A crise financeira mundial e seus impactos sobre o setor de óleo e gás no Brasil: uma análise prospectiva exploratória

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08/01/2009 | TN Petróleo
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Até o final de agosto de 2008, o Brasil atravessava seu melhor momento econômico dos últimos 30 anos. A expansão do crescimento econômico mundial registrada nos anos recentes ampliou a demanda e os preços de commodities nas quais o Brasil é altamente competitivo. Com isso, o País obteve expressivos saldos na balança comercial e acumulou reservas internacionais, que se ampliaram de US$ 45 bilhões, em 1998, para US$180 bilhões, em 2007. O perfil da dívida pública federal melhorou e o Brasil tornou-se credor externo líquido. A economia brasileira aumentou sua atratividade externa, com os investimentos estrangeiros diretos (IED) alcançando US$ 33,7 bilhões em 2007, um recorde histórico.
Como conseqüência deste conjunto de fatores, nos últimos anos o crescimento econômico brasileiro se acelerou. O desempenho do PIB brasileiro no 1º semestre de 2008 superou as expectativas do mercado: o Brasil cresceu 6% em relação ao mesmo semestre do ano anterior. No mesmo período, os investimentos registraram alta de 15,7%, o que permitiu à taxa de investimento em relação ao PIB alcançar a marca de 18,7%.

Adicionalmente, a economia brasileira contabilizava duas conquistas estratégicas: o alcance do investment grade e a descoberta de reservas petrolíferas na camada do pré-sal, que asseguravam ao País diferenciais competitivos de grande valia em âmbito global neste início de século.

Foi neste contexto que a Macroplan publicou, em agosto de 2008, o estudo "Quatro Cenários Econômicos para o Brasil 2008-2014", tendo como foco a principal incerteza relativa à evolução da economia brasileira no médio prazo: "o Brasil alcançará ou não uma trajetória de crescimento sustentado e em patamares elevados nos próximos seis anos?" Esta incerteza se desdobra em duas outras de menor ordem. Uma incerteza externa: "como evoluirá o comportamento do ambiente econômico mundial em relação ao Brasil?". E outra voltada às questões internas do País: "com que intensidade o Brasil enfrentará os gargalos estruturais ao seu desenvolvimento sustentado nos próximos anos?".

Os cenários alternativos para o futuro da economia brasileira no horizonte 2014 surgem a partir de combinações das diferentes hipóteses associadas a cada uma dessas incertezas. A hipótese de permanência de um ambiente internacional predominantemente favorável ao País, tal como ocorreu nos últimos anos, combinada às descobertas no pré-sal e ao início da superação de alguns importantes gargalos ao crescimento, poderiam conduzir o Brasil a condições de desempenho parecidas com as da economia chinesa na última década, guardadas as devidas proporções. Esta possibilidade de futuro é ilustrada pelo cenário "Um Salto para o Futuro", onde a economia brasileira apresentaria taxas de crescimento do PIB próximas a 6% a.a. até 2014 enquanto a taxa de investimento em relação ao PIB alcançaria 25% até o final do período. Neste mesmo cenário, o País atrairia um investimento externo direto (IED) próximo a US$ 70 bilhões em 2014.

Todavia, no início de setembro, a crise financeira internacional - antecipada nos cenários "Travessia na Turbulência" e "Baleia Encalhada" - finalmente eclodiu e, muito embora fosse altamente previsível, exibiu e continua exibindo intensidade e rapidez de propagação muito maior do que se imaginava inicialmente, sinalizando a possibilidade de amplas mudanças no quadro econômico mundial, com reflexos sobre o Brasil.

Os primeiros sinais da crise emergiram em meados do ano passado, mas a situação agravou-se nos últimos meses, a partir da quebra do Lehman Brothers, uma das maiores instituições financeiras norte-americanas. A crise se disseminou para os principais mercados desenvolvidos e emergentes, adquirindo caráter sistêmico. A possibilidade de uma recessão mundial e a desalavancagem financeira pressionaram o preço das commodities para baixo nos últimos meses, e ato contínuo, a maioria das companhias resolveu adiar seus investimentos, pois a preservação do caixa passou a ser prioritária nesses tempos de turbulência e escassez.

Diante de acontecimentos dotados de tamanha magnitude e imprevisibilidade, é preciso procurar entender a natureza do fenômeno, mapear os impactos previsíveis e identificar as novas incertezas emergentes. No mundo, é certo - ou quase certo - que contaremos com um aumento da regulação sobre o sistema financeiro, diminuição da liquidez, maior aversão ao risco e desaceleração da economia global. Já no Brasil estamos convivendo - e provavelmente conviveremos por um certo tempo - com contração de crédito e aumento do custo de capital, redução do investimento estrangeiro direto e desaceleração do crescimento econômico.

Embora muitos impactos sejam previsíveis, o fato é que a crise semeou novas incertezas em escala global, dentre as quais podem ser destacadas: i)"a economia mundial seguirá rumo a uma forte recessão ou a uma reativação em prazo relativamente curto?" ,ii) "Como evoluirão os preços das commodities?"; e iii)"conseguirão as economias emergentes sustentar o crescimento econômico global em patamar mediano, a despeito da desaceleração mais acentuada das economias desenvolvidas?".

Dentro deste contexto, é relevante avaliar os impactos trazidos pelas turbulências do panorama econômico internacional sobre o setor de óleo e gás no Brasil. Nos próximos dois anos a trajetória ascendente (em longo prazo) do preço do petróleo, assim como o aumento da demanda por biocombustíveis e o incremento da participação do gás natural na matriz energética nacional serão mantidos .

Finalmente , a crise implicará também em mudanças em curto e médio prazos sobre a indústria de óleo e gás. Entre elas destacam-se a desaceleração da demanda mundial por petróleo e derivados e a oscilação de preços - provavelmente em patamares semelhantes aos de 2005/2006. É provável que pelo menos nos próximos dois anos novos projetos de investimentos sejam adiados, e que as empresas tenderão a priorizar os esforços para aumento da eficiência operacional, controle e redução de custos de investimentos e de operação.

Dessa forma, pode-se concluir que, ao menos nos próximos dois anos, todo o setor de óleo e gás, bem como indústrias correlatas, como petroquímica, fertilizantes e serviços associados, terá de enfrentar um período de escassez. Nesse contexto, em resposta à crise, é oportuno e necessário às empresas a formulação e operação de uma estratégia empresarial de travessia. Quanto maior for a escassez e a incerteza, maior será a vantagem competitiva de se ter objetivos estratégicos claros e uma boa gestão de suas ações.