Em casa, vida boa. Na rua,só decepção

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16/06/2014 | Correio Braziliense
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CONJUNTURA - Brasileiros admitem que dentro de casa a situação melhorou muito. Eles têm tudo: televisão, geladeira, computador e carro na garagem. Quando abrem a porta, porém, nada do que precisam funciona, a começar pela saúde pública.

Os brasileiros se acostumaram a viver com mais dinheiro no bolso ao longo dos últimos 10 anos. Mesmo assim, muita gente anda insatisfeita, em maior ou menor grau,com o bem estar. A explicação para o paradoxo, segundo especialistas, está, sobretudo, no descompasso dos ganhos no consumo e nos serviços públicos. "O povo até está bem da porta de casa para dentro. Mas da porta de casa para fora a coisa piorou muito, inclusive com disparada da inflação, que está alta há muito tempo", afirma o economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, usando uma imagem que se tornou o emblema das diferenças no país. Uma parte dessa frustração vira grito nos protestos. Outra segue silenciosa, mas não inerte.

Graças ao crédito farto e ao aumento da renda, as pessoas têm mais bens de consumo: geladeira, TV e outros eletrodomésticos. Muitos conseguiram comprar computador, carro, moto e a tão sonhada casa própria. "Mas há muito automóvel na rua e todo mundo acaba gastando mais tempo para ir ao trabalho", diz Porto. Muita gente também passou a ter acesso a planos de saúde. "Só que a qualidade do atendimento piorou. E com o aumento da demanda subiram os valores das mensalidades. Quem volta para a saúde estatal, encontra uma tragédia", frisa.

A dona de casa Vani Nogueira, 54 anos, moradora da Samambaia, está há dois anos na fila para fazer uma cirurgia de varizes na rede pública. Foi informada que ainda há 600 pessoas na frente dela. "O jeito será gastar R$6mil para fazer num hospital particular", avalia o marido de Vani, o caminhoneiro Serafim Gutenberg, 58 anos, que consegue ganhar, em média, R$5 mil mensais transportando terra em um dos seus dois caminhões - um dos quais está parado por falta de demanda. A vida poderia estar melhor, mas não está ruim. Além da casa própria, com quatro televisores de LCD, o casal tem um cherry 2011 na garagem, onde há espaço também para o carro do filho.

Falta de gestão

A vizinha Nilcéia Lopes Ferreira, 48 anos, não arisca mais suas chances  no sistema público de saúde. Gasta R$250 reais em um convênio médico para ela e para o filho, Carlos Henrique. "Para marcar consulta no sistema público tinha de chegar ás 5 horas da manhã", conta Nilcéia. Ex-empregada doméstica, ela hoje se dedica apenas às tarefas domésticas e, eventualmente, trabalha com depilação em domicílio.

Ela e o marido, que trabalha em um posto de gasolina, têm, não só a casa própria, como outro imóvel na vizinhança que garante um reforço ao orçamento. A renda total da família chega a R$3 mil por mês, sem contar o salário do filho mais velho, que também mora na casa. Formado em engenharia civil, ele abriu sua própria empresa em Samambaia. "Houve um avanço social e econômico no país. Mas as pessoas não estão na rua a troco de nada. Elas querem serviços públicos padrão Fifa também. E há espaço para melhorá-los com melhor gestão, para que o dinheiro não vá para o ralo", analisa o economista João Saboia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Embora a crise dos serviços públicos seja um problema global, o Brasil tem peculiaridades que tornam as coisas mais difíceis, explica Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp). "O que empata aqui é o fato da estrutura do Estado não ser flexível". Há centralização de decisões no Executivo Federal, criando uma burocracia em Brasília que ignora características regionais, analisa. Com tanto poder para emplacar emendas ao Orçamento, os representantes do povo no Legislativo, acabam se preocupando pouco com o bem-estar da população. "Os parlamentares são lobistas dissimulados", ataca.

Saboia, da UFRJ, chama a atenção para o descaso com a educação, justamente o serviço público que poderia trazer ganhos para o país e para o bem-estar da população a longo prazo. "Há mais pessoas com acesso à escola e ao ensino superior, mas  a qualidade continua muito ruim.O caminhoneiro Gutenberg reclama:  "Eu não tive estudo, mas fiz questão que meus filhos tivesses", diz. A filha dele, Talita, 30, está se formando agora em Administrção. Ela mora com o marido, também caminhoneiro e o filho Gustavo, 13, em uma casa própria na mesma rua dos pais.

Gustavo estudava em uma escola particular mas, neste ano, foi matriculado pela mãe na rede pública. Foi uma punição por ter sido reprovado. Segundo Talita, os professores e a direção da nova escola têm se mostrado dedicados, mas isso é insuficiente para garantir a qualidade. "Há muita violência. Os alunos estão sempre inseguros", alerta. Todo dia tem briga. Já jogaram até pedra na escola, conta Gustavo, que promete agora se dedicar mais aos estudos para reconquistar o direito de estudar em uma escola particular.

Dores da inflação

O videogame comprado para os filhos é o item mais recente incorporado á casa da vendedora autônoma Lídia Marques Gomes, 34 anos, moradora da Estrutural. Não faltam ali móveis e eletrodomésticos. Ela pretendia renová-los, mas esbarrou no descompasso entre a renda, R$1.400 e a escalada dos preços. ?Trocar os bens da casa, na situação atual, está impossível. Tenho medo de que a alta dos preços saia do controle, como há duas décadas?, diz

O temor de Lídia é justificável, afirma o economista Claudio Porto, da consultoria  Macroplan. "A inflação, no patamar em que está, próxima de 6,5%, corrói boa parte da renda dos brasileiros. Não bastasse isso, a maioria chegou ao limite do endividamento. Ele explica que o país já esgotou os dois ciclos de aumento de consumo. O primeiro ocorreu a partir de 2004, com a expansão do emprego e a eliminação da capacidade ociosa da indústria. A partir de 2008, o ganho veio por meio da elevação do crédito. "Hoje, a expansão do crédito se dá apenas pelos bancos públicos. "E as pessoas estão tomando dinheiro para pagar o que devem às instituições privadas", emenda.

Na avaliação de Roberto Romano, professo r de ética e filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), depois de sorverem os benefísócios da estabilidade econômica, dificilmente os brasileiros vão aceitar de volta o alto custo de vida. Para justificar os males da inflação ele menciona Elias Canetti, escritor búlgaro que retratou a relação entre a cultura e a carestia na Alemanha da década de 1920, processo que resultou na Segunda Guerra Mundial. "As pessoas sentiam a desvalorização dos bens como uma perda corporal", relata

Romano recorre a outro autor, Maquiavel, para explicar o problema. "Para ele o governo precisava estabelecer, constantemente, o equilíbrio entre o medo e a esperança. A inflação faz as pessoas pensarem que todos os bens podem ir embora. Isso cria uma situação ruim não só para a presidente Dilma Roussef, mas para o Estado", aponta.

Para o soldador Lizandro de Araújo, 28 anos, que estudou até a 5ª série, não há a menos hipótese de ver a sua vida regredir, seja pela resistência da inflação, seja pelo descaso do governo. "O que eu quero é melhorar, não perder o pouco que conquistei", diz. Ele ressalta que, se pudesse, trocaria a moto por um carro. "Isso só acontecerá se as coisas continuarem melhorando, não piorando".

Morador da Ceilândia, Lizandro gasta R$500 reais com aluguel pelos três cômodos que divide com a mulher, Maria de Lourdes, 29, e o enteado, João , 5. Sobra pouco do salário de R$1.400. Com as horas extras, a renda mensal já chegou a R$1.800,  mas nos últimos meses, elas sumiram.