O Arco Viário (também chamado de Arco Metropolitano) é imprescindível para a mobilidade do Grande Recife e adjacências. Fundamental para as operações do polo automotivo de Goiânia, Zona da Mata. Crucial para o funcionamento dos empreendimentos estruturadores de Suape, como a Refinaria Abreu e Lima. E será o catalisador do desenvolvimento em áreas de baixa densidade demográfica, economias sustentadas por atividades agrícolas básicas e indicadores sociais ruins. São impactos que catapultam sua importância estratégica e reforçam a expectativa que, na próxima terça-feira, a presidente Dilma Rousseff deixe a rixa política de lado e, enfim, anuncie o início do processo de licitação da rodovia, com o lançamento do edital. Segundo o Ministério do Planejamento, a construção só terá início no segundo semestre do próximo ano.
A lista de impactos econômicos do projeto continua. Permitirá a integração de Carpina e do "patinho feio" Araçoiaba ao novo cordão de desenvolvimento que se formará ao Oeste do Grande Recife.
Isso porque haverá dois pontos de interseção com rodovias estaduais, a PE-05 e a PE-027, incrementando o acesso a esses municípios. E ainda reforçará um projeto, ainda em discussão entre os dois governos, de criação de uma região de desenvolvimento integrada entre Pernambuco e Paraíba, em torno da indústria automotiva, facilitando ainda uma conexão entre os portos de Cabedelo e Suape.
Diretamente nas cidades que irá cortar (Igarassu, Paudalho, Abreu e Lima, São Lourenço da Mata, Moreno e Cabo de Santo Agostinho), o Arco tem potencial para provocar um impulso no mercado imobiliário, no setor de logística e na atração de parques industriais de menor porte - empresas que serão fornecedoras dos fornecedores dos grandes projetos no Estado.
"Só o anúncio do projeto provoca uma valorização nos preços de terrenos. Já há um movimento nesse sentido com o projeto da Cidade da Copa e, mais próximo da BR-232, no Alphaville E, hoje, em áreas com baixa densidade, após a implantação da rodovia, haverá a ocupação comercial de serviços como postos de gasolina e restaurantes. Já as novas centralidades econômicas, em Suape, e a de Goiana, ficarão mais unidas com o Arco e vão exigir cadeias de fornecedores. Há um cálculo que estima que o raio ideal para instalação desse tipo de empresa é de até 30 quilômetros em torno da fábrica-âncora", comentou o professor de Economia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e sócio-diretor da consultoria Ceplan, Valdeci Monteiro.
O segmento de logística, com forte atuação no Estado e alta concentração na BR-101, em Jaboatão dos Guararapes, ganhará fôlego ao longo da mesma rodovia com o advento do Arco. Com a perspectiva de transferência do tráfego pesado para a nova rota, a estrada federal que tem sérios estrangulamentos em áreas urbanas do Recife e Abreu e Lima, ganhará folga para atração de empresas que trabalhem com distribuição de bens de consumo, por exemplo, deixandoo transporte de máquinas e matérias- primas para o Arco.
"O projeto é vital para a competitividade da Economia de Pernambuco", arremata o economista Sérgio Buarque, da consultoria Macroplan. Na construção, apesar de ser uma obra cujos valores alcançam a casa do bilhão, o impacto não será tão expressivo. "Há força para uma reconfiguração nas atividades de serviços. A partir de uma nova mancha urbana rumo ao Oeste", complementa Buarque.
Há anos o projeto é discutido. Ganhou força a partir de 2011 quando foi analisado como Parceria Público-Privada (PPP) estadual. Na época seriam 80 quilômetros, orçados em R$ 1,2 bilhão. Agora, a obra é federal e será licitada pelo chamado Regime Diferenciado de Contratação (RDC). Por meio de sua assessoria de imprensa, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou apenas que o anteprojeto está em elaboração. Não elucidou possíveis mudanças no traçado ou novo valor.
A hora de o Estado se fazer presente
Para os moradores de 31 comunidades que podem ser atingidas direta ou indiretamente pelo traçado da rodovia, o projeto divide opiniões. Quem se acostumou à rotina tranquila das áreas rurais fica com o pé atrás quando imagina a movimentação que uma estrada trará para suas portas. Como são localidades envoltas de incertezas fundiárias, temem ainda que os processos de desapropriação sejam traumáticos.
Esses são apenas alguns dos desafios que o Arco ensejará. O projeto precisará ser concebido juntamente com um trabalho intenso de ordenamento urbano, preservação ambiental, regularização fundiária e planejamento de longo prazo para que não provoque fraturas sociais em vez de progresso.
Fim de tarde, sentada em sua cadeira de balanço, a aposentada Marieta Josefa da Silva, 63 anos, franze o cenho para falar do projeto do Arco Viário. Moradora há 44 anos do povoado do Rodízio, em Paudalho, teme que a rodovia tire seu sossego. Ou pior, lhe arranque a casa onde teve nove filhos, criou sete que sobreviveram e viveu ao lado do marido até vê-lo falecer. Apesar de residente há quatro décadas no imóvel, não possui os documentos do terreno.
Vizinho de Marieta, José Capitulino da Silva, 37 anos, morador de Pirassirica, povoado também situado em Paudalho, acorda todos os dias às 4h. Vai de bicicleta até Chão de Cruz, em Igarassu Pega um ônibus e segue para o Recife, onde, às 7h, precisa bater o ponto no Metrô, onde trabalha na área de serviços gerais. Para ele, o Arco Viário é positivo. Trará a chance de comprar uma moto e chegar mais rápido no local onde ganha a vida. Perto dali, a igrejinha do povoado se sustenta ano após ano e avisa que a preservação de patrimônios históricos também tem de entrar na lista de responsabilidade atreladas ao Arco e seus impactos. "É assim ó: a gente vive dessa terra, não tem outro meio de vida que não seja esse taquinho de terra. É muito difícil ter trabalho para a gente. Quando eles (as empresas) vêm já trazem tudo, quando vem pegar aqui (trabalhadores) é muito pouco", argumenta Benício Severino de Arruda, 66 anos, morador do Engenho Canzanza, em Moreno.
Perto dali, Marcos Cândido dos Montes, 47 anos, residente em São Salvador, Moreno, vê a chegada do empreendimento com outros olhos. "É só dá a parte que a gente merece. Vai ser ruim se o dinheiro que me derem não dá para comprar nada em outro canto.
"Se pagarem direito, tudo bem", rebate, falando sobre o que achava se tivesse que sair de sua residência pra dar lugar à estrada. Porém, como prova de que a discussão é delicada, seu genro, Aldemir Amaro da Silva, 30 anos, cita que a falta de documentos dando posse do imóvel lhe deixa mais apreensivo que otimista. "Se tivesse a posse haveria valorização, não é?", lamenta.
O diretor presidente da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe/Fidem), Maurílio Lima, acrescenta à questão fundiária ainda o grande número de reservas ambientais e mananciais hídricos no entorno da futura rodovia como pontos complexos ao desenvolvimento econômico das áreas. "Há ainda a urgência de revisar os planos diretores das cidades e as leis e uso e ocupação do solo. E mais importante: fazer cumprir a legislação", opinou. Lima frisa que o Arco Viário exigirá também a rediscussão, já no próximo ano, do modelo de governança da Região Metropolitana do Recife.
Sérgio Buarque, da Macroplan, antecipou que o debate sobre uma ocupação ordenada das áreas sob influência do Arco, com o devido zoneamento da região, indicando onde é melhor indicado instalar moradia, fábricas ou centrais de distribuição, será incluída na modelagem do Pernambuco 2035. Trata- se do documento que vai traçar as políticas públicas para o Estado nos próximos 20 anos.