Um Brasil melhor em 2022

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02/07/2012 | O Financeiro
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O Brasil é um país que ainda precisa ser construído, e existem possibilidades de acelerar esse crescimento com boas operações de crédito
Para o País ter uma economia sustentável no ano de seu bicentenário da independência, o economista Claudio Porto defende políticas com visão de longo prazo

Uma das funções de um economista é prever comportamentos econômicos. Mas não basta olhar para o dia de amanhã ou para a semana seguinte. É preciso trabalhar com dados sólidos e definir planos de longo prazo. Um projeto de país. Quem defende essa ideia é o economista e consultor Claudio Porto, fundador e presidente da consultoria Macroplan , Prospectiva Estratégia & Gestão.

Porto foi um dos organizadores do livro "2022 - Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário" (Editora Campus), lançado no ano passado em conjunto com o economista Fabio Giambiagi e outros coautores. A uma década do aniversário de 200 anos da independência brasileira, ele faz uma análise sobre os erros e acertos que o Brasil está vivenciando rumo a uma economia sustentável.

Os desafios são muitos. As bases para o crescimento são precárias: falta investimento, a infraestrutura é deficitária, a taxa de inflação ainda é elevada em comparação com outros países e existem mais pobres do que seria aceitável em uma nação desenvolvida. A educação melhorou, mas não o suficiente. Confira essas e outras reflexões na entrevista com Claudio Porto sobre o Brasil em 2022.

Financeiro - O que o motivou a organizar o livro "2022"?

Claudio Porto - Foi a constatação de que no Brasil, infelizmente, as reflexões de médio e longo prazo sobre temas econômicos e o futuro do país são escassas. O fio condutor do livro é um olhar sobre as questões estruturais da nação, mas não só sobre macroeconomia, como sobre desenvolvimento regional, crescimento das cidades e comportamentos sociais. O bom economista ancora suas análises em uma sólida observação da realidade e da identificação de fenômenos econômicos e sociais, mas também deve ser capaz de lançar seu olhar para além do dia seguinte.Queremos estimular a discussão de como será o Brasil do futuro, inclusive com temas que são tipicamente de interesse do mundo financeiro, como as metas de inflação.

Financeiro - Em breve o livro "2022" vai completar um ano de lançamento. Nesse meio tempo, o que o Brasil acertou no caminho rumo a uma economia sustentável?

Porto - Os principais acertos foram: a reforma da previdência pública, por meio do projeto de lei que cria a Fundação de Previdência Complementar para os Servidores Públicos Federais (Funpresp) e aliviará o déficit previdenciário em longo prazo; a retomada das privatizações, com os aeroportos; o estímulo aos investimentos privados; e as medidas emergenciais de ajuste nos momentos mais agudos da crise, como a expansão do crédito dos bancos públicos, o estímulo ao consumo e as desonerações setoriais.

Financeiro - E os erros?

Porto - O principal erro é a falta de visão de longo prazo e de ousadia para retomar com toda a força um ciclo de reformas e ajustes estruturais para tornar o país mais  competitivo nesta fase da economia mundial. Isso significa enfrentar três grandes gargalos: a baixa qualificação do capital humano, o que remete ao desafio de acelerar e melhorar a educação e ampliar dramaticamente as oportunidades de educação profissional; a insuficiência e má qualidade da infraestrutura física, especialmente nos sistemas de transportes e logística, que precisam de investimentos públicos e privados; e a forte deficiência no capital institucional, na qual se destacam a má qualidade da gestão pública nos três poderes e a carga tributária elevada e burocrática. Esses problemas causam os baixos níveis de produtividade do Brasil e um ambiente que dificulta os negócios e aumenta o custo Brasil. Enfrentando esses gargalos, provavelmente deixaríamos de ser o eterno "país do futuro, para fazer a esperada guinada brasileira."

Financeiro - O senhor percebe um consenso entre os coautores do livro sobre o Brasil melhor em 2022?

Porto - Observo consensos muito claros. Defendemos uma maior eficiência na economia e na administração pública; propusemos metas de equilíbrio fiscal nominal; inflação e juros declinantes; uma política social mais flexível para acompanhar a mudança do perfil da população; uso dos recursos do pré-sal em projetos de longo prazo; e uma maior participação dos investimentos privados em projetos de infraestrutura.

Financeiro - Como o senhor analisa a oferta de crédito hoje no país?

Porto - O Brasil é um caso de sucesso no mundo em termos de construção de um sistema financeiro sólido, como Plano Real. O fato de nós termos um Banco Central que, na prática, équase independente e faz uma boa regulação, melhorou o ambiente de negócios no conjunto das transações financeiras. Destaco também um conjunto de microrreformas, como a lei de falências, a simplificação de liquidações de passivos bancários, as mudanças na concessão de crédito imobiliário e das regras para crédito consignado em folha de pagamento. Essas microrreformas impulsionaram e melhoraram bastante as ofertas de crédito e o mercado respondeu muito bem. Essa foi uma trajetória de sucesso que contribuiu para o fenômeno de ascensão da classe C.

Financeiro - Qual seria o cenário mais provável para o setor de crédito na próxima década?

Porto - A próxima agenda será de expansão do crédito imobiliário para aquisição de imóveis próprios. O crédito imobiliário ainda representa uma fração pequena do segmento no Brasil e existe espaço para um crescimento saudável nos próximos dez ou 15 anos. Já o crédito para consumo não vai expandir com a mesma exuberância, mas a tendência é manter o crescimento em um cenário com taxas de juros declinantes. Um lado importante é o crédito não ultrapassar o limite da capacidade de endividamento das famílias, mas esse fenômeno é dinâmico, pois as famílias pagam suas contas e podem tomar crédito novamente. Vejo espaço para grandes investimentos de infraestrutura. São operações mais sofisticadas com papel importante do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas ele não é um agente exclusivo. Existem bancos do setor privado e fundos de previdência com imensas possibilidades de fazer boas operações de crédito para bons projetos de infraestrutura. Precisamos de estradas, sistema de transporte urbano eficiente e saneamento. O Brasil é um país que ainda precisa ser construído e existem possibilidades desacelerar esse crescimento com boas operações de crédito.

Financeiro - Como deveria ser a reforma tributária brasileira capaz de deslanchar o desenvolvimento?

Porto - A reforma tributária tem dois pontos. O primeiro é a simplificação do sistema de impostos. As empresas e pessoas gastam muito tempo e energia nesse assunto, pois é muito complexo. A simplificação é essencial para melhorar a competitividade brasileira. Um dos fatores que detonam a nossa indústria são os altos impostos. Por isso fica mais barato importar. O segundo ponto é justamente a redução da carga tributária. O Brasil tem a carga tributária mais elevada do mundo entre os países em desenvolvimento, que se aproxima da taxa de países europeus de Primeiro Mundo mas com um serviço público de Terceiro Mundo, é uma defasagem complicada. Essas mudanças não acontecerão de uma hora para a outra, mas são desejáveis. Em função da crise econômica, alguns tributos foram reduzidos e o mercado de consumo respondeu a isso de forma rápida. Com uma carga tributária mais baixa você pode ampliar o consumo.

Financeiro - Um país desenvolvido economicamente e não socialmente seria um dos pesadelos sobre 2022?

Porto - É possível um país se tornar mais próspero e mais desigual, mas isso não é sustentável em longo prazo. Felizmente o Brasil está conseguindo reduzir a desigualdade nos últimos 20 anos. Um dos fatores que explica esse fenômeno é a melhoria da escolaridade. Essa mudança acontece de forma mais lenta do que desejamos, mas é uma melhoria importante. O mais provável para o Brasil é caminhar para uma maior sustentabilidade não só econômica, mas também social e ambiental.  Esse é um ponto que falamos muito no livro. As oportunidades são muitas, mas precisamos acelerar a qualificação profissional, melhorar a infraestrutura saturada do país, além da nossa gestão pública.

Financeiro - O senhor considera um conflito viabilizar uma exploração sustentada do pré-sal e ao mesmo tempo o Brasil ser, em 2022, uma economia de baixo carbono?

Porto - São agendas conflitantes, sim. Sobre a emissão de gases, precisamos observar que a produção do petróleo do pré-sal será comercializada principalmente depois da próxima década, não é agora. Há tempo para o desenvolvimento de tecnologias sequestradoras de carbono ou que minimizem as emissões. Nesse campo, a Petrobras tem pesquisas agressivas. Claro que existe um dilema, mas creio que há espaço para redução das emissões. Devemos considerar que a nossa matriz energética é uma das mais limpas do mundo. Temos uma produção grande de energia hídrica e possibilidades de aproveitar a energia eólica e a solar. E também o etanol, pois somos os mais competitivos do mundo nesse ponto.

Financeiro - Recentemente aconteceram privatizações de aeroportos e outras deverão vir. Esse modelo de investimento é benéfico?

Porto - As privatizações e as concessões ao setor privado são benéficas ao país, não somente porque os gargalos são eliminados ou evitados com maior rapidez, mas também porque trazemos a eficiência de gestão da área privada para esses empreendimentos. O modelo de privatizações dos aeroportos me parece bem consistente, mas deve ser aperfeiçoado para reduzir a presença direta ou indireta do Estado no financiamento e na gestão. O mais importante é que esse processo seja estendido para os demais aeroportos, portos e rodovias. O impacto sobre a competitividade sistêmica do país será significativo.

Financeiro- Quais riscos e oportunidades o Brasil tem com a crise que permanece na Europa e nos Estados Unidos? 

Porto - São vários riscos, como a queda da demanda e dos preços das commodities que são hoje a parcela principal de nossas exportações. Outro risco é a perda de dinamismo ou mesmo recessão econômica mundial, assim como dificuldades de financiamento de transações  comerciais e maior protecionismo em escala global. Mas o maior risco que eu enxergo é interno, é o imediatismo, a falta de uma visão de longo prazo que nos ajude a fazer a melhor travessia possível deste cenário de dificuldades. Há muitas oportunidades calcadas em ativos estratégicos que temos. Nessa lista estão a exploração petrolífera do pré-sal, com a possibilidade de elevar o país à posição de quarto maior produtor de petróleo do mundo em 2030, a concessão e privatização de grandes expansões de infraestrutura e a forte expansão do mercado interno que tem como símbolo a ascensão da nova classe C. Até 2016, o poder de compra dessa nova classe média brasileira poderá ultrapassar a barreira de R$ 1,4 trilhão