Quem olhar apenas os resultados dos balanços das empresas abertas brasileiras no segundo trimestre deste ano, dificilmente terá a percepção da situação dramática vivida pelo parque industrial do país em um período que já se estende por quase três anos, e que não mostra sinais consistentes de reversão, ao menos até o final de 2014. Os balanços de 362 empresas listadas na Bovespa e tabulados por setor pela consultoria especializada Economática revelam que de abril a junho vários setores industriais apresentaram aumento do lucro ou reversão de prejuízo em relação a igual período de 2013.
O setor de papel e celulose passou de prejuízo de R$ 959,1 milhões para lucro de R$ 977,1 milhões nos dois períodos comparados. A indústria química elevou seu lucro em R$ 43,1 milhões para R$ 394,7 milhões e a de alimentos e bebidas passou de R$ 1,90 bilhão para R$ 2,97 bilhões. O gerente de Relacionamento Institucional da consultoria, Einar nar Rivero, adverte que os números não refletem necessariamente bons desempenhos operacionais das empresas mas, principalmente, ganhos cambiais decorrentes da valorização da moeda americana diante do real entre os dois períodos comparados.
No segundo trimestre de 2013 a cotação média do dólar foi de R$ 2,07 e no segundo de 2014, de R$ 2,23.O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini ressalva também que as empresas de capital aberto representam "uma quantidade mínima da indústria de transformação" e que por isso o desempenho delas não serve de parâmetro para se averiguar a situação do setor, independentemente dos fatores que tenham contribuído para esse desempenho. "Nós vemos mais pelo desempenho da indústria de transformação como um todo", pondera.
Com queda de 2,8% na produção total até julho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal "Produção Física (PIM-PF)", do IBGE, a indústria de transformação intensificou nos últimos meses um processo de redução do pessoal ocupado que já vem de longe, passando a praticar o que os especialistas consideram ser o último degrau em um cronograma de ajuste, precedido do corte de margem e da redução do uso da capacidade instalada De abril até agosto as estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho não registraram nenhum mês com saldo positivo entre contratações e demissões da indústria de transformação, resultando em um fechamento total de 80.016 vagas em cinco meses, bem mais do que uma Petrobras inteira - a estatal tinha cerca de 67 mil empregados em agosto deste ano. Aliás, por razões diversas, a estatal, premida entre a contenção forçada dos seus preços e a necessidade de recursos para investir, fez um enorme programa de demissão voluntária que até agosto alcançou 8,3 mil empregados, 12,4% da sua força de trabalho direta.Na indústria de transformação, é um ajuste que está longe de terminar.
A série histórica do Indicador de Emprego Previsto apurado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getulio Vargas, como parte da Sondagem da Indústria de Transformação, mostra uma curva evolutiva que antecipa os momentos de alta e de baixa do emprego industrial apurados pelo Caged. Pois desde maio deste ano até o último dado disponível no fechamento desta edição desta edição que o Indicador, que revela o ímpeto de contratações dos empresários, vem posicionando-se abaixo de 100, o que significa que as empresas pretendem reduzir pessoal nos três meses seguintes. "Abaixo de 100 é desastre", resume Aloísio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do IBRE.
Também o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) medido pelo IBRE segue em rota de queda. Segundo o dado preliminar de setembro da Sondagem da Indústria, na série com ajuste sazonal, o Nuci caiu de 83,2% em agosto para 83% em setembro. Em janeiro deste ano o índice era de 84,6%.As estatísticas do Caged mostram que embora desde 2011 a indústria venha contratando bem menos do que os demais setores da economia, é a partir deste ano que a opção pelo corte de pessoal se intensifica. Em 2013 o emprego formal no setor ainda cresceu 1,01% na série sem ajuste sazonal, aumentando para apenas 0,19% nos oito primeiros meses deste ano graças aos resultados ainda positivos de janeiro a abril.
Campelo enxerga as causas conjunturais do problema vindo desde o primeiro semestre do ano passado, começando pelo aperto da taxa de juros básica (Selic). Uma sequência iniciada em abril de 2013 elevou o preço básico do dinheiro de 7,25% para 11% ao ano em abril deste ano. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos eletrodomésticos e veículos, fórmula adotada pelo governo para manter aquecidos setores considerados estratégicos, desaguou no endividamento das famílias e posterior elevação da inadimplência. "As pessoas anteciparam compras e depois veio a ressaca para os consumidores e para a indústria", avalia.
A crise da Argentina, fechando a principal porta para as exportação de produtos industrializados do Brasil, a inflação elevada corroendo o poder de compra, o câmbio contido artificialmente para segurar a inflação e o efeito psicológico do período eleitoral, levando empresas e consumidores a travar suas iniciativas, de investimentos e de compras, à espera do que está por vir, azedou de vez o cenário como expressam os indicadores de confiança apurados pelo IBRE.
Quando se olha apenas para São Paulo, a maior concentração industrial do país e que, por seu peso, tende a influenciar as estatísticas como um todo no médio e longo prazo, o ajuste da indústria é bem mais forte. Segundo o Caged, a indústria paulista lista fechou agosto com demissões líquidas de 12.099 empregados formais ao longo do ano.Os números apurados pela Fiesp são ainda mais eloquentes. Foram 31,5 mil vagas fechadas nos oito primeiros meses de 2014, sendo que os setores de máquinas e equipamentos (14 mil) e de veículos automotores (17,6 mil) cortaram juntos mais empregos do que o saldo líquido resultante do balanço entre todos os setores.O diretor Francini enfatiza que os cortes mostram que a situação chegou a tal ponto que as empresas foram obrigadas a ignorar os elevados custos do corte de um emprego no Brasil - segundo seus cálculos, cinco vezes o salário do empregado - e o custo adicional de uma eventual recontratação futura, se o trabalhador já não tiver migrado para outro setor.
As três etapas
O economista Guilherme Mercês, gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mostrou três gráficos elaborados pela equipe de analistas da entidade, com base em dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do IBGE, que ilustram as etapas do ajuste que vem sendo levado a cabo na indústria de transformação brasileira.
O primeiro gráfico mostra a curva da margem de lucro das empresas industriais desde o primeiro trimestre de 2007. Após um profundo vale no primeiro trimestre de 2009, quando foi abaixo de 35 pontos, a curva entra em elevação até alcançar o pico de 49 pontos no terceiro trimestre de 2010. A partir desse ponto, a trajetória é de clinante, com oscilações positivas ao longo de cada ano, até chegar a 45 pontos no final de 2013 e entrar em queda livre, fechando esse segundo tri mestre abaixo dos 40 mil pontos.
O segundo gráfico mostra que a utilização da capacidade instalada ficou próximo ao nível de 2010 até o final de 2011, acentuando-se então uma tendência descendente, que acelera a partir do final de 2013.
Finalmente, o gráfico do pessoal ocupado, que na pesquisa do IBGE engloba indústria de transformação e indústria extrativa mineral, sai do vale em maio de 2009, alcança o pico em fevereiro de 2011 e então entra em trajetória de queda, inicialmente mais suave, acentuada a partir do final do primeiro semestre do ano passado."O cenário não muda pelo menos até depois das eleições por causa da incerteza política que se alia ao baixo crescimento com inflação elevada, as contas externas pressionando, as contas públicas idem e a taxa de juros já muito elevada. Teremos que fazer um ajuste e ele terá que vir pelo lado da política fiscal", analisa Mercês.
Os números da produção industrial medida pelo IBGE confrontados com os da evolução do emprego se encaixam perfeitamente na análise feita pelos técnicos da Firjan. Eles mostram que a evolução do mercado de trabalho não é simétrica com a da produção, justamente pela característica de baixa elasticidade do emprego que demora a cair, mas também demora mais a se recuperar.
Em 2011, quando a produção cresceu apenas 2,4%, após a espetacular recuperação de 10,5% em 2010 (ante o recuo de 7,4% no ano anterior), o emprego no setor seguiu crescendo (1% contra 3,4% em 2010). Veio o tombo de 2,3% da produção no ano seguinte e o emprego entrou em declínio, recuando 1,4%. A recuperação de 2,1% na produção esboçada no ano passado não conteve o enxugamento, com o emprego recuando 1,1%. E final mente este ano, até julho, a produção recuou 2,8% e o emprego seguiu na descendente, encolhendo 2,6%.
Na verdade, a chave do emprego industrial medida pelo IBGE inver teu em novembro de 2011, quando os sinais de que a recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2010 (alta de 7,5%) não tinha sustentação no tempo. Desde então, foram 34 meses consecutivos de taxas negativas na série com ajuste sazonal. Em julho deste ano a queda de5,1% no emprego industrial de São Paulo foi a maior da atual série histórica do IBGE, iniciada em 2001.
O economista Rodrigo Lobo, da Coordenação de Indústria do órgão estatístico oficial tem uma coleção de números ruins para mostrar. Por exemplo, que o grupo com a classificação "meios de transporte", que inclui veículos automotores, veio desde dezembro escalando a lista das maiores influências negativas para a queda do emprego industrial, saindo do oitavo lugar para alcançar o primeiro em junho, mantido no mês seguinte. Significa que já não eram suficientes as ações protelatórias, como férias coletivas e banco de horas, usadas pelo segmento que lidera uma ampla cadeia produtiva na indústria.
Lobo mostra também que em julho, o emprego industrial no país atingiu um nível de 7,3% abaixo do pico da série histórica, que é julho de 2008, na véspera da crise mundial desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers. O resultado de agora supera o auge da crise, quando o emprego ficou 7% abaixo do pico em junho de 2009, e está apenas 0,2 ponto percentual abaixo de abril de 2004, quando a série mostra o nível de emprego 7,5% abaixo do pico atingido em 2008.
Em relação às horas pagas, a série com ajuste sazonal do IBGE chegou a julho de 2014 em 9,1% abaixo do pico histórico atingido em setembro de 2008. A queda do indicador de horas pagas em julho, 4,2%, foi a pior desde outubro de 2009. Outro sinal de que o ajuste chegou a um estágio extremo é que junho e julho deste ano foram os dois primeiros meses no qual as taxas foram negativas, na comparação mês contra o mesmo mês do ano anterior, em todos os 14 locais pesquisados pelo IBGE.
Uma agenda conhecida
Embora estejamos analisando um quadro de ajuste conjuntural, vêm de longe os problemas da indústria de transformação brasileira, cuja participação no PIB caiu de 32,1% em 1986 para 13% no ano passado. "A despeito de alguns períodos de aceleração nos últimos anos, o fato é que estruturalmente a indústria brasileira tem problemas sérios", observa Mauricio Canêdo, pesquisador do IBRE.
À parte o surgimento no cenário de competidores muito fortes, a China é o mais evidente deles, é de longe conhecida a agenda de medidas necessárias a que se crie no país um ambiente adequado ao crescimento industrial no longo prazo. A construção de uma infraestrutura eficiente, de transportes, energia e comuni cações, é o item que encabeça a lista de todos os analistas.
A deficiência crônica de mão de obra especializada, fator que tem le vado muitas empresas a reter pessoal em momentos de produção baixa para não desestruturar suas equipes é outro ponto. Canêdo destaca outro entrave, o ambiente de negócios ruim, pontua do de incertezas jurídicas, tributação elevada e excesso de burocracia. "São deficiências que não se resolvem de uma hora para outra", pondera.
Em relação à concorrência internacional, o pesquisador do IBRE entende já estar claro que nos setores intensivos em mão de obra, como o têxtil e o de calçados, não há condições de competir em toda a cadeia com a China, a não ser na hipótese já superada no Brasil de se ter as condições de trabalho ruins e os salários análogos (baixos) aos que se pratica no país asiático. A solução que vai se colocar "inexoravelmente", na avaliação de Canêdo, é a indústria brasileira ter que optar por nichos mais especializados de cada um desses ramos, como fez a indústria de móveis dos Estados Unidos. Virtualmente arrasada pela invasão chinesa, ela se concentrou em móveis de design. "A resposta que temos dado é proteger o mercado", critica o pesquisador. Ele defende que o Estado sinalize uma "abertura estrutural" da economia do país, sem o fazer da maneira brusca como foi feita no governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), e cuidar da agenda de aperfeiçoamentos para desonerar os investimentos produtivos, aí incluí da uma política macroeconômica equilibrada e previsível.
"Fechar o mercado para proteger a indústria é não olhar para o consumidor que vai pagar mais caro", argumenta. Canêdo aponta o protecionismo também como uma das razões para que o Brasil seja pouco dinâmico no que diz respeito à inovação industrial. "Se a economia é fechada e a em presa não precisa competir, ela não vai inovar", afirma, argumentando que nesse caso as políticas públicas devem ser voltadas para reduzir o risco ine rente à inovação. Na sua avaliação, o Brasil já vem trilhando esse caminho. "Uma política industrial que funciona bem é a de inovação".
O uso da variável câmbio como instrumento de política industrial para aumentar a competitividade da produção local é um dos argumentos mais caros às lideranças do setor. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, concluiu, a partir de uma amostra de 188 países ao longo do período 1950-2010, que uma desvalorização cambial de 10% tem impacto positivo de 0,17 ponto sobre a renda per capita, com efeito maior sobre as economias de renda mais baixa.O trabalho enfocou também a economia brasileira no período 1981- 2012 e concluiu que uma desvalorização de 10% da moeda tem impacto de 2,8 pontos percentuais sobre o PIB nos quatro anos seguintes (acumulado), de 3,4 pontos sobre a indústria geral e de quatro pontos sobre a indústria de transformação.
O estudo admite que os ganhos são transitórios, mas entende que eles dão espaço para que sejam feitos os ajustes macroeconômicos necessários ao aumento da poupança doméstica, incluindo a poupança pública, de modo a dar sustentabilidade à depreciação cambial. Sobre o chamado "pass-through", o repasse da desvalorização aos preços, a conclusão é que ele é baixo (0,79 ponto sobre o IPCA anual) ante os benefícios gerados Canêdo, do IBRE, reconhece que o câmbio afeta a competitividade, mas põe em dúvida seu uso como variável de política industrial. Destaca que a China para manter sua moeda depreciada precisa de uma poupança doméstica na casa dos 40%, algo muito distante do Brasil de hoje, onde a taxa de poupança fechou o segundo trimestre deste ano em 14,1% do PIB.
O economista Gustavo Morelli, da consultoria Macroplan, questiona a política de desonerações tributárias pontuais que vem sendo posta em prática pelo atual governo que, na sua visão, atrapalham mais do que ajudam. "As desonerações pontuais reduzem a capacidade de arrecadação do Estado e complicam a solução dos problemas estruturais da economia", pondera.
Na linha de uma maior abertura defendida por Canêdo, chama a atenção para a falta de empenho do Brasil na busca de ampliar seu leque de acordos de comércio internacionais para além dos limites do Mercosul.
Morelli, que acaba de coordenar a elaboração do "Mapa Estratégico da Indústria 2013-2022", feito pela Macroplan para a CNI, considera que, apesar dos problemas, ter uma indústria forte ainda é essencial para a economia brasileira, lembrando que ela gera os empregos de melhor qualidade, paga os melhores salários, na média, investe em inovação e tem efeito multiplicador sobre as demais atividades.
E, levando em conta as interpenetrações setoriais decorrentes das novas tecnologias, propõe uma discussão sobre as formas tradicionais de medir a produção e o emprego industrial. "O que é indústria e o que é serviço em um iPhone?", pergunta.