de hoje, aproximadamente, 600.000 pesoas, é 20% maior do que há dez anos. Entre as cidades com mais de 1 milhão de habitantes, Brasília, a capital federal, foi a que mais cresceu na última década - 25%, o dobro da taxa de crescimento da população do país no mesmo período.

O aumento da população pressiona a infraestrutura na capital federal e na sua região metropolitana. A empresa brasiliense Ambientare que presta serviços de consultoria na área ambiental, cresce exatamente neste cenário. A empresa fundada pelo mineiro Felipe Lavorato, de 28 anos, faturou 2,6 milhões de reais no ano passado atendendo empresas como a Eletrobras. Entre outros negócios, está auxiliando o monitoramento ambiental de duas subestações de energia em Brasília. "Com o crescimento das cidades, a necessidade de melhorar a transmissão de energia tem aumentado", afirma Lavorato. " isso é excelente para o nosso negócio".

No caso de Frankel, da Vitacon, seu negócio é encontrar espaço para construir prédios em áreas onde  da cidade onde aparentemente não cabe mais nada. um dos imóveis adquiridos pela  incorporadora, no bairro de Vila Olímpia, teve de ser comprado em 16 parte até  totalizar 100% da propriedade, poir os herdeiros  não se falavam. "as negociações demoraram oito meses e , no final,  a família acabou fazendo as pazes e passando o Natal daquele ano reunida", diz Frankel. Em outra ocasião, ele passou meses em negociação com o dono de uma oficina mecãnica próxima á avenida Brigadeiro aria Lima, região de grande concentração de sede de empresas. "Para convencê-lo a vender, precisei comprar outro terreno a poucos quarteirões dali e construir uma nova oficina para ele", diz. Os esforços e os investimentos compensam. O preço do metro quadrado vendido pela Vitacon tem ficado em torno de 20% acima do valor médio de referência de cada bairro. A empresa fechou o ano passado com a receita de 90 milhões de reais.

Algumas das oportunidades mais promissoras  para quem escolhe empreender em grandes cidades podem nascer justamente de seua maiores problemas. Experimente assomar ás 6 da tarde, hora de relógio, a algum ponto da avenida Farrapos, em Porto Alegre, ou da orla da praia de Boa Viagem, em Recife. Assim como aconteceria em outras tantas cidades do país, provavelmente o tempo de espera para tomar um táxi seria desanimador. Tentar aliviar  o dia a dia de quem precisa desse tipo de transporte foi o que motivou os empreendedores cariocas Rafael Kaufmann, de 28 anos, e Gabriel Silva, de 30 , a criar a ResolveAí, uma empresa que oferece um aplicativo para chamar táxis pelo celular. "Muitas pessoas têm medo da violência a que podem estar vuneráveis enquanto esperam um táxi no meio da rua", afirma Kaufmann. "Com a comodidade de poder pedir o carro pelo celular, esse risco diminui bastante".

O aplicativo foi disponibilizado para download em maio e já funciona em seis cidades e regiões metropolitanas  brasileiras. "Começcamos a testar o seviço no Rio de Janeiro e em Brasília", diz Kaufmann. A lógica do resolveAí é simples - a empresa faz um contrato com as cooperativas de táxi para poder localizar, por sinal de GPS, o carro mais próximo. A cada corrida, a cooperativa paga uma taxa para a ResolveAí. "Dá até acompanhar o carro chegando pelas ruas próximas através do GPS do celular" , diz Kaufmann. Até agora 40 cooperativas se tornaram clientes. A previsão dos sócios é que , até o fim do ano, a empresa faça a intermediação de 1 milhão de corridas por mês.

Grandes cidades costumam ser ambientes naturalmente favoráveis para novos empreendimentos ou para a expansão de negõcios já existentes. Para se desenvolver de verdade, toda empresa precisa de escala. É a escala  que permite adquirir insumos e matérias-primas a custos competitivos. grandes cidades têm a seu favor a evidente vantagem de reunir muitos consumidores num espaço relativamente pequeno.

Esse adensamento é ótimo para a 24x7 Cultural, que vende livros a preços baixos em máquinas de autoserviço. Seu fundador, o médico Fábio Bueno Netto, de 52 anos, instalou 21 máquinas de livros em estações do metrô paulista. "O sucesso de um negócio como o meu depende de estar localizado em lugares de grande fluxo de consumidores", diz Bueno. Estima-se que pelas 58 estações de metrô de São Paulo passem diariamente mais de 4 milhões de pessoas. desde que a empresa começou, em 2003, já vendemos 1,6 milhão de títulos", diz ele. Em algumas máquinas saem 10.000 livros por mês, um número alto para o meu setor.

Para a 24x7, que vende cada livro a um valor médio de 2,50 reais, ter escala é fundamental para garantir as margens de lucro. Afgora, netto prepara a empresa para expandir por meio de franquias. "Qualquer lugar onde exista uma grande circulação de pessoas pode  ser um bom ponto", afirma Netto.

A paulistana Silvana Amaral Marques, de 40 anos, é cliente fiel da 24x7. Ela mora no bairro de Itaim Paulista, na periferia de São Paulo, e faz um curso técnico de enfermagem na avenida paulista. Todas as manhãs, Silvana pega ônibus, trem e metrô, num trajeto que dura mais de 3 horas, considerando ida e volta. Desde que começou o curso, há um ano, descobriu os livros da 24x7. "Compro pelo menos um livro por semana, a um preço médio de 2 reais", diz Silvana. "Gosto de ler sobre saúde, alimentação, autoajuda". Sua aquisição mais recente foi o livro 50 Receitas de Sopa Light de 15 Minutos, de Gustavo Oliveira Silva. "Nunca entrei numa livraria normal em toda a minha vida", diz Silvana. "Peguei o gosto de ler aqui, no metrô".
EDUCAÇÃO

Hoje, 96% dos jovens estão estudando - no fim dos anos 90, eram 89%. Saõ eles que aquecem a demanda por produtos e serviços no setor

Até a década de 90, Caruaru, em Pernambuco, era uma cidade de pouco mais de 200.000 habitantes, mais conhecida pela feira de Caruaru - uma faixa de cerca de 2 quilômetros de barracas onde se vende de tudo a céu aberto ás quartas e aos sábados. A feira existe até hoje. Mela é possível comprar desde frutas e legumes até móveis para a casa e aparelhos eletrônicos importados, tudo ao som de bandas locais que se misturam à frguesia. Só existiam duas instituições de ensino superior, que ofereciam cinco cursos: direito, odontologia, letras, história e filosofia. Quem quisesse seguir qualquer outra carreira na vida - e tivesse condições de morar fora ou viajar todos os dias para estudar - tinha de prestar vestibular em Recife, a 140 quilômetros de distãncia, ou em outros estados.

Atualmente, Caruaru, com mais de 315.000 habitantes, conta com dezenas de instituições de ensino superior. Uma das que mais cresceram nos últimos anos foi a Faculdade do Vale do Ipojuca (Favip), fundada em 2001 pelo baiano Vicente Jorge Rodrigues, de 57 anos, e o pernambucano Luiz de Françca Leite, de 62. Eles já eram sócios num grupo de empresas de rádio e emissora de TV da região desde 1991. "Hoje , a Favip é a maior empresa do grupo", diz Rodrigues. "Temos mais de 6.000 alunos". A previsão de faturamento para este ano é de 40 milhões de reais - 21% mais do que no ano passado.

A última década foi muito importante para empresas do setor de ensino . os dados mais recentes do IBGE mostram  que 33 milhões de jovens - mais de 96% da população de 5 a 14 anos - estão matriculados em alguma escola. No fim dos anos 90 , eles eram 89%.

Mais gente está na escola - e quem está na escola parece estar estudando mais. Segundo o último levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ( Ipea), cada brasileiro com mais de 15 anos estuda em média, durante 7,5 anos. Não é assim nenhuma maravilha. Mas é significativo quando se constata que esse número é quase 20% maior do que há cerca de dez anos.

Para aqueles empreendedores que atuam ou querem atuar no setor - com instituições de ensino ou fornecendo produtos e serviços para elas - , o que interessa mesmo é onde isso tudo vai dar se as coisas continuarem a andar no mesmo ritmo. "Nesse caso, nos próximos 20 anos o brasil poderá atingir o nívelo de escolaridade média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico" , diz Alexandre Mattos, diretor da consultoria Macroplan. Nesse grupo de 34 países, estão Estados Unidos e Japão, onde se estudo por mais de dez anos, em média.

No Brasil, houve um avanço considerável - pelo menos na oferta de vagas - na faixa do ensino superior. O núemro de faculdades e universidades passou de cerca de 400, no final dos anos 90, para 2.400. Uma das consequencias mais relevantes desse crescimento é a inclusão de estudantes que estavam fora do sistema simplesmente por não haver opções em sua região, como aocntecia com os jovens de Caruaru.

Essa é uma parte da história. Quando se fala em qualidade, as estatísticas dizem que o quadro geral não é nada bom. Apenas 35% das pessoas com o ensino médio completo podsem ser consideradas plenamente alfabetizadas. A conclusão está  na mais recente edição do Instituto Paulo Montenegro, do Ibope. No memso levantamento, há a estarrecedora informação de que 38% dos brasileiros com formação superior não conseguem escrever com clareza minimamente aceitável. para parte dos empreendedores brasileiros, essa é uma notícia que pode funcionar como uma inspiração. "Mlehorar a qualidade da formação dos estudantes é urgente no Brasil ", diz Mattos, da Macroplan. "É enorme a necessidade de novos negócios capazes de ajudar a vencer esse desafio".

De mãos dadas com o problema da educação está a falta de qualificação profissional em praticamente todos os setores da economia. Um dos que mais sofrem  é o da tecnologia da informação. De acordo com dados do IBGE, há 115.000 vagas de emprego que as mepresas do setor não conseguem preencher porque não acham bons profissionais.

A Globalcode, rede paulistana de escolas que faturou 3 milhões de reais em 2011 oferecendo cursos de programação, vem se expandindo nesse cenário. Criada pela empreendedora Yara Senger, e pelo marido dela, Vinícius, a Globalcode começou com aulas  para qualquer pessoas que quisesse aprender a programar em linguagem java - uma exigência em muitas empresas que desenvolvem softwares. Desde que foi fundada, em 2002, a Globalcode cresceu muito. Hoje, são 9.000 alunos matriculados em 14 unidades licenciadas.

Um dos fenômenos que colaboraram para aumentar o acesso dos brasileiros à educação, é a ascenção da classe C. Entre 2003 e 2010, foram incorporados 32 milhões de pessoas ao mercado consumidor brasileiro. "Com o aumento da renda, as famílias estão gastando mais com educação ", dis Odmar Almeida filho do insituto de pesquisas Ipsos. "Hoje, há milhões de estudantes que compõem a primeira geração de suas famílias a ter diploma de curso  superior ou mesmo a ter completado o ensino fundamental".

Nos últimos tempos a internet tem sido um caminho para muitos que querem empreender no setor de ensino. "Está surgindo uma porção de empresas de ensino à distância, produtoras de videoaulas para internet e editoras de livros e material didático digital", diz Mattos, da Macroplan. Um exemplo é o da escola de inglês online Ezlearn, site que a carioca Ana Gabriela Pessoa, de 30 anos, fundou em 2008. " Inglês me pareceu a carência mais urgente no mercado", diz Ana. Está dando certo - a EZlearn já atendeu cerca de 20.000 alunos e fatura mais de 2 milhões de reais por ano.

Um caso interessante é o da Escola24 horas, empresa carioca de reforçco escolar online que fatura, de acordo com estimativas de mercado, cerca de 12 milhões de reais por ano. Seu fundador, o economista paraibano Severino Felix da Silva, está à procura de clientes corporativos. "As grandes empresas podem oferecer o apoio escolar aos filhos dos funcionários como benefício", diz Silva. Ele já fechou uma parceria desse tipo com a IBM.

A Escola24horas tem dois principais produtos - conteúdo online personalizado para escolas e pacotes de apoio escolar para alunos individuais. Entre eles está a estudante monique Stephany Ferreira, de 14 anos. Ela mora em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e está na última série do ensino fundamental. Seus pais pagam uma mensalidade de 9,90 reais para que Monique tenha acesso a videoaulas e à rede de professores que dão plantão , tirando dúvidas dos alunos no site. " O método me ajuda muito a estudar para as provas", diz ela. "Melhorei as notas em matemática, que é minha matéria preferida".