Mercado sai arranhado com denúncia da Petrobras

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15/11/2014 | Correio Braziliense
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A imprevisibilidade faz parte da dinâmica do mercado financeiro. Mas os investidores sabiam que ontem seria uma sexta-feira mais agitada do que o normal. Na noite anterior, a Petrobras havia anunciado que não divulgaria o balanço do terceiro trimestre no prazo determinado. Algo raro. O adiamento, por si só, já era motivo para uma dose extra de pressão sobre os papéis da estatal. Logo no início da manhã, o cenário já ruim ficou ainda pior. A Operação Lava-Jato, comandada pela Polícia Federal (PF), prendeu executivos da Petrobras e das maiores empreiteiras do país, sacudiu a bolsa, fez o dólar disparar e selou um dia de muita apreensão, na política e na economia.

Antes de a lista de presos ser divulgada - incluindo ex-diretores da estatal -, a cúpula da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) percebeu a tensão e, em atitude tomada somente em casos extraordinários, decidiu segurar o início da venda de ações da Petrobras. Era preciso avaliar com cuidado as condições dos negócios envolvendo os papéis daquela que, antes de se perder nos escândalos de corrupção, ostentou o título de maior empresa brasileira. Uma hora e meia depois da abertura do pregão, com os ânimos menos afoitos, as negociações foram iniciadas.

Mau humor

Após forte queda de mais de 5% no fim da manhã, as ações da Petrobras chegaram ao fim da sessão com recuos mais sóbrios: as ordinárias caíram 2,67% e as preferenciais, 2,94%. O valor dos papéis sem direito a voto fechou a R$ 13,20 ? menor até do que os de muitas petroleiras de médio porte ? com desvalorização de 39% em um mês. O mau humor dos investidores também puxou para baixo ações importantes na composição do Ibovespa, o principal índice da bolsa brasileira, como as da Eletrobras (-4,88%) e as do Banco do Brasil (-1,49%).

Ainda ressacados pela baixa do preço do minério, os papéis da Vale conseguiram respirar (2,40%), depois de repetidas perdas. O bom desempenho atrelado à mineradora foi fundamental para salvar o dia, compensando o desastre da Petrobras e fazendo a bolsa registrar, no fim da sessão, uma leve queda, de 0,14%. Na semana, porém, o freio foi bem mais significativo, de 2,72%.

Sobram motivos para o mercado andar desconfiado com os rumos econômicos do país, com reflexos evidentes do comportamento da bolsa e do câmbio. Por ora, ninguém arrisca bater o martelo sobre os nomes do novo ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central. O ex-chefe do BC Henrique Meirelles teria dito em reunião com executivos do Banco Original na última terça-feira, em São Paulo, que não deve aceitar a indicação para a Fazenda. Se confirmada a recusa, diante das possibilidades atuais, sobraria Nelson Barbosa na lista de cotados para o cargo.

Enquanto não ficar claro como a economia do país será conduzida no segundo mandato da presidente reeleita Dilma Rousseff (PT), os dias seguirão agitados no mercado financeiro, sustentou o economista-chefe da CMA, Carlos Lima. Tão importante quanto à definição da equipe, acrescentou ele, será compreender melhor até onde vão os desdobramentos das investigações na Petrobras. "O adiamento do balanço foi extremamente negativo. Uma empresa tão estratégica para o Brasil, do porte da Petrobras, deveria dar o exemplo. O momento segue sendo de extrema cautela", afirmou.

A tenebrosa situação da estatal vai acelerar o rebaixamento do grau de investimento do Brasil por parte de agências de classificação de risco, na opinião do economista da Planer Consultoria, Demetrius Lucindo. "É uma situação inédita: ninguém tem coragem de assinar o balanço de uma das maiores empresas do mundo. Isso é muito ruim para o país", comentou ele, prevendo, ainda, uma debandada do capital estrangeiro. A Petrobras informou que na segunda-feira apresentará os resultados operacionais, sem o aval da auditoria; em 12 de dezembro, será a vez dos demonstrativos financeiros. O balanço em si, no entanto, continua sem data de divulgação. "A situação está bem pior do que a desenhada pelo mais pessimista", completou Lucindo.

De todo modo, embora o pessimismo siga prevalecendo, as prisões e os mandados de busca e apreensão realizados ontem transpareceram um avanço no desmanche do esquema de corrupção na Petrobras. "Foi a agradável surpresa ver a extensão da Operação Lava-Jato. Parece que estamos diante de um marco na melhoria das instituições, o que fará muito bem ao Brasil", disse o presidente da Macroplan Consultoria, Claudio Porto.

Disparada

Em meio ao nervosismo do dia, para tentar segurar o dólar, o Banco Central interveio de maneira mais incisiva. Injetou mais dinheiro e conseguiu conter a tendência de disparada. A moeda norte-americana fechou o pregão cotada a R$ 2,60 - depois de bater R$ 2,63 -, alta de 0,23% consolidando o maior patamar desde abril de 2005.

Acreditando que dias ainda mais difíceis virão, Demetrius Lucindo, da Planer, preocupa-se com as intervenções do BC. "Nossas reservas estão sendo comprometidas. A guerra nem começou e já gastamos metade das munições".

Mercado sai arranhado 

O presidente da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), Edemir Pinto, afirmou ontem que as denúncias de corrupção da Petrobras poderão prejudicar o mercado de capitais do país, dificultando o financiamento de empresas brasileiras aqui e no exterior. Economistas veem, porém, com cautela os potenciais efeitos, ressalvando que isso afetará mais alguns setores do que outros. E também que a apuração das denúncias, com punição dos culpados, poderá beneficiar o mercado e o país de forma mais ampla.

José Márcio Camargo, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e sócio da Opus Investimentos, afirmou que a Petrobras e as empreiteiras envolvidas serão, sem dúvida, afetadas nos custos para a captação de recursos para investir. "Mas não vejo por que uma empresa do setor de alimentos, por exemplo, teria problemas", ponderou.

Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners, citou outro setor: educação. "Assim como o de alimentos, está descolado dessa situação. A tendência é que os brasileiros gastem mais com o seu preparo, o que aumenta as possibilidades de ganhos dessas empresas", analisou. Para Camargo, a ampliação do prejuízo poderá vir caso as denúncias da Petrobras afetem a nota do país pelas agências de risco. Embora foque os papéis do governo, é algo que afeta a avaliação de todas as empresas.

Mãos limpas

Na opinião de Velho, as dificuldades podem vir também por outros efeitos indiretos da crise atual: a elevação do dólar de ontem, caso persista, pressionaria nova alta da taxa básica de juros ( Selic). E, com isso, o país poderá enfrentar recessão no próximo ano."Se isso ocorre, antes mesmo de ter dificuldades para conseguir dinheiro, as empresas não terão é motivo para investir", afirmou.

O economista Claudio Porto, presidente da Macroplan, vê um cenário de dificuldades para a Petrobras e as empreiteiras investigadas. Como Camargo, ele ressaltou que o principal efeito disso será no mercado de crédito, mais do que no de capitais."O banqueiro ficará relutante em emprestar para eles", disse.

No longo prazo ele só vê benefícios."O que começou no Brasil com o mensalão e está continuando agora parece ser algo com as dimensões da Operação Mãos Limpas, que ocorreu nos anos 1980, na Itália e desestruturou o crime organizado".