Diante de outros países, esses investimentos colocam o Brasil em que nível de inovação?
Maria Clara: Mesmo com a verificação de um crescimento considerável dos esforços tecnológicos brasileiros no período recente, se o país mantivesse a mesma taxa de inovação (38,11% em 2008), seriam necessários cerca de 20 anos para chegar ao patamar observado atualmente nos países europeus. Ou seja, houve avanços, mas estes não foram suficientes. O Brasil avançou pouco comparado com países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Frente aos dados em nível mundial e considerando o Brasil como um país em estágio intermediário de desenvolvimento tecnológico, para reduzir nossa defasagem tecnológica em relação aos países desenvolvidos é essencial que o crescimento de seus esforços tecnológicos supere o crescimento observado nos países centrais.
Como se nota na tabela, o desempenho do Brasil (aumento de 10%) não foi significativamente superior ao do resto do mundo no mesmo período, em termos dos gastos em P&D empresarial em relação ao PIB. Países que estavam em um patamar de esforço tecnológico muito próximo ao brasileiro em 2005, como Portugal, Espanha e China, apresentaram um crescimento muito mais expressivo nos seus esforços tecnológicos e conseguiram, efetivamente, reduzir a distância em relação aos países da fronteira.
Apesar de certa rigidez histórica na relação P&D/PIB na maioria das nações, até a ocorrência da crise, em 2008, o mundo vivia um ciclo de crescimento bastante forte, o qual teve efeitos positivos sobre os investimentos em P&D na maioria dos países, segundo o IPEA. Os Estados Unidos podem ser considerados o país mais próximo à fronteira tecnológica. Sendo assim, seria esperado um potencial de crescimento dos investimentos em P&D menor naquele país do que nos mais distantes da fronteira. No entanto, o que se observou nos EUA foi um crescimento de 12% da relação P&D/PIB entre 2005 e 2008, superior, portanto, ao crescimento brasileiro, que saiu de um gasto empresarial com P&D em relação ao PIB de 0,49% em 2005 para 0,54% em 2008.
O que é necessário para que uma empresa inove em seus produtos ou serviços?
Maria Clara: Muito tem se falado em inovação e na importância desta não só para a criação de vantagens competitivas, mas também para a sobrevivência das empresas no mercado e como um dos requisitos para o desenvolvimento das nações.
Inovação não deve ser confundida com invenção. Inovação é resultado de um processo de desenvolvimento que conduz a novos produtos ou processos comercializáveis, sendo seu critério de sucesso o desempenho no mercado. A invenção, por outro lado, é fruto de um processo criativo, de pesquisa científica ou experimentação. Neste caso, o critério de sucesso é a originalidade.
Para a
Macroplan, inovar é criar valor novo em relação ao produto, processo, serviço ou modelo de negócio, através da interação com a rede de valor e com o cliente. É levar ao mercado-alvo a nova proposta de valor, de forma que haja apropriação deste valor pela empresa, por seus clientes e pela sociedade.
Isso depende da existência de três elementos essenciais: novos produtos, processos ou serviços desenvolvidos ou aperfeiçoados; a empresa que leva a inovação a mercado; e um modelo de negócio que permite a geração de receitas a partir dos produtos, processos e serviços desenvolvidos.
A inovação trata-se, portanto, de um processo estruturado, a ser gerido como um investimento, para dar retorno.
De que forma é possível estruturar um processo para que a inovação se torne uma prática constante no ambiente empresarial?
Os resultados de uma pesquisa realizada pelo MIT ao longo de três anos com um grupo de empresas líderes pertencentes a diferentes setores, em que foram rastreados os esforços tecnológicos dessas corporações, vão ao encontro da afirmação "inovação demanda 5% de inspiração e 95% de transpiração". Se a inovação for pensada como uma cadeia de atividades atreladas, desde a geração de novas ideias até a comercialização das mesmas de maneira bem sucedida, os últimos estágios do processo, nos quais as ideias são refinadas e desenvolvidas em detalhes, consomem mais tempo.
Grande parte dos esforços de inovação falham não pela ausência de ideias promissoras, mas por conta da falta de um acompanhamento cuidadoso e atento do processo inovador. Empresas ágeis identificam as etapas mais frágeis de seu processo de inovação e investem mais tempo na correção de tais fragilidades do que reforçando suas competências já estabelecidas. Sendo assim, é importante um novo posicionamento do empresariado brasileiro em relação à gestão da inovação.
Segundo
Claudio Porto, em seu livro "2022: propostas para um país melhor no ano do bicentenário" (
saiba mais sobre o livro), a inovação empresarial depende, dentre outros aspectos, da qualidade e robustez do sistema de ciência, tecnologia e inovação existente, da sua capacidade de articulação com o processo produtivo e da participação, direta e indireta, dos próprios empresários. Há também uma dependência em relação ao quadro jurídico-institucional vigente, na medida em que o mesmo pode favorecer ou não as condições para o desenvolvimento produtivo e, consequentemente, a inovação.
O papel do setor empresarial, nesse contexto, é de amadurecer e gerenciar seus processos inovativos, de forma sistemática e pragmática, favorecendo seu próprio posicionamento no mercado e contribuindo, por consequência, para o desenvolvimento do país.
Como a Macroplan tem atuado em termos de gestão da inovação?
Maria Clara: Um aspecto interessante da nossa atuação se refere ao desenvolvimento de uma metodologia integrada de avaliação expedita de resultados de carteiras tecnológicas e a comunicação dos resultados de tais carteiras.
O objetivo de nossa avaliação é identificar os principais resultados de programas e carteiras tecnológicas de modo mais expedito, com duração de no máximo três meses. Sendo rápida, a avaliação incorpora vantagens, como a de proporcionar aperfeiçoamentos de escopo e de gestão de projetos, programas e carteiras tecnológicas ainda durante sua execução. O enfoque proposto assume também um caráter multidimensional, abrangendo aspectos econômicos, sociais, ambientais e ligados à capacidade de inovação da empresa.
Quanto à comunicação de resultados, esse processo deixou de ser um conjunto de atividades desenvolvidas de maneira fragmentada, com caráter operacional, e passou a ser considerada estratégica pelas organizações, com vinculação direta ao negócio. A comunicação é também um instrumento de inovação aberta, levando a postura inovativa desde usuários da inovação até fabricantes, prestadores de serviços e outras organizações integrantes da rede de valor. Assim, para que o processo de inovação seja eficaz, é fundamental que a comunicação seja entendida como uma ferramenta de inovação aberta a ser utilizada ao longo de todo o percurso inovador. A ideia é que a empresa possa comunicar, para diversos públicos, tanto internos quanto externos, os resultados do seu processo de inovação.