Economia faz ajustes após o efeito Copa

[-] Texto [+]
13/09/2014 | Correio Braziliense
fiogf49gjkf0d
Para o economista Claudio Porto, da Marcoplan, avanço da produção refletiu só a recomposição de estoques
Depois de dois meses em queda, indicador do BC visto como prévia do PIB avança 1,5% em julho, mês marcado pela estagnação


A maré de más notícias na área econômica é tamanha que até mesmo dados positivos não garantem otimismo. Exemplo disso foi a divulgação, ontem, do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), que avançou 1,5% em julho, após dois meses seguidos em queda. O indicador é considerado um termômetro do Produto Interno Bruto (PIB), que encolheu nos dois primeiros trimestres do ano, colocando o país em recessão técnica.


À primeira vista, o resultado de julho do IBC-BR soou um alívio diante das muitas turbulências na economia. Mas o histórico de recuos - nos meses de fevereiro, março, maio e junho - não dá espaço para comemorar, comentou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. "Crescer pouco em cima de nada não é algo que inspire confiança", resumiu. Ele avaliou que a expansão de 1,5% apurada em julho só anulou o tombo de igual tamanho registrado no mês anterior e nem sequer tirou do vermelho o resultado trimestral (-0,9%).


Com isso, "em dois meses, o crescimento econômico do país foi zero". "Ainda pior do que isso é olhar para a frente e não ter certeza de melhora", acrescentou. O analista teme que a melhora observada em julho, devendo se repetir em agosto, reflita apenas um momento de ajuste na produção, após meses seguidos de máquinas paradas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) podem confirmar a tese. Após quatro meses em declínio, a produção industrial voltou ao subir em julho.


A alta de 0,7% foi, contudo, insuficiente para reverter as perdas acumuladas no ano.Não por acaso, o indicador de 2014 ainda está negativo em 2,8%. Mas pode até piorar conforme estimou o economista Claudio Porto, presidente da Macroplan Consultoria. "Nos últimos meses, as industrias praticamente desovaram estoques, tendo em vista o colapso de confiança. Assim, em algum momento era natural que as máquinas voltassem a ser religadas, para recompor os estoques, o que dá certa folga no curto prazo, mas em nada muda o cenário preocupante para a atividade econômica", disse.


Reação


O fim da copa do mundo, em julho, também vai melhorar os números de agosto, sem que isso represente uma real retomada da atividade econômica, sublinhou Porto. Dois indicadores que sugerem como a produção industrial e as vendas do varejo vão se comportar PE o fluxo de veículos pesados nas estradas e as vendas de papelão ondulado. Ambas as variáveis trouxeram números positivos nos últimos meses. 


O movimento de veículos nas estradas administradas pela iniciativa privada avançou 5,1% em agosto, resultado que só devolve  queda registrada em julho, quando o tráfego encolheu 4,7%, segundo dados d Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias ( ABCR). O mesmo ocorreu, em menor dimensão, com a venda de papelão, que cresceu 1,13% em agosto, frente ao mês anterior. O desempenho ficou aquém do esperado, levando a Associação Brasileira de papelão ondulado (ABPO) a revisar de 4% para 2% a previsão de aumento das vendas em 2014.


O cenário também é desfavorável para o setor automotivo, com importante peso para o crescimento econômico. Mesmo com os incentivos dados pelo governo, com a prorrogação até dezembro do desconto para o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a compra de veículos zero-quilômetro, a Federação nacional das Concessionárias (Fenabrave) vê 2014 como um ano para esquecer. Ela prevê recuo nas vendas de 6,5%, ante os 3,6% previstos antes.


Confiança de menos


Os analistas são unânimes: para a economia do pais voltar a crescer será preciso primeiro restaurar a confiança dos consumidores e, sobretudo, a dos empresários que precisam tirar projetos de investimentos da gaveta. Diante de sinais cada vez mais claros de que os os estímulos dados pelo governo falharam, o setor produtivo colocou o pé no freio. O resultado foi uma forte retração na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que despencou 5,3% no segundo trimestre, em relação ao primeiro, sinalizando a paralisia dos investimentos.


O economista Claudio Porto, presidente da Macroplan Consultoria, não tem dúvidas de que a escassez de investimentos determinou o encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos dois primeiros trimestres do ano, levando o país a um quadro de recessão técnica. "Somam-se a isso o baixo consumo, por causa da limitação da capacidade de compras das famílias, que estão atoladas em dívidas, e os ganhos salariais menores", reforçou.


Por outro lado a inflação não desgruda do teto da meta, de 6,5% anuais e as perspectivas seguem piores em razão do represamento de preços administrados, "que mais cedo ou mais tarde terão de ser reajustados, levando a carestia para as alturas", frisou o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. Ele não vê chance de melhora no segundo semestre. Por isso lamentou que "a temporada de pibinhos veio para ficar". Claudio Porto também descartou algum alívio para 2014