Ação social contra o tráfico

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19/04/2012 | Valor Econômico
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Marcos Faustini, da Ação Social contra o tráfico
Com mais de 20% dos jovens das favelas sem trabalho e fora da escola, Rio de Janeiro busca alternativas para afastar a juventude do tráfico. "O jovem da favela é tão criativo que inventou a mototáxi", diz Marcos Faustini, criador da Agência de Redes para a Juventude. 

Rio procura saídas para tirar jovem do tráfico


RIO - Daniel Ribeiro, 31 anos, coordena um engenhoso serviço de entregas que permite a moradores de comunidades pobres, consideradas áreas de risco de violência, receberem produtos comprados via internet que não são entregues diretamente pelas empresas que vendem esses produtos. Um contrato entre a ONG Atitude Social, da Vila Cruzeiro (Complexo da Penha, zona Norte) e a empresa Direct Log viabiliza essas entregas.


Há pouco mais de dois anos Ribeiro era o Balinha, ex-gerente do tráfico de drogas da favela de Vigário Geral (zona Norte) que tinha como perspectiva juntar um novo "exército" para tentar, a bala, retomar o "negócio" que lhe fora usurpado por um grupo rival.


Um verdadeiro mutirão de ações públicas, multilaterais e privadas começa a ser engendrado no Rio na tentativa de encontrar alternativas de ocupação para os jovens das comunidades carentes ao trabalho de soldado do tráfico. Os laboratórios são as 20 localidades hoje ocupadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) cujos jovens, teoricamente, deixaram de ter a opção de trabalhar no glamuroso, tentador e mortal comércio ilegal de drogas.


O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aceitou, em tempo recorde (cerca de seis meses), financiar com US$ 70 milhões (mais contrapartida local de US$ 30 milhões, totalizando US$ 100 milhões) um projeto estadual que inclui Centros de Referência da Juventude (CRJs) e acompanhamento coletivo e individual de jovens inspirado na Operação Mariscal, de Medellín, Colômbia.


O alerta que detonou as ações coordenadas foi dado por uma pesquisa feita em 2010 pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) para a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). O trabalho, um diagnóstico sócio-econômico de nove comunidades pacificadas (Cidade de Deus, Ladeira do Tabajara, Cantagalo, Providência, Batan e Pavão/Pavãozinho, Santa Marta, Chapéu Mangueira e Babilônia), revelou que até 36,5%, caso do Batan, em Realengo (zona Oeste) dos jovens entre 15 e 24 anos delas não estudam e nem trabalham. Na maioria dos casos, esse porcentual de jovens em busca de uma vocação fica acima de 20%.


Embora a faixa etária da pesquisa tenha a idade de 24 anos como teto, as políticas inclusivas, em geral, abarcam os jovens até 29 anos, idade que tinha Ribeiro quando, refugiado na casa de parentes na Vila Cruzeiro, fez contato com o trabalho da Atitude Social, coordenado por Antônio Tibúrcio, ex-presidente da Associação de Moradores da comunidade.


Em um espaço relativamente pequeno - um prédio de três andares, uma piscina e um campo de futebol -, a ONG tem um trabalho esportivo, educativo e profissionalizante que atende a nada menos que 6 mil pessoas entre crianças, jovens e até idosos, em 26 oficinas.


A instituição sobrevive, principalmente, de alguma geração própria (como a de entrega de mercadorias), do apoio de empresas privadas e de um convênio de R$ 1,3 milhão com o governo do Estado, via Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos.


Além da criação dos CRJs nas comunidades, alguns já em funcionamento como os do Complexo do Alemão (zona Norte), o do Morro da Providência (Centro) e o da Cidade de Deus (zona Oeste), o secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves, espera ter a aprovação do Senado para assinar contrato com o BID até maio de modo a acelerar a parte mais ambiciosa do programa do Estado para a juventude das UPPs: a criação de um sistema de aconselhamento e de tutoria que tem como meta atender a quase 40 mil jovens até 2016.


Segundo Neves, a tutoria, que é um trabalho de acompanhamento individual, tem como meta atender a 3.800 jovens até o fim do programa. Já o aconselhamento, que dará atendimento psicológico e social em grupo, tem a meta de alcançar 35 mil jovens. "O objetivo é acompanhar o percurso do jovem na reconstrução da sua trajetória individual e comunitária", explica.


O trabalho, diz o secretário, correrá paralelamente a outras iniciativas, como criação de bibliotecas, de mais vagas nas escolas e de unidades de qualificação profissional onde for necessário, tudo em parceria do setor público com empresas e instituições privadas.


Uma dessas instituições é o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) que já atuava nas favelas desde 1997 com projetos pontuais e que, com a chegada das UPPs vem desenvolvendo trabalhos voltados para a formalização de empreendedores e para a capacitação profissional e assistência técnica.


Em 2011 foi criada uma área voltada para o desenvolvimento do empreendedorismo em comunidades pacificadas, sob a coordenação da psicossocióloga Carla Teixeira, cuja dissertação de mestrado tratou do problema da representação social da pobreza em uma favela do Rio (Rio das Pedras). Segundo ela, o Sebrae já atendeu a mais de 12 mil pessoas nas comunidades pacificadas.


Um desses trabalho é a orientação para que sejam criados polos empresariais nas favelas. Estão em processo de criação um polo de turismo no Complexo do Alemão, um de comércio na Cidade de Deus, outro de turismo no Chapéu Mangueira/Babilônia, comércio e cultura no Morro da Providência e de cultura no Cantagalo. Na Rocinha já funciona um de turismo.


Para pesquisadores, programas são desarticulados


O economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) diz que é necessário averiguar se o jovem de favelas que não estuda e nem trabalha, o chamado "nem-nem" no jargão acadêmico, está também fora do ensino técnico, fato que não estaria sendo captado pelos estudos feitos com base nas pesquisas do IBGE, que focam só o ensino regular. "É necessário saber se ele é nem-nem-nem", propõe.


Independentemente da precisão do diagnóstico, Neri reconhece que o problema é grave. Especialmente porque no Rio, segundo seus estudos, que têm também por base as pesquisas do IBGE, há uma inversão na pirâmide etária das favela em relação ao conjunto da cidade. Enquanto o Rio é hoje a capital brasileira de mais alta média de idade, nas favelas, de acordo com Neri, a situação não se repete.


Na Rocinha, maior favela individual da cidade, 39,8% da população tem entre 15 e 33 anos de idade, de acordo com Neri. No Complexo do Alemão a parcela também é alta, 32,8%. "Os problemas que são dos jovens são os problemas das favelas, porque elas têm muitos jovens", resume.


Neri disse que há muitas políticas de inserção dos jovens carentes, das favelas ou não, sendo adotadas e que ainda carecem de avaliação, como é o caso do Renda Melhor Jovem (os jovens com bom currículo no ensino médio estadual têm direito a uma verba mensal que se transforma em uma poupança a ser retirada no fim do curso) e o Cartão Família Carioca, que também recompensa o bom desempenho escolar.


Os economistas Adriana Fontes, do IETS, e Gustavo Morelli, da empresa Macroplan Prospectiva, estão preparando, sob encomenda do Sebrae-RJ, um estudo denominado "A Inclusão dos Jovens na 'virada' do Rio de Janeiro", previsto para ficar pronto no segundo semestre, que deverá responder a boa parte das muitas perguntas que se apresentam sobre o tema.


Segundo Adriana, "há de fato uma variedade de iniciativas voltadas para jovens, oriundas de vários tipos de instituições, algumas visando a inserção produtiva, outras buscando o aumento de qualificação, ou estimulando o empreendedorismo de jovens". Mas afirma também que, na maioria dos casos, "são programas com reduzida cobertura, em termos de número de beneficiários e de abrangência territorial, e desarticulados".


Além de falta de coordenação, os pesquisadores estão identificando fragilidade nos sistemas de monitoramento e de avaliação de resultados. Adriana sugere que o programa UPP Social, parceria do Instituto Pereira Passos, da Prefeitura do Rio, com o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cujo objetivo é justamente coordenar ações do setor público e do setor privado para a promoção do desenvolvimento socioeconômico das favelas pacificadas, pode ser uma alternativa para viabilizar essas oportunidades.