13/09/2009
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Correio Braziliense-Blog do Vicente
O estouro da crise mundial completa um ano nesta terça-feira (dia 15) com a econômica global dando os primeiros passos no sentido da recuperação e o Brasil mostrando um fôlego impressionante. Apesar de a percepção entre os brasileiros ainda ser a de que os estragos do fim da bolha imobiliária americana não foram superados por completo, o que é verdade, no exterior, a sensação é de que o país deixou todos os problemas para trás e deve ser visto como modelo. "Aos olhos dos investidores estrangeiros, o Brasil saiu mais forte da crise do que entrou", resume o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.
O resultado disso é que todos os bancos estão revendo para cima as projeções de ingresso de capital externo no país e, por tabela, jogando as estimativas para o preço do dólar para baixo. No início deste ano, com o mundo e o Brasil mergulhados na recessão o pessimismo imperando, o quadro traçado para o país era de escassez de capital estrangeiro e de um dólar próximo de R$ 2,40 em dezembro próximo. "Mas tivemos que refazer todas as contas. Somente para a moeda americana, mudamos as projeções quatro vezes. Começamos com R$ 2,40, baixamos para R$ 2,30, depois para R$ 1,80 e, agora, para R$ 1,70", conta o economista-chefe da Santander Asset Management, Hugo Penteado.
A convicção entre os economistas é de que, para os estrangeiros, o Brasil se tornou um oásis em meio aos escombros que começam a ser recompostos na maior parte do planeta. Sendo assim, o fluxo de investimentos estrangeiros diretos para o país deve dar um salto expressivo, superando US$ 25 bilhões neste ano e US$ 30 bilhões em 2010, apesar de toda a preocupação com os rumos da política econômica a partir de 2011, quando tomará posse o futuro presidente da República. As dúvidas são enormes seja o vencedor o governador de São Paulo, José Serra, seja a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
O que entusiasma o capital estrangeiro é que a retomada da economia brasileira está se dando por meio do consumo das famílias e da produção das empresas. É o mercado interno que vai garantir avanço entre 4% e 5% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano e nos anos seguintes. O Brasil, para os estrangeiros, não dependerá tanto da recuperação do mercado internacional, que deverá ser lenta e gradual segundo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o forte crescimento econômico até antes da crise se deu por meio do endividamento das pessoas, aqui, o avanço será calcado no emprego e na renda.
Gargalos à vista
O resultado de tamanho interesse pelo Brasil, na opinião de Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, é que o país ampliará, de forma progressiva, a sua participação no bolo do investimento estrangeiro direto, voltado para o aumento da produção, que circula pelo mundo. Mas, apesar do cenário positivo que se coloca, a trajetória futura do Brasil está condicionada à superação de uma série de gargalos. E a lista é grande: baixo nível de escolaridade e de capacitação da população, violência urbana, infraestrutura deficiente, carga tributária elevada, má qualidade dos gastos públicos, excesso de burocracia e degradação dos sistemas de representação política.
No entender de Porto, as direções do país estão dadas. Se o próximo governo realmente enfrentar os entraves para o crescimento sustentado por meio de "de uma agenda estratégica nacional, fruto tanto de um consenso entre os principais grupos políticos e econômicos quanto da crescente exigência da sociedade para a superação definitiva desses problemas", dentro de duas décadas o Brasil terá dado um salto para o Primeiro Mundo. Do contrário, se tornará um emergente retardatário, correndo atrás do prejuízo. Em vez de abocanhar 7,5% de todo o investimento estrangeiro direto em 2030, ficará com apenas 1,7% dos recursos, menos do que se viu em 2008: 1,9%.
Déficit maior
Sem poupança interna suficiente para se financiar, o Brasil dependerá cada vez mais do capital externo para fechar as contas e evitar problemas em seu balanço de pagamento. Nos cálculos de Hugo Penteado, com o esperado crescimento econômico em 2010, as importações darão um salto espetacular, fazendo com que o déficit em transações correntes praticamente dobre em relação a este ano: de US$ 14,5 bilhões para US$ 37 bilhões. Com isso, a necessidade de financiamento do país passará de US$ 40 bilhões para US$ 58 bilhões em apenas um ano.
Ou seja, o Brasil mostrou força durante a crise justamente porque manteve intactos os seus fundamentos macroeconômicos ? câmbio flutuante, inflação nas metas e superávit primário (menor, é verdade). Daqui por diante, a responsabilidade e a vontade de enfrentar os problemas serão vitais. Para o presidente do BC, o próximo presidente da República terá de dar a resposta que todos anseiam: se haverá ou não mudanças na política econômica. A seu ver, a boa administração econômica é necessária em qualquer país, em qualquer época, com ou sem crise. E os Estados Unidos estão aí para provar isso. "O país mais rico e poderoso do mundo entrou em uma crise brutal por má administração econômica", afirma. Portanto, não é hora de vacilos