07/05/2009
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SRZD - Sidney Rezende
O consultor da Macroplan, Rodrigo Ventura, fala sobre o G20, cujos países representam 85% da economia mundial e afirma que a partir de agora, os países desenvolvidos não podem tomar decisões sozinhos
Os historiadores do futuro, ao escreverem sobre o ano de 2009, poderão retratá-lo não apenas como um ano difícil, caracterizado pela maior crise mundial em oito décadas, mas, sobretudo, como o ano em que o mundo vivenciou uma marcante mudança na arquitetura geopolítica tradicional estabelecida em meio à Segunda Guerra Mundial. O ano de 2009 poderá ser lembrado pelas gerações futuras como aquele em que, no mês de abril, na capital da Grã Bretanha, foi estabelecido um novo foro para o encaminhamento, a discussão e a decisão das grandes questões mundiais.
O contexto mundial vem produzindo nos últimos anos um conjunto de fenômenos importantes nas mais variadas dimensões - econômica, política, ambiental, energética e tecnológica - que irão afetar estruturalmente a sua trajetória. Alguns desses fenômenos consistem em transformações ainda em curso que ainda não produziram todos os seus efeitos potenciais com destaque para o estabelecimento deste novo arranjo do processo decisório mundial.
A última reunião do G-20 (cujos países-membros representam 85% da economia mundial) convocada para enfrentar a crise, sepultou o G-7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido) e marcou a emergência de uma nova governança global. Ancorada em um grupo de países cuja diversidade econômica, política e cultural combinadas seria inimaginável poucos anos atrás, a ascensão do G-20 como instituição multilateral concede maior capacidade, representatividade e legitimidade ao processo de decisão em escala global.
Apesar da unidade ainda incipiente, a reunião do G-20 mostrou ao mundo que nesta nova governança mundial, as decisões têm de ser negociadas até que se chegue a um consenso - que, por seu turno, não é de plena satisfação de todos. O novo arranjo decisório revela que, sozinhos, os países desenvolvidos não têm mais voz absoluta. Portanto, os acordos futuros nas diversas áreas deverá ser fruto de uma combinação de interesses; uma concertação entre países desenvolvidos e emergentes.
Esta reconfiguração da geopolítica mundial simbolizada pela emergência do G-20 como foro privilegiado das decisões mundiais é, na verdade, reflexo e consequência de grandes mudanças em curso, em várias áreas. Tais mudanças jogam luz ao fato de que os países desenvolvidos, ao contrário do que se observou ao longo de todo o século XX, não mais possuem a supremacia do contexto econômico mundial. Pelo contrário: a economia global no século XXI é cada vez mais influenciada pelas decisões tomadas nas economias emergentes.
Nesse sentido, em 2005, a economia global registrou uma marca repleta de simbolismo. Pela primeira vez, em 150 anos, a riqueza combinada gerada pelos países emergentes contabilizou mais da metade de todo o PIB global (medido pela paridade do poder de compra). O FMI estima que, em 20 anos, os emergentes responderão por dois terços do PIB global.
Além de serem responsáveis pela maior parcela da geração da riqueza mundial, os países emergentes, nos últimos anos, tiveram influência crescente no desempenho das economias desenvolvidas, influenciando variáveis macroeconômicas críticas nestes países, tais como inflação, juros, volume de exportações e ingresso de investimentos estrangeiros diretos. Os emergentes, em conjunto, respondem por 43% das exportações mundiais - mais do que o dobro do registrado em 1970 (20%) -, consomem mais da metade da energia global, e foram responsáveis por 80% do crescimento da demanda por petróleo nos últimos cinco anos. Fruto deste crescimento, estima-se que 70% das reservas internacionais em moeda estrangeira estão concentradas em bancos centrais de economias emergentes, o que se constitui em ativo estratégico para a travessia da atual crise econômica.
A ascensão econômica dos países emergentes observada nos últimos anos gerou na economia global o maior impacto desde a Revolução Industrial ocorrida no século XVIII. Contudo, uma diferença importante reside no fato de que a Revolução Industrial envolveu apenas um terço da população mundial, enquanto que a "emergência dos emergentes" observada na última década influenciou direta ou indiretamente a realidade de toda a população mundial.
Como reflexo, a reboque das mudanças ocorridas no campo econômico, a rede urbana mundial também experimentou grandes transformações. Atualmente, há 3,3 bilhões de pessoas vivendo em cidades no mundo. Em 1960, 34% da população mundial vivia em cidades; em 1992 este percentual já havia se ampliado para 44% e, em 2008, alcançou 50%. A ONU estima que, em 2025, a população urbana representará 61% da população total.
Da mesma forma que os países emergentes apresentaram crescimento econômico diferenciado nos últimos anos, processo semelhante ocorreu no que se refere à intensificação da urbanização. Em 1950, apenas 3 entre as 10 maiores metrópoles mundiais pertenciam a países emergentes, enquanto que, em 2000, 7 metrópoles localizadas em países emergentes figuravam entre as 10 maiores metrópoles mundiais.
Dessa forma, a mudança do eixo do processo decisório mundial, desencadeada pela ascensão dos países emergentes, mostra ao mundo que crises globais demandarão soluções globais. A tomada de decisão em âmbito global no futuro estará calcada em um sistema policêntrico e descentralizado. Portanto, para que tenham legitimidade e representatividade, as soluções das principais questões e crises globais terão de passar pelos países emergentes. Tanto a crise econômica de hoje, quanto as potenciais crises futuras, tais como aquelas ligadas ao meio ambiente e aos efeitos das mudanças climáticas, a serem discutidas em Copenhagen, no final de 2009.