De olho nos desafios do "novo normal"

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21/11/2012 | Brasil Econômico
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Andréa: empresa que não antevê cenários perde um tempo precioso
Entrevista Andréa Belfort - consultora sênior da Macroplan

Poucas empresas estão utilizando o modelo de monitoramento econômico

As empresas precisam estar prontas para enfrentar as mudanças econômicas e tecnológicas, de forma a evitar vulnerabilidades em um novo cenário. Segundo Andréa Belfort, consultora na Macroplan, consultoria em cenários prospectivos, tanto empresas públicas quanto privadas são impactadas por transformações em diversas dimensões: políticas. econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas e do ambiente de negócios no qual atuam. Porém, boa parte das empresas negligencia o acompanhamento dos aspectos mais macros que podem, por vezes,afetá-las de diversas maneiras. Em entrevista ao Brasil Econômico  a consultora fala sobre gestão de monitoramento do cenário econômico.

O modelo de gestão de monitoramento do cenário econômico já está disseminado no Brasil?

O modelo está presente em poucos segmentos, principalmente, no setor bancário e em agências e empresas especializadas em avaliações de risco - que monitoram mensalmente os dados econômicos e disponibilizam suas análises para clientes -, e no setor energético, que já tem uma prática histórica de análise de cenários de longo prazo desde a década de 80. No entanto, não é um modelo de gestão presente na maioria das empresas, principalmente na relação do monitoramento do cenário econômico com os próprios negócios, os impactos daí advindos e as interferências nos seus mercados. Além disso, as empresas, em geral, negligenciam também o monitoramento das variáveis associadas ao seu próprio negócio - desde regulação até questões específicas do negócio- ou mesmo os sinais enviados pelo movimento dos concorrentes.

- De que forma as empresas podem se preparar? São necessárias mudanças internas, por exemplo, criar um setor específico dentro das empresas?

Normalmente, os profissionais dedicados a monitorar o ambiente externo estão vinculados às áreas de planejamento ou de estudos de mercado. Não é necessário criar uma área específica de estudos de mercado ou de estudos prospectivos, mas é relevante ter essas competências na empresa, com profissionais que saibam fazer a leitura do ambiente externo, captar os sinais, não só da economia, mas também de todos os aspectos que afetam direta e indiretamente seus negócios e mercados. Esses profissionais também devem ter a capacidade de subsidiar a alta direção com análises e avaliações prospectivas que propiciem a tomada de decisão ante as incertezas do ambiente.


- Esse tipo de gestão é possível ser implantada no setor público e privado? Quais são as vantagens para cada setor? 


Todas as organizações, públicas ou privadas, necessitam desse tipo de gestão para melhorar a sua capacidade de antecipação, de resposta às mudanças do ambiente e de ação proativa. Todas elas são impactadas por transformações em diversas dimensões: políticas, econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas e dos ambientes de negócio no qual atuam. O setor privado tem, em geral, um olhar mais apurado para a concorrência no seu segmento. Está mais preocupado com os competidores mais diretos, na disputa diária pela fatia de mercado, com as mudanças tecnológicas e com aquelas associadas aos seus clientes. Mas, boa parte deles negligencia o acompanhamento dos aspectos mais macros, que podem, por vezes, afetá-los sobremaneira. Já o setor público está mais preocupado com as dimensões política, ambiental, regulatória e com as mudanças de comportamento da sociedade em geral. Mas raramente têm em seus quadros  profissionais voltados para monitorar sistematicamente as transformações, mesmo nas dimensões de maior interesse.


- Quais são os impactos para as empresas que não se preparam para o futuro?


A perda de oportunidades no mercado e a vulnerabilidade às ameaças que surgem no contexto externo são as mais visíveis. Uma empresa que não antevê os sinais emitidos pelo ambiente, perde um tempo precioso, tanto para agir mais rapidamente à frente dos seus concorrentes, na captura de boas oportunidades e de um melhor posicionamento competitivo, quanto para defender-se de situações desfavoráveis. A gestão do presente e do futuro não é trivial e muitas organizações colocam foco excessivo no dia a dia, deixando-se contaminar pela conjuntura, sem analisar os aspectos estruturais que prevalecerão no futuro e que podem impactar positiva ou negativamente os seus negócios. 


- Na implantação desse processo como as empresas brasileiras se posicionam diante de companhias de outros países?


No mundo todo, a atenção voltada aos fatores externos às empresas vem evoluindo desde a década de 70 do século passado, junto com a evolução do planejamento estratégico e do planejamento estratégico sob cenários, que teve início em setores cujos investimentos demandam longo prazo de maturação, como os segmentos de energia elétrica ou petróleo e gás e, hoje, já estão bem difundidos nos países desenvolvidos. No Brasil, o uso de cenários de longo prazo como subsídio ao planejamento estratégico começou em meados da década de 80, seja no setor público (estudo de cenários elaborados pelo BNDES), seja nas empresas estatais do setor energético, como Eletronorte e Petrobras. A partir da década de 90, a estabilização da economia favoreceu a utilização do planejamento estratégico de longo prazo e dos estudos de cenários prospectivos, que vem ganhando em abrangência e complexidade neste início do século XXI, atingindo em geral as grandes empresas - privadas e estatais - e também o Governo Federal e de alguns Estados e Municípios. No entanto, a utilização dos cenários de longo prazo como efetiva ferramenta de planejamento e gestão ainda não atingiu a maioria das médias e pequenas instituições públicas ou privadas no Brasil. Mesmo nas grandes empresas, uma parte considerável delas elabora cenários de forma eventual, sem incorporar o monitoramento do ambiente externo na prática diária como um modelo de gestão sistematizado e efetivo. 


- Quais foram os últimos grandes fatores que impactaram na vida das empresas?


Nas últimas décadas , ocorreram grandes  descontinuidades econômicas,políticas, tecnológicas ou sociais que impactaram governos, organizações e empresas no mundo e no Brasil. Se olharmos a evolução do PIB, tanto no mundo como no Brasil, nos últimos 40 anos, percebemos que, em média, a cada 3,5 anos ocorreu uma descontinuidade e/ou um período de grande volatilidade econômica, política, tecnológica ou social. No mundo, passamos pelos choques do petróleo, pela crise da dívida na América Latina, pelo esfacelamento da União Soviética e pela Guerra do Golfo, pela crise do Sudeste Asiático e da Rússia, pelo crescimento da internet e da economia digital e pelo estouro da bolha Pontocom, pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, pela crise se 2008 e suas consequências até hoje. No Brasil, as descontinuidades também foram diversas, desde o crescimento do cerrado brasileiro a partir da década de 70, até os diversos planos econômicos e estabilização da economia com o Plano Real, as descobertas de petróleo na Bacia de Campos, na década de 80, e do pré-sal, em 2007, a crise energética do início deste século e, atualmente, a emergência da classe C. Nesta década, a Macroplan destaca a "emergência dos países emergentes" como a nova descontinuidade que impactará não só a economia global, mas também a distribuição de poder entre as nações e blocos. O fato é que a descontinuidade e a volatilidade são cada vez mais frequentes nos ambientes econômico, tecnológico e político e, portanto, merecem redobrada atenção de gestores públicos e privados. A tendência é de prosseguimento desse padrão de grandes mudanças e rupturas. Esse é o "novo normal".