Agenda prioritária

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23/01/2015 | Valor Econômico
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Maior metrópole do país com cerca de 12 milhões de habitantes e pouco mais de 11% do PIB nacional, São Paulo é considerada uma das cem cidades globais que deverão ter influência crescente no mundo nas próximas décadas. Para reforçar sua presença na cena internacional, seja atraindo investimentos ou antecipando tendências, os principais desafios da capital paulista são conciliar crescimento com uso racional do espaço urbano e ampliar de forma consistente a incorporação de tecnologia de ponta em diversos setores, como saúde e infraestrutura urbana. Ssim, a cidade, que completa 461 anos domingo, poderá adensar cadeias produtivas instaladas, como de serviços de saúde e bens de capital sob encomenda, e atrair investimentos em tecnologias usadas em cidades inteligentes.

Desde o início da década passada, a capital tem perdido participação na economia nacional, apesar de ainda permanecer como  maior locomotiva nacional. A gerente do PIB dos municípios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), Sheila Zani, observa que parte da perda econômica da capital paulistana tem sido capturada por outros Estados, como Pernambuco, e também por outras cidades paulistas. Campinas e Jundiaí registraram alta participação do stetor de serviços nos últimos cinco anos. A redução tem outro motivo ainda: "Nesses últimos anos, a atividade  que mais cresce no país e a extrativa mineral, que não estava concentrada na capital  nesse período", afirma.

Em 2002, a capital respondia por 12,7% do PIB; em 2012 essa fatia caiu para 11,4%, com redução da participação da indústria, que diminuiu sua resença de 10,9% para 7,6% do valor adicionado do setro no país, e dos serviços, cuja adição de valor nacional caiu de 14% para 13%, segundo dados da conusltoria Macroplan. Esse fenômeno está ancorado em três movimentos simultâneos: 1) a dificuldade de competitividade do país no cenário internacional teve peso maior sobre São Paulo, a economia mais industrializada  e sofisticada; 2) o maior crescimento das regiões Norte, Centro-Oeste  e Nordeste e a ascensão da classe média reduziram desigualdades e atraíram investimentos para outros centros; 3) os custos urbanos da megalópole têm crescido. "Isso traz desafios para o futuro da cidade, que terá de mapear os setores dinâmicos que poderão adensar segmentos com vantagens competitivas locais, como finanças, saúde, recursos humanos, serviços empresariais", destaca  o diretor associado da Macroplan, Gustavo Morelli.

Para Morelli, a  agenda para construir um futuro promissor da cidade de São Paulo terá de seguir cinco pontos: como atrair mais capital humano qualificado, planejamento de longo prazo, uso de maior inteligência urbana, como melhorar a governança na região metropolitana  para evitar gargalos de infraestrutura, como a atual crise hídrica que ameaça o consumo na maior cidade da América do Sul; instituições fortes ancoradas em  gestão profissional . "São Paulo é uma das cem cidades globais do mundo que terão papel essencial na discussão do futuro. Ela precisa se consolidar e capturar as oportunidades existentes e precisa ter um grau de ousadia para avançar nas soluções", aponta Morelli.

O tamanho e a complexidade dos serviços oferecidos na capital paulista abrem oportunidades de negócios. A prefeitura trabalha em uma das maiores Parcerias-Público-Privadas (PPP) do setor de energia elétrica do mundo, com foco na iluminação pública da cidade. Com um contrato que pode chegar a R$7,2 bilhões, a PPP prevê a renovação de 580 mil Lâmpadas por luminárias de tecnologia melhor e mais econômica e a criação de um centro de controle operacional que permita o monitoramento em tempo real de  cada ponto de luz. Assim, a concessionária terá a gestão integral da rede que tem mais de 40 anos de uso e hoje possui custo alto de manutenção. "Várias cidades estão trabalhando para criar PPP´s de iluminação pública, olhando o que São Paulo está fazendo", afirma a advogada Rosane Maria de Menezes Lohbauer, sócia da MHM Sociedade de Advogados.

No mundo, metade da população mora nas cidades e consome 75% da energia elétrica produzida pelo planeta. Em 2030, 70% das pessoas estarão nas zonas urbanas, o que pressionará ainda mais a busca por soluções sustentáveis não apenas de energia, mas de outros ramos da infraestrutura urbana. As cidades terão de ter cada vez mais inteligência. Os sistemas de energia terão de conversar com os de telecomunicações, chips nos carros darão novas possibilidades para os centros de comando de trânsito das grandes cidades.

Para Fernando Mac Dowell, engenheiro especialista no setor de transportes, tecnologia de trânsito é um ponto negligenciado pelas cidades brasileiras. Em Cingapura, os veículos rodam com tarjetas eletrônicas, enquanto sob o asfalto sofisticado equipamento permitem que a autoridade de tráfego possa saber onde cada carro está, o que permite direcionar semáforos e usar equipamentos inteligentes melhorando o fluxo em cada horário. "Se cair uma árvore, os semáforos podem trabalhar com tempo de aberturas diferenciado para reduzir transtornos. Isso se torna ainda mais importante em cidades do tamanho e complexidade como São Paulo".

O uso de ferramentas tecnológicas é também uma demanda social. Pesquisa da Ericcson, com dados reunidos em São Paulo, Pequim, Nova Déli, Londres, Nova York, Paris, Roma, Estocolmo e Tóquio, aponta que os paulistanos estão cada vez mais interessados em usar seus smartphones para tirar dúvidas relacionadas à saúde, comunicar-se com autoridades e trafegar pela cidade.

Em vários pontos da sondagem, como mobilidade urbana e água, os paulistanos ficaram entre os mais interessados em ter em mãos informações atualizadas. "Os cidadãos querem que os serviços atuais habilitem suas informações on-line para seus serviços. Isso significa, por exemplo que as autoridades  da cidade devem fornecer serviços de tecnologia de informação e comunicação relacionados ao tráfego, serviços públicos e qualidade da águas", diz Júlia Casagrande, especialista do ConsumerLab da Ericcson no Brasil

Investir em tecnologia de ponta não é condição suficiente para a cidade em alguns casos. Entre cidades americanas e sul-americana, São Paulo está na liderança quando o assunto é trânsito. Pesquisa da TomTom, empresa europeia de tecnologia de transporte, aponta que motoristas da capital perdem mais de 45 minutos para cada hora dirigida nos horários de pico. Resolver esta questão exige não apenas investir mais em transporte público, mas aplicar uma nova política de uso  do solo na metrópole. A oferta de empregos e vagas em escolas na zona oeste paulista é 20 vezes superior à da zona leste.

As seis subrefeituras que formam o centroexpandido da cidade ( Sé, Pinheiros, lapa, Vila Mariana, Santo Amaro e Mooca) reúnem  17% da população paulistana, mas 64% dos empregos da cidade. Já a zona leste concentra quase 40% da população da cidade, mas oferece apenas 15% dos empregos disponíveis na capital paulista. "Enquanto a polítcia de uso do solo estiver em conflito com a de transportes, o problema persistirá", afirma Eduardo Padilha, professor do Insper.

Há outros gargalos a serem solucionados. Menos de 5% dos bairros paulistanos possuem serviço de coleta seletiva de lixo. Em saúde, falta ampliar o acesso á população aos serviços básicos, antes de das passos maiores, como outras cidades pelo mundo. Em Cingapura, o governo local tem investido na automatização dos cadastros dos pacientes e dos prontuários. Quem vai mais de quatro vezes ao hospital no período de um ano passa por uma avaliação mais criterioso dos órgãos de saúde, para que os médicos possam entender o que está ocorrendo. Isto acaba reduzindo gastos com saúde pública e ampliando a qualidade de vida dos habitantes do país asiático. "Temos um longo caminho para que as ações deixem de ser pontuais e se tornem estruturais, principalmente porque temos questões básicas a resolvermos, mas a principal virada teria de vir da existência de um planejamento de longo prazo, para não ficarmos reféns de mudanças a cada quatro anos", diz Padilha.
Dinamismo depende de mais inovação

Hoje, na avaliação de especialistas, o grande desafio para que a economia da capital paulista não sofra reduções em seu dinamismo é que a substituição  da perda de participação das indústrias ocorra com o incremento mais significativo de serviços modernos, de maior valor agregado, como financeiros, os ligados à tecnologia da informação, consultorias, publicidade, marketing, atividades jurídicas, etc.

"Os serviços modernos precisam ser mais incentivados. Desta forma, haverá uma compensação, mesmo que o impacto na cadeia não seja grande", avalia Nelson Marconi, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP). Para ele, a economia do município não pode se acomodar apenas com o desenvolvimento de serviços tradicionais de limpeza, de entrega, de vigilância ou de atendimento a clientes (call centers).

Adriana Fontes, economista da Macroplan, reforça que para a economia da cidade  avançar com maior participação de serviços modernos serão necessários fortes investimentos em capital humano. "O município precisará de profissionais qualificados, criatividade, inovação, empreendedorismo e de mais ligações com redes globais", afirma Adriana.

A economista  acredita que a maior cidade do país terá que aperfeiçoar seu ambiente de negócios e se envolver ainda mais com municípios vizinhos. "Muitas vezes, as soluções para problemas, requerem governança metropolitana, visão integrada da região", afirma.