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Crise impõe dilema para os brasileiros
20/09/2015
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Correio Braziliense
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Conjuntura/Em meio às dificuldades, analistas veem chances de o país escolher entre reformas profundas ou medidas expansionistas, que nos levarão à situação atual da Argentina
Quando indagam a um brasileiro no exterior se ele vive em Buenos Aires, a resposta tende a demonstrar irritação. E há grandes chances de aumentar a confusão de identidade com o país vizinho, onde a inflação beira os 40% ao ano. É o que vai acontecer se o Planalto e o Congresso desistirem de vez do ajuste fiscal, abraçando uma política econômica expansionista, que faria explodir a carestia. Há também a possibilidade que o temor de um retrocesso mais grave nos empurre para reformas estruturais profundas.
Uma terceira possibilidade é que se continue com um ajuste insuficiente para recuperar a credibilidade, mas sem cair no descontrole total. "A continuação da lenga-lenga que vivemos é o caminho que considero mais improvável para os próximos anos. Vejo com mais chances, e iguais entre si, as opções de uma política populista ou o oposto disso: um retorno à racionalidade", afirma o economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan. "Acho que essa definição ocorrerá em breve, até o fim deste ano".
Deterioração rápida
A deterioração do quadro econômico do país desde janeiro impressiona o mundo. De três semanas para cá, porém, a piora é ainda mais radical. Na virada do mês, o governo apresentou ao Congresso Nacional, pela primeira vez na história, uma proposta de Orçamento com expectativa de deficit. O rombo previsto para 2016 é de R$ 30,5 bilhões, o equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Nove dias depois, a agência de classificação de risco Standard & Poor?s rebaixou a nota do país, transferindo os papéis do governo do grau de investimento para o especulativo.
Uma demonstração da drástica mudança no quadro está nas previsões da equipe do Banco Itaú que analisa a macroeconomia. Antes do orçamento deficitário, ela esperava queda no produto Interno Bruto (PIB) de 2,3% neste ano. Agora a retração prevista é 0,5 ponto percentual maior ( veja quadro ao lado) . Nos outros anos também houve piora.
O pacote de segunda-feira passada em nada modificou essas previsões, o que embute uma avaliação de que grande parte das medidas não irá se concretizar. Mesmo assim, se espera que o governo continue fazendo alguns esforços. "Sem isso, a relação entre dívida bruta e PIB vai piorar muito", afirma o economista Luka Barbosa, do Itaú. Mesmo com resultados parciais, a situação já vai ficar ruim. Somente para cobrir o déficit da Previdência, é preciso destinar 0,3% do PIB por ano.
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Estabilizar a dívida exigiria 2,5% de superávit primário, com o PIB crescendo 2% e juros reais não superiores a 4%, tudo em bases anuais. No quadro atual, seria preciso um primário de 5%. É preciso demonstrar ao menos a intenção de chegar lá, o que não se tem visto.
"Os ajustes já deveriam ter sido feitos no ano passado, o que não ocorreu por causa das eleições", diz o economista-chefe do banco Mizuhu, Luciano Rostagno. Ele prevê queda de 3% do PIB neste ano, e uma redução média de 0,45% nos quatro anos do segundo mandato de Dilma - para o Itaú a queda péda Serpa de 0,6%. "Falta visão de longo prazo. O governo tem uma atitude reativa, e não proativa?, completa.
É uma opinião praticamente consensual, não só no mercado financeiro, mas também na academia. "Dilma está sendo obrigada a fazer tudo o que não quer e, por isso, não faz com convicção", afirma o economista João Saboia, professor da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ).
"O país não está parando, está afundando", sentencia Porto, da Macroplan. O gerente de Câmbio da corretora Icap, Ítalo Abucater, é da mesma opinião. "Estamos retrocedendo 10 anos em quase tudo". Ele vê responsabilidade nisso não apenas em Dilma, mas também no ministro da Fazenda. "O mercado foi complacente com Joaquim Levy. O que se percebe agora é que ele não tem didática, boa comunicação ou traquejo político. Passa imagem de medo, como de uma criança diante de um cachorro bravo", critica Abucater.
Para vários analistas, o abandono dos esforços do governo levaria o país a uma forte mudança de patamar. "Expansionismo fiscal traria deterioração muito maior", diz Barbosa, do Itaú. "A inflação poderia chegar rapidamente a 20%. É algo que comprometeria toda uma geração", alerta Rostagno, do Mizuhu.
Para Porto, da Macroplan, embora o modelo expansionista seja visto como indesejável por muita gente, tem vários defensores tanto no campo político, quanto no mundo dos negócios. "Há empresários de setores ligados ao setor de consumo que veem isso como solução", explica.
O cenário que Porto mais vê como desejável é a retomada da agenda de reformas e um forte programa de privatizações, com a venda de instituições financeiras estatais e outros ativos importantes, reduzindo a dívida pública. Ele acha improvável, porém, que isso se concretize se Dilma continuar no poder. Só tende a se tornar realidade em caso de renúncia ou impeachment.
Abucater acha, porém que a troca de titular do Planalto antes de 2019, traria outros inconvenientes. "Dois casos de impeachments em 30 anos seria algo péssimo , um sinal de incompetência total do país", argumenta.
Para Saboia, independentemente da evolução do quadro político, o país conseguirá desatar seus nós. "A crise é mais política que econômico. E o Brasil é um país de enorme potencial, com um mercado interno muito grande. Não acredito que o páis vá se tornar algo como a Grécia".
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