Diferentes, porém menos desiguais

[-] Texto [+]
14/08/2013 | O Globo
*Valeria Pero, professora do Instituto de Economia da UFRJ, e Adriana Fontes, economista senior da Macroplan e pesquisadora do Iets


As operações urbanas na Zona Portuária do Rio de Janeiro apresentam uma perspectiva positiva para a região, após longo período de decadência. Propiciarão uma melhora na infraestrutura e na mobilidade urbana e revitalização do espaço público. E podem configurar um modelo de desenvolvimento local na cidade do Rio, criando condições para construir um território de convivência com menos desigualdades e mais segurança. Para isso é preciso articular a dinâmica que se deseja implantar na região com as características da população local


A análise da situação socioeconômica dos moradores da região portuária, incluindo o Caju, mostra enormes desafios pela frente. Vamos ao Censo 2010: baixa renda média, favelização, elevado desemprego e indicadores de pobreza preocupantes (um terço da população da área portuária é pobre e 18% são extremamente pobres).


As crianças e jovens até 29 anos representam um contingente populacional na região portuária relativamente maior do que na cidade do Rio ( 47% e 43%, respectivamente). A frequência de crianças na escola é mais elevada do que na cidade, o que poderá reduzir a distância em relação à capital no futuro se forem feitos investimentos  na qualidade e atratividade do ensino, já que a frequência escolar dos jovens é inferior , principalmente entre os jovens adultos. Fica assim evidente a importância de discutir e traçar ações voltadas para a população jovem do Porto.


Metade da população adulta não possui o fundamental completo e, assim, encontra dificuldade de aproveitar as oportunidades que surgem na área. Destacam-se a baixa renda do trabalho e a alta proporção de empregados formais comparadas á média da cidade. Outra característica é o baixo tempo de deslocamento de casa ao trabalho e, portanto, alternativas de moradia longe devem diminuir a qualidade de vida dessas pessoas.


Fica evidente também o baixo e precário empreendedorismo local, bem como a baixa participação das micro e pequenas empresas no emprego e na massa salarial. O crescimento dos pequenos negócios , atuais e potenciais, contudo, estará condicionado a um planejamento que assegure uma dinâmica de bairro à região, garantindo a circulação de pessoas em espaços públicos.


Por fim, a questão habitacional: a valorização imobiliária tem evidentes consequências positivas, porém apresenta dificuldades, principalmente para os moradores em domicílios alugados, que constituem elevada parcela ( 38%) e, especialmente, para aqueles que o utilizam para o seu próprio negócio.


Essas são características locais que devem ser consideradas no processo de revitalização  da região portuária para que seja inclusivo e produza melhores condições de vida da população atual. É necessário um bairro de uso múltiplo, com moradia, lazer, diversas atividades econômicas e de convívio entre diferentes, porém menos desiguais. Será uma pena desperdiçar essa oportunidade e se deixar cristalizar no Porto as enormes desigualdades da cidade do Rio.