Aos olhos do mundo

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12/03/2015 | Exame
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Com os  Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro, que acaba de completar 450 anos, pode se firmar como uma cidade global. E isso nunca foi tão importante como agora

Os escritórios da empresa de consultoria EY no bairro carioca de Botafogo têm o que se pode chamar, sem exagero, de vista privilegiada. Por isso, José Carlos Costa Pinto, um dos sócios da empresa no Brasil, costuma submeter os forasteiros que o visitam a uma espécie de ritual. Primeiro ele os leva a uma sala com vista para o Pão de Açucar e o Morro da Urca. Em seguida, conduz os visitantes a outro ponto do escritório, onde os janelões dão para o Morro do Corcovado, com o Cristo Redentor no topo. "As pessoas ficam encantadas com estas paisagens, conhecidas no mundo todo", diz Costa Pinto. O problema: quando saem do prédio, para a rua eles encontram outra face da imagem internacional da cidade. "O Rio ainda tem problemas sérios de infraestrutura precária, segurança e pobreza", afirma. Eis uma dicotomia que tem muito a ver com o momento atual do Rio de Janeiro. Aos 450 anos, completados no dia 1º de março, a cidade atravessa um momento crucial em sua história.  Nos últimos anos o Rio de Janeiro deu sinais de ter interrompido uma fase de declínio iniciada na década de 60, quando perdeu o posto de capital federal para Brasília. Às vésperas da Olimpíada de 2016, os cariocas têm uma oportunidade para mostrara que , além de atrativos naturais, a cidade conseguiu achar um caminho para solucionar seus graves problemas. Não passar no teste, porém, reforçará, aos olhos do mundo, o estigma de ser uma terra abençoada pela natureza, mas incapaz de lidar com os desafios do desenvolvimento. O que vai prevalecer ? E quais serão as perspectivas do Rio após os jogos Olímpicos ? "Queremos transformar o Rio em um ícone global, não apenas pelas festas e pelas praias", diz o prefeito Eduardo Paes. "Vamos ser reconhecidos internacionalmente como referência no desenvolvimento da tecnologia do petróleo e por termos conseguido construir uma sociedade mais justa".

Trata-se de uma visão ambiciosa, sem dúvida - e faz todo o sentido que os cariocas e demais brasileiros batalhem por ela. Caso tudo se concretize, o Rio estará mais pertos de se firmar no cenário internacional como uma cidade global. O termo foi cunhado nos anos 90 pela socióloga holandesa Saskia Sassen para designar cidades que se conectam a outros grandes centros e constituem uma espécie de rede mundial de metrópoles. São polos financeiros, culturais e de consumo com capacidade para se articular globalmente. Para Saskia, há pouco mais de duas décadas, apenas Nova York, Londres e Tóquio eram realmente dignas desse nome. De lá para cá, com o crescimento das economias emergentes e a evolução na tecnologia e nas comunicações, o número de cidades globais se ampliou para quase uma centena. "No Brasil, além do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília têm vocação global", diz Saskia. "Mas essas cidades ainda deixam a desejar no que diz respeito ao tecido social".

Motores do crescimento

Para o Brasil, talvez nunca tenha sido tão importante  ter cidades globais como agora. Os grandes centros urbanos costumam ser motores do crescimento da economia. Mais produtivas do que a média de seus países e com condições para atrair mão de obra qualificada, as cidades com vocação internacional quase sempre se encontram  em posição melhor para liderar a saída das crises. "As cidades globais são mais flexíveis e reagem mais rapidamente nos momentos difíceis", diz Willem van Hinden, especialista em urbanismo e crescimento regional no Euricur, centro de estudos urbanos comparados da Universidade Erasmus, de Roterdã, na Holanda. "Por isso, países nos quais há uma grande cidade global têm vantagens". Um estudo  publicado no início do ano pelo Brookings  Institution,  centro de pesquisa em gestão pública, com sede em Washington mostra que no ano passado um terço das 300 maiores cidades do mundo superou os indicadores de crescimento, nível de emprego e geração de riqueza per capita de seus países. Juntas, estas 300 grandes áreas urbanas concentram 20% da população e dos empregos do planeta e são responsáveis por quase metade do PIB global. 

A boa notícia: recentemente, o Rio de Janeiro passou a figurar nos principais rankings de metrópoles globais. Um deles, feita pela consultoria A.T.Kearney , classifica o Rio na 56ª posição  de uma lista de 84 cidades. O Rio também estreou no ano passado em outro levantamento, da consultoria PwC, com mais 30 cidade que melhor equilibram aspectos como capital intelectual, tecnologia, infraestrutura, saúde e ambiente econômico.  O Rio ocupa o 27º lugar , à frente da queniana Nairóbi, da indonésia, Jacarta e da indiana Mumbai e atrás de São Paulo ? a lista é liderada por Londres, seguida por Nova York e Singapura. Para o egípcio Hagem Galllal, líder da área de governos estaduais e municipais da PwC, as cidades que quiserem figurar nas primeiras posições precisam da infraestrutura, capital humano, bons serviços e ambiente favorável  á inovação. "Apesar de ter sido incluído no ranking o Rio, assim como São Paulo, tem deficiências em muitos destes aspectos", diz. Em outras palavras, as metrópoles brasileiras estão numa espécie de segunda divisão das cidades globais.

Como o Rio pode perseguir as primeiras colocações ? No livro Depois dos Jogos - Pensando o Rio para o Pós  2016 organizado pelo economista Fabio Giambiagi, autores como o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sugerem rumos. São ideias que fariam da cidade uma mistura de Barcelona, cuja economia depende em boa medida dos turistas atraídos pela beleza e patrimônio cultural local, com Houston, a  capital de petróleo nos Estados Unidos. Para além da energia e do turismo, Giambiagi sugere que o Rio também pode ser percebido como um destino do turismo de negócios e se tornar referência em competições esportivas,  na esteira da experiência e da infraestrutura acumulada não só com a olimpíada mas também com a realização da Copa do mundo de 2014 e do Pan Americano de 2007."O Rio já tem uma marca global, mas é preciso trabalhar e explorar mais esta imagem", diz Giambigi. "A cidade tem potencial para mais".

Um dos atributos cariocas é a presença internacional da cidade em áreas como a da negociação de acordos climáticos. O prefeito Eduardo Paes preside o C-40, grupo que reúne líderes de 63 cidades do mundo para discutir o papel das prefeituras na tarefa de retardar os efeitos das mudanças do clima.  Rio de Janeiro e Buenos Aires estão coordenando uma reunião que representantes das principais cidades latino americanas terão em 27 de março para tentar criar um consenso sobre o que a região deverá defender na reunião COP 21, a conferência da Organização das Nações  Unidas sobre o Clima,  marcada para Paris no fim do ano. ?Estamos tentando mudar uma tradição de pouco contato entre cidades brasileiras e as do resto da América Latina?, diz o diplomata Laudemar Aguiar, coordenador de relações internacionais  da prefeitura do Rio de Janeiro. Esse tipo de negociação liderado por cidades tem um nome: paradiplomacia. ?Cidades não discutem os conflitos na Síria, mas podem tratar de parcerias pragmáticas para melhorar a vida dos cidadãos?, diz Rodrigo Tavares, que até o ano passado coordenava a área de realções internacionais do Estado de São Paulo - agora ele está criando um centro de pesquisa para a paradiplomacia na Universidade de Harward, nos Estados Unidos.

Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia,  e cuja região metropolitana que tem seis milhões de habitantes, é um exemplo de como entrar no jogo diplomático pode ajudar na expansão. A cidade colombiana foi pioneira ao montar uma agência de promoção internacional  ainda em 2002, muito antes de qualquer cidade Brasileira. A similar Rio Negócios - da prefeitura carioca - foi criada em 2010 . Na época, o único objetivo da agência era promover Medellín globalmente, mostrando o aumento da segurança pública - os homicídios haviam caído 80% em 20 anos - e os projetos da renovação urbana, com a construção de escolas, bibliotecas e infraestrutura de transportes. Em 2006, a agência acabou recebendo também a missão de buscar investimentos estrangeiros. De lá para cá, os negócios intermediados por seus funcionários trazem, em média, 140 milhões de dólares ao ano de investidores internacionais.  Boa parte deste montante é aplicada por empresas de tecnologia. O objetivo de Medellín é ser a cidade mais inovadora da América Latina até 2023.  Parte da estratégia de Medellín consiste na criação de uma rede mundial de cidades parceiras.  O plano já tem resultados:  a espanhola Barcelona está ajudando a revitalização do centro histórico de Medellín. 
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Zonas de segurança

Assim como em Medellín, pelo menos numa área essencial para o Rio de Janeiro - a segurança pública  - houve avanços expressivos nos últimos anos. Desde 2008 a taxa de homicídios na cidade caiu quase pela metade, chegando perto de 19 assassinatos por 100.000 habitantes no ano passado. O indicador é alto quando comparado com o de outras cidades globais: em Nova York há  quatro homicídios ao ano para cada 100 mil pessoas. A melhora no Rio cojincide  com o período em que foram criadas as  Unidades de Policia Pacificadora ( UPP) , instalações para monitorar as favelas. Hoje há 41 UPPs em áreas nas quais, somadas, vivem 712 mil pessoas. Mas os desafios continuam enormes. O Rio tem 763 favelas, e muitas áreas da cidade estão longe de ser pacificadas. Um exemplo: a companhia americana de entregas FedEx Express vai mudar a localização de seu Centor de Distribuição, de 30.000 metros quadrados instalado na Pavuna, bairro da zona Norte. Fruto de um investimento de 12 milhões de reais e inaugurado em 2009 o Centro de Distribuição opera com insegurança. "Sofremos muitos assaltos e há vários casos de motoristas nosso que foram sequestrados por ladrões de carga", diz Guilherme Gatti, diretor de marketing da divisão América Latina e Caribe FedEx Express. A empresa procura agora terrenos para montar um novo centro. "A violência afastou empresas e ajudou a deixar a cidade no fundo do poço" , afirma Marcelo Haddad, diretor executivo da Rio Negócios. "Recuperar a confiança das pessoas na segurança pública é essencial para a tranquilidade da população e dos investidores". 

Para o país é importante que grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo sejam vistas como lideranças latino americanas. Globalizadas, as duas principais metrópoles brasileiras podem se transformar num eixo de desenvolvimento ainda mis importante do que são hoje. A melhor analogia está na Costa Leste dos Estados Unidos. À medida que Nova York se consolidou como centro financeiro global, Boston se transformou num destino  para gestoras de recursos que querem estar por perto. Algo semelhante poderia ocorrer no Brasil.  A Brain - associação criada por  instituições brasileiras para trabalhar em prol da melhoria do ambiente de negócios no eixo Rio-São Paulo -  está elaborando um estudo sobre o que o país precisa fazer para atrair investimentos e consolidar a capital paulista como principal centro financeiro latino-americano. Suas primeiras conclusões mostram que boa parte da tarefa depende de órgãos federais. Seria preciso, por exemplo, que o Banco Central facilitasse o câmbio de moedas de outros países da América Latina. Outra  recomendação é que o ministério da Fazendo firme acordos de tributação para que os investidores não paguem impostos duas vezes - no país de origem e no Brasil. Algo que pode ajudar é o fato de o ministro Joaquim Levy foi presidente da Brain até novembro do ano passado e conhece bem o tema. Hoje em dia, só gestores de recursos que administram mais de 70 bilhões de reais. "Imagine o que aconteceria na economia carioca se São Paulo pudesse se consolidar como um centro financeiro latino-americano?", diz o economista André Sacconato, da Brain. 
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Recessão no horizonte

Os cariocas enfrentam, porém, alguns desafios imediatos. Um deles é o cenário recessivo na economia do país - a arrecadação do imposto sobre mercadorias  e serviços do governo fluminense encolheu 2,5 bilhões de reais em 2014, prejudicando a capacidade de investimentos estaduais na capital. O Outro é o fim do período de euforia na indústria petrolífera, causada pelos problemas  enfrentados pela Petrobras e pela queda nas cotações internacionais. A arrecadação de royalties do estado deverá encolher 2,4 bilhões de reais neste ano. O Parque Tecnológico de Fundão, desenvolvido principalmente para atender a cadeia de petróleo, pode ter uma onda de demissões. A multinacional Siemens há pouco dispensou 750 funcionários, a maioria deles engenheiros, do seu centro de pesquisa no Fundão. O setor naval também está abatido. O estaleiro carioca Inhaúma, operado pela Enseada, empresa controlada pelas construtoras Odebrecht, OAS e UTC, citadas na Operação Lava-Jato, vai entregar sua última plataforma  para a Petrobras até o fim do ano e poderá cortar seus 6000 trabalhadores, já que a estatal vetou a contratação de novas encomendas. Conclusão: a cidade terá que se adaptar a uma temporada de baixa no setor petrolífero. Não é que o cenário para quem vive  e faz negócios no Rio de Janeiro tenha deixado de ser sedutor, mas é preciso afastar as nuvens do horizonte - e aproveitar bem a chance  da Olimpíada para brilhar aos olhos do mundo.

Para o Rio ter um futuro melhor

Os cinco maiores desafios que o Rio de Janeiro tem de enfrentar para se tornar uma cidade mais desenvolvida, segundo a consultoria Macroplan

1. Recuperar o dinamismo da economia. Na última década, a economia do Rio de Janeiro cresceu menos do que a do pais - e as dificuldades  que a Petrobras e a indústria do petróleo passam agora não vão facilitar novos avanços.

2. Aumentar a competitividade. O ambiente de negócios do Rio melhorou - algo essencial para diversificar a economia. Mas ainda está distante do oferecido por outras grandes cidades.

3. Diminuir a desigualdade.Desde o ano 2000, num período em que o Brasil diminuiu a desigualdade , distância entre ricos e pobres amentou no Rio de Janeiro.

4. Aumentar a mobilidade urbana. O carioca perde mais tempo no trânsito do que o paulistano para ir de caso ao trabalho.

5. Melhorar a segurança pública. O Rio avançou no combate à violencia com a instalação das Unidade de Polícia Pacificadora nas favelas mas ainda falta muito para tornar a cidade pacífica.