Entre 2003 e 2010, 32 milhões de pessoas foram incorporadas ao mercado consumidor brasileiro e até 2016 o poder de compra da nova classe média brasileira poderá ultrapassar a barreira de 1,4 trilhões de reais. Entender as características deste novo consumidor, suas especificidades e seus traços culturais é cada vez mais relevante para as organizações. Conhecer o seu atual e potencial cliente é essencial para a construção de estratégias de mercado mais efetivas e para a formulação de políticas públicas que gerem mais resultados e que façam a diferença no cotidiano das pessoas.
Nos próximos anos, além da avalanche de novos consumidores, as organizações no Brasil irão lidar com mudanças no perfil socioeconômico e cultural de seus clientes.
O País está mudando e, com ele, diversos fatores estruturais estão em transformação, com destaque para o acelerado envelhecimento populacional e para o aumento do poder de compra das classes de mais baixa renda. Somado a estes fatores, mudanças culturais e de comportamento em andamento também moldarão este novo consumidor brasileiro.
A crescente busca pelo aumento da qualidade de vida, o aumento da influência das crianças na decisão de compra familiar, a exigência de produtos mais responsáveis sócio ambientalmente e a constante busca pela exclusividade no ato de compra serão aspectos mais presentes na decisão de consumo do brasileiro.
Entre as trasnformações em curso, dez tendências relavantes estao impactando a sociedade bem como o consumidor brasileiro de uma forma mais intensa.
1. Consumo mais exigente: A população brasileira está cada vez mais consciente e exigente de seus direitos. Selos de certificação e de garantia nos produtos já são requisitos indispensáveis para responder às crescentes exigências de qualidade presente nos mercados doméstico e internacional. Nos próximos anos, terá valor crescente a rastreabilidade de produtos e processos produtivos, permitindo não somente adequá-los às normas de qualidade e aos requisitos de aparência, funcionalidade e facilidade de manutenção exigidos pelo consumidor, como garantir também o acesso à informação em tempo real da história, aplicação, localização e os processos aos quais o produto está relacionado.
2. Consumo +60: A população brasileira está crescendo e envelhecendo. Dados recentes apontam que houve um acréscimo de 41,6% no número de brasileiros com mais de 60 anos nos últimos dez anos. Em 2000, o Brasil tinha 14,5 milhões de idosos e passou em 2010 a ter cerca de 20,6 milhões. A expectativa é que em 2030 mais de 40 milhões de pessoas tenham mais que 60 anos. Em paralelo a este movimento encontra-se o expressivo aumento da longevidade da população brasileira. Em apenas 29 anos (1980-2009), a expectativa de vida ao nascer aumentou em nove anos. A média de vida passou de 62,2 anos em 1980 para 70,0 anos em 1999, e 73,1 em 2009. O envelhecimento populacional e o aumento da longevidade trará impactos significativos para diversos setores dado que esta faixa da população possui demandas próprias, muitos ainda têm vida economicamente ativa e estão preocupados em viver mais e melhor.
3. Consumo saudável: O aumento da preocupação em ter e manter uma vida saudável tende a ser cada vez maior nos próximos anos. A crescente busca pela melhoria da qualidade de vida pode ser percebida pelo aumento do consumo de serviços e produtos saudáveis e de diversos outros produtos e serviços. Há uma parcela crescente da população disposta a investir grande parte do seu tempo e de seus recursos para viver mais e melhor. Um segmento que tem crescido bastante no Brasil é o de academias, o País conta hoje com mais de 18 mil academias ativas estando no segundo lugar no ranking mundial em numero de academias, perdendo somente para os Estados Unidos com aproximadamente 30 mil academias. Além disso, o país ocupa a décima posição em faturamento no setor com aproximadamente US$ 2,2 bilhões e 5,4 milhões de alunos matriculados.
4. Consumo responsável: O consumidor brasileiro tem se mostrado cada vez mais preocupado com a aquisição e o uso de produtos e serviços sócio-ambientalmente sustentáveis. De acordo com a pesquisa realizada pelo Instituto Akatu em 2010[1], 59% dos entrevistados afirmaram que os consumidores devem atentar aos selos nos produtos, para saber se sua produção não causou problemas à sociedade e ao meio ambiente, 79% teriam sua preferência por uma marca e/ou empresa aumentada caso a mesma em suas atividades não provoque impactos sociais e ambientais negativos. Nesse contexto, o consumidor desejará obter cada vez mais informações sobre os produtos oferecidos, desde a aquisição de matérias-primas, passando pelo processo de fabricação, até o destino final.
5. Consumo de baixa renda : O cenário econômico favorável, com inflação controlada, crescimento e redução da desigualdade tem criado um novo mercado consumidor de massa, forte e complexo. Desde 2003, 39,6 milhões de pessoas passaram a integrar a classe C. Desde 2009, apenas, 10,5 milhões de brasileiros ascenderam a esse patamar de renda. Esta classe se caracteriza pela predominância de jovens e pela maior participação das mulheres na provisão de renda (41% contra 25% na classe A) As empresas devem, então, observar as peculiaridades deste mercado. É preciso atender à demandas de consumo que se inspira nas classes mais altas, sem no entanto descuidar do preço, do local de venda e das condições de pagamento. Esta última fica facilitada pela disponibilidade de produtos financeiros para a classe C, que já responde por 57,8% das poupanças, 61% dos cartões de crédito e 60,2% das contas correntes
6. Consumo precoce : As mudanças ocorridas na dinâmica familiar nas últimas décadas e o impacto da tecnologia sobre o mundo infanto-juvenil tem resultado em crianças e adolescentes ficando adultas mais cedo ou, pelo menos, assumindo hábitos de consumo mais precocemente. A televisão, o computador pessoal e o telefone celular consistem em poderosos canais de comunicação que disseminam novos comportamentos e estimulam o consumo[2]. O resultado são crianças com mais informação e poder de decisão. Pesquisas mostram que 80% das crianças brasileiras influenciam as compras de produtos[3]. As empresas , atentas para este público, aumentaram os gastos com anúncios para crianças. Nos EUA, por exemplo, o aumento foi de 170 vezes, de US$ 100 milhões para US$ 17 bilhões de 1983 até 2008
7. Consumo online: A Internet já alcançou mais de um quarto dos habitantes do planeta e está presente no cotidiano de seus usuários. No futuro, a Internet estará cada vez mais presente na vida das pessoas. O comércio eletrônico de bens de consumo no Brasil em 2010 atingiu faturamento de R$ 14,8 bilhões, crescimento de 40% em relação a 2009, e previsão de atingir R$20 bilhões em 2011. Em 10 anos o número de consumidores aumentou em 20 vezes[4]. As compras coletivas também ilustram bem esta rápida expansão, com 10% dos usuários de internet no Brasil, aproximadamente tendo visitado pelo menos um vez estes sites somente no mês de setembro de 2011, o que demonstra a grande e crescente popularidade destes sites, cujo faturamento foi de aproximadamente 500 milhões de reais em 2010[5]. Como declarou o criador da Microsoft, Bill Gates "Daqui a algum tempo só existirão dois tipos de empresas: as que estão na Internet e as que não estão em lugar algum".
8. Consumo prático: Cerca de 10% dos 56 milhões de domicílios brasileiros são habitados por uma única pessoa, ou seja, são mais de 5 milhões de pessoas morando sozinhas no Brasil, 14 vezes mais do que em 2000. Pessoas que moram sozinhas têm demandas próprias e formas próprias de consumo de bens e serviços, com necessidade de otimizarem seu tempo a fim de poder conciliar as atividades profissionais e pessoais com as demandas de sua moradia, a chamada administração da casa. O consumo das pessoas que moram sozinhas vem crescendo em média 6% ao ano. Um dos principais segmentos beneficiados é o de alimentos congelados e entrega. Pesquisas apontam que 59% dos brasileiros pedem comida em casa. Soluções e produtos que facilitem a vida das pessoas que morem sozinhas, como porções menores e de preparo mais fácil, são um desafio para as empresas nos próximos anos.
9. Consumo em nichos : O Brasil vem assistindo à emergência de mercados específicos voltados a determinados nichos de consumo com resultados significativamente consolidados e crescentes. Entre estes mercados destacam-se aqueles voltados a portadores de necessidades especiais, homossexuais, produtos religiosos. Os portadores de deficiência já somam 24,5 milhões de pessoas, correspondendo a cerca de 10% da população brasileira Já mercado de produtos religiosos é um nicho que cresce em torno de 30% ao ano e gera receitas superiores a R$ 3 bilhões, movimentando mais de 900 empresas. As empresas estão buscando atender e entender os diversos nichos. Um dos mais dinâmicos é o público GLS. Estimativas dão conta de que, nos EUA, em 2009, o poder de compra da população gay era de 610 bilhões de dólares, podendo chegar a 835 bi em 2011 No Brasil, dentre aqueles que se declaram homossexuais, 39% estão na classe AB e 30% na classe C. Em média, gastam 30% a mais do que os heterossexuais, representando uma grande oportunidade de negócios às empresas que se dedicarem a esse público.