O próximo presidente da República terá que conviver, no início do mandato, com um crescimento modesto, como o que é visto hoje no Brasil. É esse o cenário traçado pelos economistas Fábio Giambiagi e Claudio Porto, coordenadores do livro "Propostas para o Governo 2015-2018 - Agenda para um país próspero e competitivo", da editora Elsevier, lançado ontem no Rio. A boa notícia é que, para a virada de 2015 para 2016, eles são mais otimistas - se o próximo governante fizer o dever de casa.
"O primeiro ano do novo governo, 2015, também será de baixo crescimento, desde 2011. Mas, depois de 2015, por vias tortas, talvez seja possível gerar um crescimento maior, acima de 3%", estima Giambiagi, que é chefe do Departamento de Gestão e Risco de Mercado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Segundo ele, o caminho para o crescimento sustentado do país é aumentar a produtividade. "Entraremos numa etapa difícil. Apenas com a melhora da produtividade e a combinação de incentivos que envolvam maior competição teremos resultados de médio e longo prazo, afirma.
Contendo análises de 24 temas diferentes, a obra coordeanda pelos economistas contou com a colaboração de 40 especialistas. "Procuramos combinar um elenco de temas que fosse além das questões estritamente macroeconômicas, mas que, ao mesmo tempo, se relacionasse com eles", explica Giambiagi. Quanto aos autores, ele disse que houve uma mescla de veteranos ( como ele, Porto e Mailson da Nóbrega) com "jovens promissores, com enorme potencial de contribuição nas próximas duas a três décadas".
Para Giambiagi o governo precisará agora focar no desenvolvimento da ciência e tecnologia, em inovação e na melhoria da educação. "No passado, o país crescia porque a população ocupada aumentava 3% ao ano. Com a longevidade e a população jovem encolhendo temos outro cenário. É preciso melhorar a qualificação", diagnostica. Há também um problema geracional. "Quem vai tocar o Brasil nos próximos dez anos já saiu da escola e não está qualificado. Como vamos lidar com isso em termos de políticas públicas?" questiona Giambiagi.
Fundador e presidente da consultoria Macroplan, Claudio Porto concorda. "Uma das teses centrais de nosso livro é que uma das fases se esgotou. Estamos hoje num quadro de pleno emprego. Agora, precisamos por o foco na produtividade".
Ele vê também oportunidades, desde que aconteçam investimentos em infraestrutura e sejam removidos os gargalos que impedem o crescimento, bem como haja boa utilização dos recursos naturais."Aí vejo que nos anos 2015 e 2016 teremos a possibilidade de começar um crescimento sustentado", considera o economista.
Outro ponto fundamental, segundo Porto e Giambiagi, é melhorar a disciplina fiscal financeira. "O próximo governo, seja Dilma ou de algum candidato de oposição, irá se defrontar com uma combinação de velhos e novos problemas. Ntre os mais antigos, há a questão fiscal. Desde o começo dos anos 90, cada governo entrega para o seus sucessor gastos públicos maiores. Hoje, temos um déficit em conta corrente que se aproxima de 4% do PIB", calcula Giambiagi, para quem é preciso mudar a curva ascendente dos gastos.
O economista do BNDES não acha ,no entanto, que o governo Dilma tenha abandonado o tripé que garantiu estabilidade do país desde a gestão de Fernando Henrique - a geração de superávits primários nas contas públicas, o regime de câmbio flutuante e metas para a inflação. "O tripé continua sendo tripé, não podemos dizer que houve uma situação de descontrole. Mas, comparando o governo Dila com os de Fernando Henrique e Lula, a diferença é que , até 2010, a política monetária mirava no centro da meta e , a partir de 2011, esse compromisso ficou diluído. O governo está mirando na banda superior", aponta.