FGTS tem R$40 bi na ciranda financeira

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21/04/2015 | Correio Braziliense
Trabalho/Parte do dinheiro dos trabalhadores está aplicada no overnight. No total, Fundo de garantia financia R$126,9 bilhões da dívida pública. Ministério da Fazenda recomenda este tipo de investimento para ajudar o Tesouro Nacional

Brasília - O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) se  torno um parceiro e tanto do Tesouro Nacional nestes tempos de desconfiança em relação à dívida pública.  Do patrimônio total dos trabalhadores de 405,45 bilhões, quantia equivalente a 12% do Produto Interno Bruto (PIB), R$126,9 bilhões  estão aplicados em títulos do governo federal l. Dessa fatia R$40,2 bilhões  vêm sendo movimentados no  overnight, o símbolo mais forte da ciranda financeira.

Os administradores do fundo dizem que esta é a melhor forma de fazer o dinheiro do trabalhador render - os juros são de 12,75% ao ano e o risco de calote está próximo de zero. Eles ressaltam, porém, que os ganhos acumulados com tais operações não são repartidos com os donos dos recursos. Esses são obrigados a se contentarem  com a remuneração de 3% ao ano mais a variação da Taxa referencial (TR). No ano passado o FGTS rendeu 3,83% . A inflação encostou nos 6,50%.

Para o economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan " é estranho que um fundo dos trabalhadores não seja gerido por eles, mas pelo governo". Essa distorção, acredita ele, é favorecida pela composição do Conselho Curador do Fundo, responsável por definir as diretrizes do patrimônio formado com as contribuições  mensais de 8% dos salários. A maior parte dos assentos do Conselho não é dos donos do dinheiro, mas de representantes da Esplanada dos Ministérios.

Coordenador-geral do FGTS, Quênio França, minimiza as críticas à gestão do fundo. Ele explica que as  aplicações em papéis do governo, especialmente em títulos de curtíssimo prazo, que são ofertados pelo Banco Central, são necessárias. "O FGTS precisa ter recursos suficientes para atender aos saques", explica. Segundo ele a alocação do dinheiro é ajustada todos os anos com vistas aos próximos quatro, e assim sucessivamente.

Os resgates do fundo, no ano passado, aumentaram 14% em relação a 2013, enquanto os depósitos cresceram 11%. Assim, a arrecadação líquida ficou 1,75% menor. Isso exige maior volume financeiro disponível a curto prazo.

Interferência

França nega que a aplicação de R$40,2 bilhões no overnight ou compromissadas, como gostam os técnicos do governo, seja uma imposição da equipe econômica. Mas reconhece que há alguma interferência do Ministério da Fazenda no direcionamento dos recursos.

Em 2012, implantou-se uma resolução para que os títulos comprados pelo FGTS sejam os de juros prefixados ou indexados à inflação. Pode-se argumentar que isso não é ruim para o dinheiro dos trabalhadores.  Mas também atende aos objetivos do credor, o Tesouro Nacional, quanto ao perfil que se busca para a dívida.

O economista-chefe da Opus Investimentos, José Márcio Camargo, chama atenção para o fato de que, dado o alto volume de compra de títulos, é inegável que o Tesouro se beneficia do FGTS."Sem isso, seria necessário pagar taxas mais altas para colocar os títulos no mercado". Ainda assim, ele ressalta que os papéis da dívida pública  são uma excelente aplicação para o fundo. "Só que o rendimento deveria ser dividido com os trabalhadores, e não é", frisa.

Ao ganhar com a taxa Selic, de 12,75% ao ano com  uma parte dos ativos e remunerar os trabalhadores abaixo da inflação, o FGTS acumula superávits. Com isso, o patrimônio líquido está positivo em R$ 75,02 bilhões. Segundo Quênio França, as sobras de caixa permitem que se conceda um volume maior de subsídios nos financiamentos ofertados pelo fundo. Em 2014, foram de R$ 7,9 bilhões para a casa própria, dos quais 65% destinados a cotistas do FGTS, que financiaram 480 mil unidades habitacionais, beneficiando 1,9 milhão de pessoas.