Participação como caminho

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03/07/2012 | O Globo - Caderno Razão Social
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CONFERENCIA sobre pobreza reuniu pesquisadores de várias partes do mundo da Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá, durante a Rio+20.
Um cidadão em três mora em favelas no mundo. Só na América Latina, 59% da população vive em condições precárias em aglomerados urbanos. Na Europa, 80 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza. Os dados foram divulgados no workshop "A terra está inquieta", promovido pela Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá, como evento paralelo à Rio +20. Durante um dia inteiro, pesquisadores sobre o tema da pobreza de vários países fizeram conferências  para uma platéia de estudantes secundaristas atentos e foram claros que, para acabar com a exclusão social no mundo,  é preciso elevar  a renda das populações mais pobres, mas também dar acesso a eles aos bens mínimos para se ter uma vida digna.

Entenda-se por bens mínimos infraestrutura básica de saneamento, transporte, educação, cultura, além do acesso à terra para a produção de alimentos. O que, segunda a pesquisadora  Sabah Abouessalam , professora do Instituto National de L' Úrbanisme, em Rabat, Marrocos, parece não estar na lista de prioridades dos governos das nações do Sul. Sabah, que é mulher do sociólogo francês Edgard Morin, defende a criação de cidades inclusivas, ou aquelas onde estratégias produtivas para criar riqueza estejam aliadas às de integração social.

- A infraestrutura e programas de geração de renda são fundamentais para melhorar a qualidade de vida das pessoas e precisam  estar na pauta dos governantes. Mas é necessário ir além e reconstruir as relações sociais em torno das populações mais pobres. Isso significa valorizar seus conhecimentos e empoderar essas pessoas para que elas possam falar e, assim, intervir nos processos decisórios que as afetam. Os pobres precisam ser ouvidos e suas opiniões consideradas por quem cria políticas públicas de combate à pobreza. Este é o desafio - disse Sabah.

Mas segundo o sociólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), Elimar Pinheiro Nascimento, dar conta deste desafio significa ampliar os instrumentos de participação popular como conselhos regionais, assembleias públicas, etc. O que não é tão simples, na visão do professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB. Ele diz que os pobres ou são vistos como eleitores ou como uma ameaça.


- O que pode mudar este quadro é a participação popular. Mas no Brasil ainda é raro. Para se ter uma ideia, o maior programa brasileiro de combate à pobreza, o Bolsa Família, não tem conselho popular. Para se comunicar, o beneficiário precisa ter acesso à internet, entrar no site e clicar no fale conosco. Com isso, perde-se a possibilidade de aprimorar os programas, torná-los mais adequados às necessidades das diferentes populações de excluídos - contou o professor.


A pouca participação popular no Brasil é um resquício dos anos de chumbo, segundo Edgar Morin, também palestrante no evento. Para Morin, participação social é uma ferramenta que requer exercício. Em uma democracia recente, nosso caso, a população demora para se apropriar dos espaços de participação porque ficou sem voz durante um tempo. Para recuperá-la só há um caminho, como ele mesmo explicou.


- É a educação  - disse o professor , que tem 93 anos e fala cuidadosa.


Morin, que é professor da Universitè Paris VII e presidente do Institut International de Civilisation (IIRPC), explicou que a prática  da participação deve fazer parte da educação do cidadão.


- Só assim aprendemos, aos poucos, a tomar a palavra.


E que modelo de educação daria conta de ensinar crianças e jovens a participarem ?


- O que eu descrevi no livro os "Sete saberes para uma educação do futuro"- disse.


Neste livro, o professor descreve um sistema de ensino que incentive crianças e jovens a valorizarem o conhecimento; a refletirem sobre o significado do que é  ser humano no contexto de sua época; e a compreenderem o outro. Só assim, segundo o sociólogo, é possível constituir o valor da solidariedade, considerado por ele peça chave para erradicar a pobreza.


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