Brasil: Nordeste, nova fase de expansão

[-] Texto [+]
16/01/2014 | PNN Portuguese News Network
fiogf49gjkf0d
Sérgio Buarque - diretor associado da consultoria Macroplan
Empresas petroquímicas, de construção naval e automobilística chegam para reforçar avanços da última década com programas de distribuição derenda, comércio, serviços e indústrias leves


O livro Vidas Secas, do escritor alagoano Graciliano Ramos, publicado em 1938, que narra a vida dura de uma família do sertão e dos seus esforços para fugir à seca, à fome e à opressão que marca as suas vidas, é um dos melhores retratos de uma realidade secular, que desde os tempos do império levou centenas de milhares de nordestinos a migrarem para regiões mais ricas do país, em especial o Sul e o Sudeste. Entre eles, o próprio ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, passageiro de um caminhão "pau-de-arara" durante os 13 dias de viagem de Garanhuns, em Pernambuco, até Santos, no litoral de São Paulo, em 1952.


A seca continua, mas os tempos são outros para o Nordeste. No ano passado, a região viveu a pior seca dos últimos 50 anos. Sem chuva, cerca de 1,2 mil municípios passaram a depender do abastecimento de água por caminhões-pipa. Grandes, médios e pequenos produtores rurais, sem dinheiro para comprar água e alimento para seus rebanhos, perderam cerca de 4 milhões de cabeças, segundo a pesquisa Produção da Pecuária Municipal - 2012, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Endividados pelos empréstimos contraídos para criar os rebanhos que perderam, muitos poderão levar anos a recuperar. Sem leite e carne, fabricantes de laticínios e pequenos frigoríficos amargaram prejuízos. Mas dois dos mais perversos efeitos da seca, pela primeira vez, deixaram de dar as caras, em 2012. "Não houve fome, nem migração em massa, como no passado", afirma Jorge Jatobá, diretor da Ceplan, uma das principais consultorias económicas do Nordeste.


POLITICAS PÚBLICAS ALTERAM A FISIONOMIA DA REGIÃO


Especialista em mercado de trabalho, finanças públicas e desenvolvimento regional, com pós-doutorado em economia pela universidade americana de Wisconsin-Madison, Jatobá é um dos diversos economistas da região a atribuir o fato ao surgimento de grandes programas de transferência de renda, fundamentais na mudança recente na fisionomia da região. Só o Programa Bolsa Família irá injetar, este ano, cerca de R$ 12 bilhões na economia local. Metade dos 13,8 milhões de brasileiros beneficiários do programa vive nos nove estados da região Nordeste - Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará,Piauí e Maranhão. E existem outros programas, como o BCP (Benefício de Prestação Continuada da assistência Social), concedido a idosos acima de 65 anos e deficientes físicos de baixa renda. 


Associados à política federal de reajuste real do salário mínimo dos últimos governos e ao aumento do dinamismo do mercado de trabalho - resultado de investimentos em infraestrutura e novas indústrias -, programas como esses vêm ajudando a economia da região a crescer acima da média nacional e garantem ao Nordeste protagonismo num dos maiores movimentos de transformação social da história do país, indicam números do IBGE.


Entre 2002 e 2012, a percentagem de brasileiros classificados como de classe média (classe C), saltou de 38% para 52% da população. Em paralelo, enquanto a população crescia de 176 milhões para 197 milhões de habitantes, o número de pobres (classes C e D) caiu de 49% para 28%. Com cerca de 53 milhões de habitantes (Censo de 2010), o Nordeste foi a região na qual a ampliação da classe média foi mais expressiva, 20%, numa década (de 22% para 42% da população). Norte e Centro-Oeste tiveram ganhos de 17% cada. No Sudeste, a classe média aumentou 11% e, no Sul, 9%. A subida impulsionou o comércio, a área de serviços, os principais empregadores da região, e indústrias leves, como as de alimentos, móveis, calçados e confeções, em especial aqueles voltados para a baixa renda. Com mais dinheiro a circular na


economia, as grandes empresas de outras regiões do país também passaram a olhar para a região com outro interesse.


A rede varejista Wal-Mart, por exemplo, comprou a rede Bompreço de supermercados há nove anos e expandiu-se agressivamente na região. A Casas Bahia, da Via Varejo, chegou ao Nordeste em 2009 e desde então, abriu cerca de 50 lojas. Até o final de 2013, anunciou que pretende atingir as 90 unidades. De forma semelhante, a Fran's Café, maior rede de franquia de cafeterias do país também apostou no Nordeste em 2010 e têm na região 10 lojas. A Fiat realiza o maior investimento do mundo numa nova fábrica em Goiana, no interior de Pernambuco (R$ 4,5 bilhões). A GE anunciou que vai produzir aerogeradores na região. Apesar de um número reduzido de empresas entre as conceituadas do país -  a distribuidora de combustíveis Ale, as elétricas Chesf e Coelba, a petroquímica Braskem, a produtora de papel e celulose Suzano e a siderúrgica e metalúrgica Paranapanema -, o Nordeste também fez o caminho inverso e passou a investir além das suas fronteiras.


Empresas locais, como Ale e Lojas Insinuante ampliaram presença nacional e atingiram mercados onde ainda não atuavam - Sudeste, Sul, Centro Oeste e Norte do país. A Insinuante, em particular, juntou-se em 2010 a outra rede de varejo, a Ricardo Eletro, de Minas Gerais, formando a Máquina de Vendas, hoje uma das maiores rede do país no segmento de varejo de eletrodomésticos.


No ano passado, enquanto o PIB brasileiro cresceu 0,9%, o do Nordeste aumentou 3%. Atualmente, a massa anual de renda do Nordeste ultrapassa os R$ 450 bilhões e equivale a 17% do total nacional, segundo estudo da consultoria Data Popular, especializada em pesquisas de mercado na base da pirâmide económica. Para uma região que concentra mais de um quarto da população brasileira, é pouco, mas as perspectivas são promissoras. "Essa renda é baixa, mas crescente e pulverizada", diz Cícero Péricles, professor de economia da Universidade Federal de Alagoas. "É como se estivéssemos caminhando para nos tornarmos o Sul de Portugal ou da Espanha. São regiões pobres, mas que participam da economia". 


NOVOS INVESTIMENTOS PARA O NORDESTE


Há grandes investimentos sendo feitos em infraestrutura e em setores industriais estratégicos."A "novidade" agora são obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em todos os Estados e grandes municípios - muitas delas, como a transposição do Rio São Francisco, bastante atrasadas ; investimentos em química e petroquímica - a refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, em Pernambuco é o principal ; estaleiros; montadoras, como a Fiat, em Pernambuco; e construção civil", afirma Péricles.


Jatobá, da Ceplan, refere ainda investimentos na produção de papel e celulose na Bahia e na expansão das áreas de produção de grãos. Uma das principais fronteiras agrícolas do país na produção de soja e milho está justamente numa região conhecida como Mapitoba, no entroncamento dos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. "Essas novas indústrias vão mudar mais uma vez o perfil da economia do Estado", afirma o consultor. "Os grandes complexos industriais do Nordeste apresentam, normalmente, baixo grau de adensamento produtivo, principalmente a montante - fornecimento de máquinas, equipamentos, matériasprimas e insumos industriais", afirma Sérgio Buarque, diretor associado da consultoria Macroplan. Segundo o próprio, isso é mais claro na nova indústria de petróleo, gás, offshore e naval, na indústria química e farmoquímica, e na petroquímica. Mas o processamento e beneficiamento industrial de atividades primárias da região, com agregação de valor, especialmente, no agronegócio e na fruticultura irrigada, na mineração e na metalurgia, podem oferecer boas oportunidades.


Para o consultor economista Alexandre Rands, da consultoria Datamérica, o turismo de negócios, impulsionado em anos recentes pela expansão econômica da Região acima da médian acional, também tende a ser reforçado pelo de lazer com a Copa do Mundo, em 2014, e a recente alta do dólar. "Nos últimos anos, com o real forte e a melhora da renda, parte dos turistas brasileiros foi desviada para o exterior e deixou de vir ao Nordeste", afirma Rands.


Para novos empreendedores, há ainda uma grande vantagem no Nordeste em relação ao restante do país. Segundo pesquisa da Data Popular, a região é muito mais aberta à experimentação de novas marcas, mais da metade dos entrevistados (56%) afirmou comprar produtos de marcas novas para conhecê-las, contra uma média nacional de 44%. Trata-se de uma informação nada desprezível num mercado no qual, mesmo com o arrefecimento recente da economia brasileira, ainda apresenta grande potencial de venda de bens de alto e médio valor. Ainda segundo a Data Popular, aproximadamente 20% dos brasileiros que pretendem comprar uma casa, carro, automóvel ou motocicleta neste ano vive no Nordeste. Em números absolutos, traduz-se em 1,2 milhões de imóveis, 1 milhão de motos e 1,6 milhões de carros. Em bens duráveis de valor médio, como móveis, geladeiras, TVs e máquinas de lavar, o percentual varia de 21,2% das intenções de compra nacionais, no caso de TVs, até 34,6%, no de máquinas de lavar, apenas, em notebooks, há potencial para 4,7 milhões de unidades.


Evidentemente, há riscos, uma vez que, o desenvolvimento da região tem-se dado com maior intensidade em cidades do litoral, como acontece normalmente. A concorrência chinesa mina indústrias grandes empregadoras de mão-de-obra, como a têxtil e a de calçados. E a seca derrubou atividades agrícolas tradicionais, como a cultura da cana-de-açúcar, matéria-prima do açúcar e do álcool.


Muito falta ser feito ainda também em infraestrutura e educação. "Quando se analisa o diferencial das vantagens competitivas no território nacional - qualidade da infraestrutura, nível educacional e da qualificação profissional, densidade de instituições de pesquisa -, o Nordeste continua muito abaixo do Sul e do Sudeste, o que é apenas parcialmente compensado por incentivos fiscais", afirma Buarque, da Macroplan. Felizmente, o Nordeste já não pode ser relegado ao segundo plano, como se tem efetuado no passado recente.