09/11/2014
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O Povo (CE)
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Gustavo Morelli lê a próxima década
O economista Gustavo Morelli é diretor da consultoria Macroplan. Ele conhece o Nordeste e, em especial, o Ceará. Fez um trabalho para a Fiec. Segundo ele, a região precisa se preparar para a próxima década. Um tempo no qual capital humano será mais valioso do que incentivos fiscais e mão de obra barata. Na manhã de quarta-feira, durante o primeiro dia do Encontro Nacional da Indústria (Enai), em Brasília, ele dividiu o palco com o ex-ministro Luiz Fernando Furlan, hoje no Conselho de Administração da BRF, e com o presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter. Depois, ele conversou com a Coluna.
VERTICAL S/A - Onde se encaixa a agenda do Nordeste nesta agenda nacional da indústria?
GUSTAVO MORRELLI - A região é quem tem puxado em boa medida o crescimento do PIB brasileiro nos últimos anos. O desempenho nacional tem sido muito baixo e seria mais baixo ainda se o Nordeste não tivesse participado tanto. E tem participado principalmente porque o mercado de consumo na região aumentou muito, não só de gêneros alimentícios, como os bens duráveis de primeira necessidade, coisas ligadas à casa. E aí você pode fornecer isso a partir de indústrias mais distantes, fora da região ou de indústrias localizadas na própria região Nordeste. Vejo que o crescimento do mercado consumidor na região abre muito a possibilidade do desenvolvimento de plantas industriais para atender o consumo crescente da nova classe C.
VSA - Mas as empresas continuam indo para o Nordeste, sobretudo, em função de mão de obra barata e incentivo fiscal, não?
GUSTAVO - Cada vez mais isto deixará de ser importante. A mão de obra e o incentivo tendem a perder espaço. Não deixa de existir amanhã, mas se falarmos num horizonte de 10, 20 anos isto deixará de ser relevante. O que será mais importante é a capacidade de ter capital humano para colocar nas empresas. Então você de ter mão de obra formada com escolaridade. Hoje o exigido para trabalhar numa indústria é o segundo grau completo e cada vez mais vai ser assim. Você precisa aumentar a produtividade, então precisa ter gente boa. Tem que ter investimento em inovação, tecnologia, equipamento. E este conjunto de coisas é que vai dar a produtividade final da empresa. Esta produtividade, vamos chamar assim, verdadeira. Esta produtividade viabilizada por meio de incentivos fiscais, de subsídios energéticos, ou de alguns favores para instalação- tipo infraestrutura próxima - ainda terá importância nos próximos anos, mas a tendência dela é reduzir. Sobretudo, com a perspectiva de que em algum momento o Brasil vai ter de fazer uma reforma tributária, vai ter de mexer na legislação do ICMS e os estados provavelmente perderão parte do espaço que têm hoje para promover este tipo de política. Eu continuaria atuando em torno destas políticas. Isto é regra do jogo, é válido, mas eu não apostaria todas as minhas fichas nessas políticas. É preciso, ao lado delas, se preparar para um novo jogo que vai começar a ser jogado daqui a 10 ou 20 anos. E a condição básica é ter mão de obra qualificada.
VSA - Você vê algum estado se preparando para isto?
GUSTAVO - A região tem estados que têm capacidade de alavancar o Nordeste pro seu desenvolvimento. Basicamente, Bahia, Pernambuco e Ceará. Nestes três estados será jogado o jogo que terá capacidade de fazer avançar a região. Embora os outros também tenham participação, a grande parte da matriz industrial do Nordeste, do mercado consumidor e da infraestrutura está colocada nos três. O que não está claro é se os três seguirão uma mesma dinâmica. O que foi possível ver nos anos recentes é que Pernambuco conseguiu acelerar seu desenvolvimento, o Ceará também evoluiu, mas diria que num ritmo um pouco mais lento, e a Bahia me parece ainda num ritmo um pouco mais lento do que ambos. Neste jogo é que se geram algumas complementaridades entre as economias. Elas não são exclusivamente concorrentes. Importante enxergar que se for gerada sinergia entre as economias pernambucana, baiana e cearense, ganha todo o Nordeste.