"Inovação não deve ser confundida com invenção", diz consultora

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31/05/2011 | Macroplan
A taxa de inovação nas empresas brasileiras passou de 31,52% para 38,11%, entre 1998 e 2008. Apesar do avanço, o Brasil ainda inova menos do que países como Portugal, Espanha e China.

Os dados são da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) 2008, divulgada recentemente pelo IBGE. A análise da pesquisa, realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), utiliza como uma das ferramentas a taxa de inovação. Este indicador corresponde ao número de empresas que declararam ter introduzido pelo menos uma inovação no período considerado, em relação ao total de empresas pesquisadas.

Mestre em Gestão da Tecnologia e Inovação pelo DEP/UFSCar, a consultora da Macroplan Maria Clara Bottino analisa a situação da inovação no Brasil e aponta caminhos para as empresas estruturarem um processo inovativo consistente.

O que impulsionou o aumento na taxa de inovação no Brasil?

Maria Clara: No final de 2010 foram divulgados os resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) de 2008, realizada pelo IBGE, com o objetivo de fornecer informações para a construção de indicadores das atividades de inovação tecnológica das empresas brasileiras e situadas no país.

Dado que a decisão de investir em inovação é influenciada pela conjuntura econômica, é importante avaliar qual foi o cenário observado no Brasil durante o período da pesquisa. Mesmo com as restrições estabelecidas pela crise internacional no último trimestre daquele ano, a pesquisa mostra que o PIB cresceu 5,1%. Associado à evolução positiva de quase todos os outros componentes da demanda agregada, esse crescimento sugere um cenário favorável às decisões de investimento em inovação por parte do empresariado.

Segundo a PINTEC (2008), essa conjuntura de fato impulsionou as inovações nas empresas brasileiras, proporcionando aumento na taxa de inovação, no volume de investimento em atividades inovativas e, em particular, nas de pesquisa e desenvolvimento. Além disso, observou-se incremento no desenvolvimento das inovações em parceria com outras empresas e institutos e no número de empresas que receberam algum tipo de apoio do governo para realizar as inovações.

Considerando apenas o setor industrial, por exemplo, houve um crescimento sistemático da taxa de inovação nas quatro pesquisas, que ocorreram entre 1998 e 2008. De acordo com a análise do IPEA (2010), entre o período de 2001 a 2003 e a última edição da PINTEC, as taxas referentes especificamente a inovações de produto e processo para o mercado nacional cresceram de forma sistemática, passando de 2,73% e 1,21% para 4,10% e 2,32%, respectivamente, apesar de ainda apresentarem valores bastante baixos.

Veja outros dados da PINTEC (2008) no último Monitoramento de Cenários da Macroplan
Gastos em P&D empresarial em relação ao PIB - países e grupos selecionados (2005 e 2008) / Fonte: Community Innovation Survey (CIS) e OCDE
Diante de outros países, esses investimentos colocam o Brasil em que nível de inovação?

Maria Clara: Mesmo com a verificação de um crescimento considerável dos esforços tecnológicos brasileiros no período recente, se o país mantivesse a mesma taxa de inovação (38,11% em 2008), seriam necessários cerca de 20 anos para chegar ao patamar observado atualmente nos países europeus. Ou seja, houve avanços, mas estes não foram suficientes. O Brasil avançou pouco comparado com países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Frente aos dados em nível mundial e considerando o Brasil como um país em estágio intermediário de desenvolvimento tecnológico, para reduzir nossa defasagem tecnológica em relação aos países desenvolvidos é essencial que o crescimento de seus esforços tecnológicos supere o crescimento observado nos países centrais.

Como se nota na tabela, o desempenho do Brasil (aumento de 10%) não foi significativamente superior ao do resto do mundo no mesmo período, em termos dos gastos em P&D empresarial em relação ao PIB. Países que estavam em um patamar de esforço tecnológico muito próximo ao brasileiro em 2005, como Portugal, Espanha e China, apresentaram um crescimento muito mais expressivo nos seus esforços tecnológicos e conseguiram, efetivamente, reduzir a distância em relação aos países da fronteira.

Apesar de certa rigidez histórica na relação P&D/PIB na maioria das nações, até a ocorrência da crise, em 2008, o mundo vivia um ciclo de crescimento bastante forte, o qual teve efeitos positivos sobre os investimentos em P&D na maioria dos países, segundo o IPEA. Os Estados Unidos podem ser considerados o país mais próximo à fronteira tecnológica. Sendo assim, seria esperado um potencial de crescimento dos investimentos em P&D menor naquele país do que nos mais distantes da fronteira. No entanto, o que se observou nos EUA foi um crescimento de 12% da relação P&D/PIB entre 2005 e 2008, superior, portanto, ao crescimento brasileiro, que saiu de um gasto empresarial com P&D em relação ao PIB de 0,49% em 2005 para 0,54% em 2008.

O que é necessário para que uma empresa inove em seus produtos ou serviços?

Maria Clara: Muito tem se falado em inovação e na importância desta não só para a criação de vantagens competitivas, mas também para a sobrevivência das empresas no mercado e como um dos requisitos para o desenvolvimento das nações. 

Inovação não deve ser confundida com invenção. Inovação é resultado de um processo de desenvolvimento que conduz a novos produtos ou processos comercializáveis, sendo seu critério de sucesso o desempenho no mercado. A invenção, por outro lado, é fruto de um processo criativo, de pesquisa científica ou experimentação. Neste caso, o critério de sucesso é a originalidade.

Para a Macroplan, inovar é criar valor novo em relação ao produto, processo, serviço ou modelo de negócio, através da interação com a rede de valor e com o cliente. É levar ao mercado-alvo a nova proposta de valor, de forma que haja apropriação deste valor pela empresa, por seus clientes e pela sociedade.

Isso depende da existência de três elementos essenciais: novos produtos, processos ou serviços desenvolvidos ou aperfeiçoados; a empresa que leva a inovação a mercado; e um modelo de negócio que permite a geração de receitas a partir dos produtos, processos e serviços desenvolvidos.

A inovação trata-se, portanto, de um processo estruturado, a ser gerido como um investimento, para dar retorno.

De que forma é possível estruturar  um processo para que a inovação se torne uma prática constante no ambiente empresarial?

Os resultados de uma pesquisa realizada pelo MIT ao longo de três anos com um grupo de empresas líderes pertencentes a diferentes setores, em que foram rastreados os esforços tecnológicos dessas corporações, vão ao encontro da afirmação "inovação demanda 5% de inspiração e 95% de transpiração". Se a inovação for pensada como uma cadeia de atividades atreladas, desde a geração de novas ideias até a comercialização das mesmas de maneira bem sucedida, os últimos estágios do processo, nos quais as ideias são refinadas e desenvolvidas em detalhes, consomem mais tempo.

Grande parte dos esforços de inovação falham não pela ausência de ideias promissoras, mas por conta da falta de um acompanhamento cuidadoso e atento do processo inovador. Empresas ágeis identificam as etapas mais frágeis de seu processo de inovação e investem mais tempo na correção de tais fragilidades do que reforçando suas competências já estabelecidas. Sendo assim, é importante um novo posicionamento do empresariado brasileiro em relação à gestão da inovação.

Segundo Claudio Porto, em seu livro "2022: propostas para um país melhor no ano do bicentenário" (saiba mais sobre o livro), a inovação empresarial depende, dentre outros aspectos, da qualidade e robustez do sistema de ciência, tecnologia e inovação existente, da sua capacidade de articulação com o processo produtivo e da participação, direta e indireta, dos próprios empresários. Há também uma dependência em relação ao quadro jurídico-institucional vigente, na medida em que o mesmo pode favorecer ou não as condições para o desenvolvimento produtivo e, consequentemente, a inovação.

O papel do setor empresarial, nesse contexto, é de amadurecer e gerenciar seus processos inovativos, de forma sistemática e pragmática, favorecendo seu próprio posicionamento no mercado e contribuindo, por consequência, para o desenvolvimento do país.

Como a Macroplan tem atuado em termos de gestão da inovação?

Maria Clara: Um aspecto interessante da nossa atuação se refere ao desenvolvimento de uma metodologia integrada de avaliação expedita de resultados de carteiras tecnológicas e a comunicação dos resultados de tais carteiras.

O objetivo de nossa avaliação é identificar os principais resultados de programas e carteiras tecnológicas de modo mais expedito, com duração de no máximo três meses. Sendo rápida, a avaliação incorpora vantagens, como a de proporcionar aperfeiçoamentos de escopo e de gestão de projetos, programas e carteiras tecnológicas ainda durante sua execução. O enfoque proposto assume também um caráter multidimensional, abrangendo aspectos econômicos, sociais, ambientais e ligados à capacidade de inovação da empresa.

Quanto à comunicação de resultados, esse processo deixou de ser um conjunto de atividades desenvolvidas de maneira fragmentada, com caráter operacional, e passou a ser considerada estratégica pelas organizações, com vinculação direta ao negócio. A comunicação é também um instrumento de inovação aberta, levando a postura inovativa desde usuários da inovação até fabricantes, prestadores de serviços e outras organizações integrantes da rede de valor. Assim, para que o processo de inovação seja eficaz, é fundamental que a comunicação seja entendida como uma ferramenta de inovação aberta a ser utilizada ao longo de todo o percurso inovador. A ideia é que a empresa possa comunicar, para diversos públicos, tanto internos quanto externos, os resultados do seu processo de inovação.