A Hora da Verdade

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26/03/2012 | Correio Braziliense
 

Ou o Brasil impõe um novo ajuste competitivo às suas fábricas ou o país enfrentará ciclos inevitáveis de desindustrialização


A cena, a mobilização de empresários endinheirados em Brasília, tem tudo de déjà vu. Na última quinta-feira, cada qual no seu jatinho, um grupo deles desembarcou na capital federal quase ao mesmo tempo, a ponto de provocar congestionamento no aeroporto da cidade, tudo para participar de uma reunião convocada de última hora pelo Palácio do Planalto. Do outro lado, a única novidade ficou por conta da ocupante ainda precoce da cadeira presidencial, Dilma Rousseff. Os motivos para o solene encontro foram velhos conhecidos da plateia: a busca de soluções para as dificuldades de uma indústria que não consegue vencer a impiedosa concorrência dos importados, graças a um dólar enfraquecido. Sabe-se, contudo, que pouco ou nada será feito para resolver o problema. Ao menos por ora.


E não por falta de intenção. Promessas de novas medidas de estímulo ao setor produtivo, como a desoneração da folha e a simplificação da cobrança do PIS-Cofins, foram apalavradas. A desburocratização nos portos também fez parte do pacto, como a manutenção da estratégia governamental de melhorar a infraestrutura e baratear o crédito. Mas a principal ação, o golpe de misericórdia no câmbio, não será disparada. Dependente do capital externo para financiar suas contas, o país continuará apenas nos tiros de espoleta para tentar espantar o capital especulativo que entra no país em busca das taxas de juros ainda bastante convidativas. Ainda assim, nenhum dos 28 megaempresários recebidos pela presidente deixou a capital na bronca. Pelo contrário. Houve troca de afagos e a anfitriã ganhou até um voto de confiança.


Medidas paliativas


Mais que um ritual entre o poder econômico e a corte, o que se viu foi uma presidente esforçando-se para ganhar fôlego político entre os senhores do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, já que a relação com os aliados do Congresso vive os dias mais atribulados desde o início do governo. Mesmo que não passe de jogo de cena, é positivo saber que o diálogo direto entre o Planalto e o setor produtivo foi retomado. Aliás, o compromisso acertado é de que outros quatro encontros sejam realizados em 2012. Se de fato ocorrerem, melhor para o país. Talvez, assim, consiga-se superar a superficialidade das medidas paliativas, anunciadas a conta-gotas, e se avance em direção a um plano consistente e de longo prazo para a indústria, avalia o economista Claudio Porto, presidente da Consultoria Macroplan.


Sem perspectiva de uma maxidesvalorização do real em relação ao dólar, a indústria brasileira está chegando à hora da verdade, ou melhor, ao momento de um ajuste competitivo que busque capacidade para alcançar as economias baseadas no modelo da inovação. As melhores fábricas nacionais pararam, em sua maioria, no da eficiência, no qual, de acordo com o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), estão estacionados 29 países, entre eles Brasil, México e Rússia. No pelotão da frente, com 32 economias puxando o mundo, estão Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Austrália e Canadá. Numa relação direta, quanto maior o nível da inovação, maior é a renda per capita.


Rearranjo ofensivo


"Ou fazemos um novo ajuste competitivo ou vamos enfrentar alguns ciclos de desindustrialização", prevê Porto. Aos olhos do economista, não é por falta de bons diagnósticos que as fábricas brasileiras estão definhando, sobretudo aquelas dos ramos siderúrgico, calçadista e de confecção. Há, sem dúvida, segmentos que não trazem preocupação, como o de petróleo e o aeronáutico, em que a inovação naturalmente é parte do negócio. A indústria automotiva é uma incógnita. Apesar das promissoras perspectivas de um mercado consumidor em forte expansão, não há sinais claros de que os investimentos serão capazes de superar os custos que oneram a produção da porta da fábrica para fora.


Antes de esperar por melhorias na infraestrutura de rodovias e portos, por uma redução da elevada carga tributária e pela diminuição da burocracia nas aduanas, os empresários terão que agregar valor aos produtos com inovação. "Será preciso fazer um rearranjo ofensivo em alta produtividade, dentro e fora das empresas industriais, se quisermos sair do lugar", receitua o presidente da Macroplan.


Com uma indústria hipercompetitiva, a China combinou produção em massa de qualidade e baixo custo. Derrubou, por exemplo, o preço do DVD de US$ 300 para US$ 30, tornando o produto acessível para milhões de novos consumidores. Claro que com a desvalorização artificial de sua moeda, o iuan, os chineses ajudaram a indústria local a ganhar vantagem mundial, mas esse efeito não se compara ao ganho de produtividade obtido. No Brasil, por conta do chamado custo país, sobrecarregado pelos impostos em excesso, as distorções de preços em relação ao exterior beiram ao absurdo. O novo tablet da Apple, por exemplo, quando chegar ao mercado nacional, sairá por um valor sugerido de R$ 1.635,10 (US$ 899), superando em mais de 80% os US$ 499 praticados nos Estados Unidos.


Não por acaso, um exército cada vez maior de brasileiros está indo às compras no exterior mês após mês. É um sinal claro do custo de vida elevado aqui. Para mudar essa realidade, só mesmo uma visão de longo prazo. Não adiantam apenas iniciativas emergenciais e ajustes táticos. Medidas de proteção, desonerações temporárias de tributos e expansão do crédito aliviam a pressão imediata, mas não resolvem o problema e adiam a solução estrutural.