15/10/2013
|
Agência Estado - Broadcast
No período de forte crescimento econômico, na década passada, a poupança externa foi importante fonte de expansão para o Brasil. Mas agora o espaço para usá-la é pequeno. Dessa forma, um crescimento sustentável, baseado em expansão dos investimentos, exigirá aumento da poupança doméstica, com controle dos gastos do governo. O que, porém, parece pouco factível no horizonte da próxima gestão federal, de 2015 a 2018. As conclusões estão em alguns dos capítulos do livro "Propostas para o governo 2015-2018".
A obra, organizada pelos economistas Fabio Giambiagi (atualmente no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Claudio Porto (da consultoria Macroplan), será lançada no próximo dia 29, no Rio, e em novembro, em São Paulo.
No capítulo "Riscos e possibilidades do endividamento externo no Brasil", Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco Asset Management, conclui que o balanço de pagamentos melhorou muito na última década e contribuiu para o elevado crescimento visto de 2004 a 2010. Mas, hoje há pouco espaço para essa contribuição positiva.
Numa perspectiva para o próximo governo federal, Barbosa trabalha com um cenário em que as matérias-primas exportadas pelo Brasil seguem com cotações internacionais em alta e a taxa de investimento sobe dos atuais 18% a 19% do Produto Interno Bruto (PIB) para desejáveis 22% - nível suficiente para levar a economia a crescer 4% ao ano,segundo o economista.
Se o cenário externo permitisse, seria possível financiar essa expansão do investimento com poupança externa. Mas exigiria um pouco de apreciação da taxa de câmbio. Com o dólar mais barato, a indústria perde competitividade internacional e sofre ameaçada dos importados. "A forma pela qual a economia se ajusta para acomodar uma expansão do investimento daquele tamanho, sem muito esforço no consumo do governo, é através do câmbio", diz Barbosa.
O problema é que o cenário externo não está favorável, diante da perspectiva de redução dos estímulos à economia por parte das políticas monetárias expansionistas dos países desenvolvidos. "Fazer expansão do investimento recorrendo à poupança externa vai ser mais difícil e mais caro", diz Barbosa. Por isso, mesmo a meta de elevar a taxa de investimento a 22% exigiria aumento da poupança doméstica.
Neste caso, uma combinação de medidas de austeridade seria necessária. Até esse nível de crescimento dos investimentos, porém, não há necessidade de ajuste drástico nem corte de gastos. O caminho, diz o economista, seria moderar o aumento das despesas públicas - ou seja, crescer abaixo do ritmo de avanço do PIB. "Ninguém está propondo cortar despesas", afirma Barbosa, completando que há ambiente político para discutir prioridades de gastos.
No curto prazo, um ajuste nos gastos públicos deveria passar pelo fim das fortes elevações no salário mínimo, com mudança nas regras de reajuste, como defende o economista Mansueto Almeida, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em outro capítulo do livro "Propostas para o governo 2015-2018".
"A regra de reajuste do mínimo tem peso muito grande no curto prazo. A mera mudança traria um ganho muito grande para o próximo governo", explica Almeida. No entanto, o movimento depende de vontade política. Segundo Almeida, o próximo governo, mesmo no caso de um segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, encontrará uma estrutura de despesas rígida e uma situação fiscal quase limítrofe, com crescimento econômico menor, superávit primário reduzido e déficit maior nas transações externas.
Dessa forma, na visão de Almeida, o próximo governo não conseguirá, ao mesmo tempo, aumentar o investimento público, reduzir a carga tributária e o tamanho da dívida como proporção do PIB. Se, no curto prazo, a mudança na regra de reajuste do mínimo ajudaria, em prazo mais longo a Previdência e os gastos com saúde são a maior ameaça, por conta do envelhecimento da população.
Nesse caso, reformas serão necessárias. Almeida chama atenção ainda para a fixação de prioridades. Segundo ele, há a impressão na sociedade de que melhorias na gestão pública e combate à corrupção bastariam para melhorar as contas públicas e garantir a prestação dos serviços. Mas a conta não fecha. "A gestão melhora a qualidade. Mas o reajuste do mínimo implicará gastos de mais R$ 29 bilhões ano que vem. Isso não se resolve com gestão", conclui o economista do Ipea.