07/08/2008
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Correio Braziliense
Queda nas cotações das commodities exportadas pelo país aumenta vulnerabilidade das contas externas do país. Até a maior vendedora brasileira, a Vale, registra lucro menor no segundo trimestre
A desaceleração dos preços das commodities - alimentos, petróleo e minerais - no mercado internacional deve afetar diretamente no saldo da balança comercial, adicionando mais riscos ao financiamento das contas externas em médio prazo. Desde o ano passado, o forte ritmo de deterioração das transações correntes do país preocupa o governo. Apesar disso, ninguém aposta em uma nova crise de vulnerabilidade externa. Ao contrário de outras épocas, o Brasil tem reservas internacionais acima de US$ 200 bilhões e consistente entrada de investimentos estrangeiros para bancar os compromissos com o exterior.
A queda do saldo comercial é esperada porque o crescimento das exportações brasileiras está sustentado na elevação dos preços e não no aumento da quantidade vendida. Dados preliminares da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostram que o volume vendido recuou 1,6% no primeiro semestre de 2008 em relação a 2007, enquanto o valor avançou 25,3%. No caso dos preços, a expansão foi puxada, principalmente, pelos produtos básicos (39,9%) - cuja a participação nas exportações saltou de 30,57% para 35,31%.
O cenário para as matérias-primas é tão incerto que afeta até mesmo gigantes como a Vale, a maior exportadora do país. Ontem, a mineradora anunciou um lucro de R$ 4,573 bilhões no segundo trimestre - baixa de 21,7% em comparação ao mesmo período do ano passado e alta de 57,8% sobre o primeiro trimestre, conforme o padrão contábil brasileiro. No primeiro semestre, no entanto, a companhia registrou lucro 37,6% menor do que o apurado no mesmo intervalo do ano passado: queda de R$ 10,937 bilhões em 2007 para R$ 6,826 bilhões agora. Tomando como base a contabilidade americana (US GAAP), expressa em dólares, o lucro da Vale no segundo trimestre foi de US$ 5,009 bilhões - alta de 22,3% na comparação com o mesmo período do ano passado, e de 147,8% sobre o primeiro trimestre deste ano. A diferença entre os dois saldos se deve à variação cambial.
Recuo do saldo
Com a perspectiva de um reajuste menor das commodities, é inevitável um recuo do saldo comercial, uma das principais fontes de recursos para fazer frente às transações correntes. O mercado prevê que o país deve fechar o ano com um superávit na balança comercial de US$ 23 bilhões. Para 2009, esse valor deve despencar para US$ 15 bilhões. "O efeito da desaceleração das commodities aparece no resultado das exportações e importações. Mas é inevitável um impacto da balança porque exportamos mais esses produtos do que importamos", explica o economista da LCA Consultores, Francisco Pessoa Faria.
Para Faria, no entanto, não há motivos de pânico. Na avaliação dele, os preços dos produtos com cotação internacional continuam num patamar elevado. O reajuste dos preços dos produtos básicos deve ficar em 42% neste ano. Para 2009, esse valor não deve superar a marca dos 9%. Além disso, os estoques de alimentos, por exemplo, estão baixos em todo o mundo, o que deve continuar contribuindo, em menor intensidade, para os superávits da balança comercial.
O economista ressalta, no entanto, que o país pode passar por algum aperto a partir de 2012. Isso porque, com um saldo comercial menor, aumenta a perspectiva de um déficit em transações correntes maior em 2009. Somente no acumulado de janeiro a junho deste ano, o déficit em conta corrente foi de US$ 17,402 bilhões, revertendo o superávit de US$ 2,413 bilhões apurados no mesmo período de 2007. O mercado prevê um déficit de US$ 24,9 bilhões neste ano e de US$ 32,70 bilhões em 2009. Esse saldo negativo ajuda na valorização do dólar e, conseqüentemente, na disparada da inflação. Para evitar que o impacto seja forte nos preços, o Banco Central manterá os juros elevados, o que refletirá em um crescimento econômico menor. O economista da consultoria Macroplan, Rodrigo Ventura, não acredita que as commodities devam recuar a ponto de fazer as exportações brasileiras despencarem. "A época de comida e petróleo barato acabou", resume.
No mercado internacional, soja e milho não param de cair. As cotações na Bolsa de Chicago - principal centro financeiro do agronegócio - amargam perdas desde 16 de julho. Rosemeire dos Santos, assessora-técnica da Comissão Nacional de Cereais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que não é possível prever se a turbulência que tomou conta do mercado de itens agrícolas negociados em Bolsa está perto do fim ou apenas no começo. "Não dá para saber. A luz amarela está acesa. A volatilidade é muito grande", completa.