Impactos da morte de Bin Laden para cenário internacional

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05/05/2011 | Macroplan
Americanos foram às ruas celebrar a morte do terrorista (foto: Reuters)

A mais recente edição do Monitoramento dos Cenários da Macroplan apontou tendências para o Oriente Médio, a partir da análise dos conflitos na Líbia. No entanto, a morte de Osama Bin Laden pode provocar modificações nos cenários delineados. Clique aqui para baixar o documento

Cientista social e consultor da Macroplan, Elimar Nascimento analisa impactos que o fato pode causar no cenário político e sócio-econômico mundial.

 

Como o mundo árabe extremista pode reagir à morte de Osama Bin Laden pelos Estados Unidos? O Brasil se insere neste contexto de alguma maneira?

O resultado dos movimentos de contestação no norte da África e Oriente Próximo e a morte de Bin Laden, mais recentemente, tenderão a modificar o desenho do terrorismo internacional, seja fortalecendo-o ou enfraquecendo-o. No curto e médio prazos, existem duas reações possíveis.

A primeira é o recrudescimento das ações terroristas no mundo, como resposta dos jihadistas à ofensa sofrida com a morte de um de seus maiores líderes, se não o maior ou mais emblemático. Por isso, os países mais prováveis de serem alvo de atentados, como Estados Unidos, França, Inglaterra e Espanha, entre outros, estão se preparando para esta possibilidade. No entanto, esta reação pode demorar um pouco, pois ações terroristas tomam tempo para serem planejadas e executadas - salvo se já existirem ações em movimento.

O segundo cenário possível é se o impacto destes acontecimentos provocar depressão entre os jihardistas e, neste sentido, as reações seriam pouco impactantes e tenderiam a não se orquestrar. Haveria ações neste caso, mas de pouca monta. As rebeliões atualmente em curso nos países do norte da África e Oriente Próximo podem pesar favoravelmente neste sentido. De toda forma, o terrorismo tende a persistir, pois suas bases materiais não foram removidas: a desconexão relativa dos países árabes do processo de globalização e a humilhação da identidade muçulmana produzida pelo Ocidente persistem.

O Brasil encontra-se distante dos acontecimentos e tem pouca capacidade de influência na área, tradicionalmente americana e européia. Mas isso não deixa o país completamente isento de qualquer atentado, contrariamente ao que diz o governo. Há movimentos na região Sul, do qual podem partir ações terroristas. Não é, no entanto, o mais provável. Mas não deve ser afastado como hipótese de futuro.

 

Uma das tendências apontadas pelo último Monitoramento dos Cenários da Macroplan foi o reposicionamento da comunidade internacional, dando uma relevância maior à questão dos direitos humanos. No entanto, no caso da morte de Osama o que se viu foi um grande apoio popular. Foi um fato isolado ou esse comportamento pode se repetir em casos similares?

As populações européia e, sobretudo, norte-americana não associam a morte de Bin Laden a restrições a direitos humanos. Ao contrário, sua morte significa uma derrota para aqueles que não respeitam os direitos humanos, que submetem mulheres a vexames e seus adversários a suplícios. Observando os cuidados tomados pelo governo norte-americano, que pediu licença ao Paquistão para realizar a ação e, segundo declarou, respeitou os ritos muçulmanos no sepultamento de Bin Laden (no mar), nota-se uma preocupação para apontar que era uma ação de justiça e feita no respeito das partes, em situação de guerra.

A tendência apontada nos cenários da Macroplan não é imediatamente negada. No entanto, se o terrorismo internacional se acirrar, assistiremos a medidas restritivas quanto a liberdade de comunicação, de deslocamento ou mesmo da privacidade dos cidadãos. Apesar de negadoras na prática dos direitos humanos, essas ações serão sempre justificadas como necessárias à defesa dos cidadãos e, provavelmente, bem aceitas por grande parte da opinião pública.

 

Depois de recuar mais de 3% após o anúncio da morte de Bin Laden, o preço do petróleo voltou a subir nas bolsas de Nova Iorque e Londres. No entanto, o valor se mantém abaixo do patamar atingido recentemente em função dos conflitos na Líbia. Como deve se comportar essa variação no curto prazo?

Com raras exceções, as contestações nos países do norte da África e no Oriente Próximo parecem estar em refluxo ou se estabilizando, o que deve aliviar o preço do petróleo, anteriormente pressionado pelos conflitos. Caso a situação se agrave ou simplesmete se manifeste em países produtores de petróleo, o seu preço tenderá, naturalmente, a se elevar. Tudo depende, portanto, do alastramento ou não dos conflitos, e em que direção e ritmo, cuja imprevisibilidade é enorme. Esses cenários podem evoluir para uma situação de guerra, refluir com as primeiras vitórias ou derrotas, ou simplesmente conhecerem um refluxo resultado do cansaço.

No entanto, a tensão existente, mesmo no aparente refluxo, pode propiciar novos movimentos, por vezes mais fortes e violentos. Todo o problema dos países pouco integrados economicamente, como os citados anteriormente, ao processo de globalização é que este não tem fronteiras, nem está restrito à economia. A globlalização tem outras dimensões, entre as quais, com destaque, a da circulação de informações. As pessoas, na maior parte do mundo, têm condições de saber o que se passa no resto do mundo e tendem a aceitar menos situações de mando excessivo, de autoritarismo exacerbado, de violação dos direitos humanos.