O momento é de mudança estratégica

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31/07/2014 | Revista Móbile
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Para o diretor da Macroplan, São Paulo pode ser comparada com "megarregiões". "É possível identificar um longo caminho a sere percorrido pelo Estado"
Com a nova dinâmica de crescimento dos Estados brasileiros, São Paulo perde o título de locomotiva do País, porém não a relevância econômica nos serviços prestados às empresas (45%), serviços de informação (46%), saúde e educação (42%).


Além disso, a unidade federativa está localizada no Sudeste, que detém sozinho 55,4% do PIB nacional - participação superior à soma de todas as outras regiõese totalizando R$ 1,248 trilhão das riquezas produzidas em 2010, segundo dados das Contas Nacionais, do IBGE. 


Segundo o diretor da consultoria Macroplan, que gerencia projetos nas áreas de cenários, planejamento e gestão para resultados, Alexandre Mattos, historicamente São Paulo liderou o processo de industrialização do País, lançando-se à frente dos demais Estados. "Mais recentemente, a cidade de São Paulo também protagonizou o desenvolvimento dos serviços avançados, constituindo-se no principal centro econômico da América do Sul", afirma.


O economista Marcio Pochmann relata que nesse período de avanço industrial o Estado foi responsável pelo ritmo do desenvolvimento da economia nacional. "Tanto que é verdade que São Paulo foi cada vez mais sendo conhecida como uma espécie de locomotiva, levando o Brasil como se fosse uma ferrovia, e os outros Estados seguiam-na como se fossem vagões", afirma. Para Pochmann, esse protagonismo paulista se relaciona não somente ao período de industrialização - quando passou a se tornar o Estado mais rico, populoso e centro da produção manufatura - mas remonta também aos períodos da economia cafeeira. E hoje, acrescenta Mattos, essa relevância ainda se mantém, por concentrar muitas empresas, universidades e, principalmente, o capital humano, que levam o Estado a liderar também o campo da inovação e da competitividade. "As regiões metropolitanas de São Paulo e de Campinas, especialmente, constituem-se em grandes centros de inovação com irradiação para diversos setores do País", diz.


Mudança de dinâmica


Apesar da relevância, por outro lado, o Estado vem perdendo a participação em índices como potencial de consumo e tem registrado menor ritmo de crescimento, assim como outros Estados do Sul e Sudeste, em comparação com as regiões Norte e Nordeste. No entanto, isso não pode ser interpretado como negativo, afirma Pochmann, pois o movimento faz parte do novo padrão de crescimento do Brasil.


Para começar, explica ele, São Paulo foi perdendo o dinamismo porque o Brasil passou a conviver com o esvaziamento do setor industrial. "Isso está diretamente relacionado com as opções que o Brasil fez na década de 90, com a abertura comercial e financeira que fizeram com que a indústria, que chegou representar quase um terço do PIB nacional, decaísse hoje para algo como 14%. Esse esvaziamento industrial repercutiu no Brasil como um todo, mas, especialmente, no Estado de São Paulo", salienta.


Além disso, relata o economista, a partir do ano 2000, com a recuperação do crescimento e do investimento, esse protagonismo econômico do investimento se deu de forma descentralizada, envolvendo outros Estados. "Na verdade, desde a década de 1990, temos um deslocamento de indústrias para outros Estados e investimentos em vários setores, como logística, infraestrutura e petróleo em diversas regiões", pontua.


"Nós tivemos uma melhora do Brasil como um todo nesse período. E, na década passada, esse crescimento foi mais rápido no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, até porque foram os Estados dessas regiões que tiveram, por opção das políticas de renda do País, a população mais pobre sendo a mais beneficiada em relação à maior expansão dos seus rendimentos", ressalta.


Esses fatores fizeram, consequentemente, com que nas localidades mais pobres aumentasse também o consumo local, 'puxando' de certa maneira o dinamismo econômico. "O que se percebe, justamente, é que o que ocorreu na década passada acabou por fortalecer os Estados que até então eram vistos como vagões. E hoje não dá mais para dizer que tem uma locomotiva brasileira que puxa os demais Estados. Há dinâmicas no federalismo brasileiro diferenciadas", afirma Pochmann.


O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo (FCDLESP), Maurício Stainoff, diz que todo esse movimento não significa que o Estado parou de crescer ou não tenha para onde expandir. "É natural que a velocidade do crescimento diminua em relação a outros Estados. Mas tem muita gente que ainda precisa ser incluída ou precisa ter sua capacidade de consumo aumentada, tanto na capital como no interior. O interior, inclusive, é uma região muito importante para o Estado", afirma.


Mattos, da Macroplan, acrescenta que as cidades do interior de São Paulo tendem a atrair especialmente as indústrias e também serviços. Algumas já são centros de referência para o agronegócio. "A rede de cidades do interior de São Paulo é muito próspera, bem integrada e se constitui em um amplo mercado consumidor, abrindo boas oportunidades de investimento", diz.


Estratégia 


Para o diretor da Macroplan, a natureza do crescimento que a cidade e o Estado de São Paulo devem perseguir é diferente. "A verdadeira força residirá nos serviços avançados, os quais podemos classificar em dois tipos básicos: o primeiro grupo são os serviços vinculados à indústria e competitividade, como design, engenharia, logística e comércio", diz.


No segundo grupo, de acordo com o consultor, estão os serviços ancorados na economia do conhecimento e no capital humano, como softwares, internet, biotecnologia, cultura e pesquisa. "O crescimento deverá vir especialmente dos ganhos de produtividade, e não da expansão física. A produtividade dos serviços é um grande desafio no Brasil e também em São Paulo, e deve ser pensada tanto no ambiente intraempresa quanto para a cidade como sistema produtivo", fala.


O benchmarking - a busca das melhores práticas na indústria que conduzem ao desempenho superior - para São Paulo, afirma Mattos, deve ser em cidades como Nova Iorque, Londres e Berlim, que já passaram por processo semelhante ao longo de seu desenvolvimento, aperfeiçoando os serviços avançados. "Estas cidades são verdadeiros centros de referência para grandes regiões produtivas porque são compostas por prósperas cidades médias e pequenas no seu entorno e que se configuram como os elos da produção global", enfatiza.


Pochmann analisa ainda que São Paulo está vivendo, sim, uma espécie de decadência relativa, porém não absoluta. "Essa situação não é nova no Brasil. Já tivemos no passado Estados e regiões que protagonizaram a expansão econômica, mas que não duraram por muito tempo. Elas tiveram um auge e depois uma decadência. Se isso vier a acontecer de fato em São Paulo, não será uma novidade, mas também acredito que o Estado não está condenado a essa situação", argumenta.


Para o economista, São Paulo tem uma oportunidade de manter a sua importância ao longo do tempo, mas isso requer reposicionar o Estado em relação ao Brasil e ao mundo. "Hoje nós estamos falando em produção de manufatura na indústria, que não é mais aquela velha indústria do século XX. Estamos falando cada vez mais em cadeias globais de valor, e São Paulo se apresenta como uma região de destaque por sua estrutura, pela presença das principais empresas transnacionais do País e do mundo. Esse é um elemento muito importante, mas que precisaria de uma estratégia diferente da que temos hoje", avalia.


Para ele, o que se identifica nos últimos 20 anos em São Paulo são iniciativas governamentais e expansão da economia mais associada ao setor primário - agronegócio - e financeiro. "São Paulo está se consolidando como uma praça financeira e importadora e exportadora de produtos agrícolas, o que não é necessariamente um mau, pelo contrário. Mas esses são setores que se conectam mais com o mundo e perdem dimensão nacional e territorial, não são os principais geradores de emprego e de renda".


Varejo 


Mattos ainda conjectura que São Paulo continuará liderando o mercado de consumo no País. Atualmente, com um território do tamanho do Reino Unido e uma população maior que a da Argentina e do Canadá (42 milhões de habitantes), o Estado de São Paulo abriga o maior mercado consumidor do Brasil graças ao nível socioeconômico da população, que possui o PIB per capita 50% maior do que a média nacional, possibilitando o acesso aos mais sofisticados bens de consumo, segundo informações da Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade (Investe SP). "Se a macroeconomia voltar aos trilhos e o Brasil retomar sua trajetória de crescimento espera-se, nos próximos anos, no que se refere ao consumo, a consolidação da base da pirâmide paulista na classe C e um movimento muito forte de expansão da classe B. Vale lembrar que o Brasil ainda é um País de renda média baixa e que um americano, em média, produz e consome cinco vezes mais do que um brasileiro. Ainda há muito espaço para crescimento se o País fizer seu dever de casa", fala o diretor da Macroplan.


Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da GS&BW, afirma que o varejo de São Paulo está vivendo bons momentos e lidera o crescimento do brasileiro. "Como o varejo no País tem crescido de vento em popa, o setor de São Paulo também se beneficia desse mesmo movimento, que tem sido muito impulsionado pela entrada desses consumidores da nova classe média no mercado, pelo crescimento do crédito e pelo aumento da renda real das pessoas". Para ele, é fato que no ano passado esse crescimento deu uma desacelerada, ou seja, o ritmo diminuiu, mas não deixou de haver crescimento. Stainoff, da FCDLESP, também faz essa leitura de crescimento. "E a minha explicação disso é o emprego. As pessoas empregadas consomem. Como estamos passando praticamente por uma fase de pleno emprego, é natural que o varejo se saia bem", afirma. Sobre as perspectivas para esse ano, mesmo que nesse momento as atenções dos consumidores estiveram mais voltadas para a Copa do Mundo, as consequências posteriores são positivas na sua expectativa. "Esse dinheiro, que está sendo colocado na economia, principalmente pelos turistas nas cidades-sede dos jogos, incluindo São Paulo e as cidades onde as delegações estão sendo hospedadas, mesmo que nesse primeiro momento não vá diretamente para o varejo, com certeza terá consequências positivas para os lojistas de forma geral, incluindo os de móveis", teoriza.


Marinho aponta que outro indicativo de crescimento e da capacidade de São Paulo expandir passa também pelos dados de Área Bruta Locada (ABL) por metro quadrado (que é a soma de todas as áreas de lojas de um shopping center). Segundo ele, enquanto o Brasil tem 65 m² de ABL para cada mil habitantes, a cidade de São Paulo, a capital, tem 168 m². O Estado como um todo tem 'apenas' 110 m², diz ele. "Ou seja, tem espaço de crescimento em outras cidades e na própria capital. No Chile, por exemplo, são 175 m² de ABL para cada mil habitantes. Dessa maneira, há espaço para crescimento no varejo paulista e paulistano, e só falando em shopping centers", afirma.


O cuidado, segundo ele, está relacionado com o consumidor. "Como estamos trabalhando com um público exigente e muito 'apertado', essas novas propostas precisam ser muito bem pesadas e testadas para não entrar em uma aventura que tenha repercussão irrelevante para o consumidor. Tanto a proposta da marca como a localização têm de ser muito bem pensadas, mas a resposta é, sim, existe espaço para crescimento", encerra.