Executivos veem regulação como o maior risco

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21/03/2012 | Valor Econômico
Pesquisa feita junto a executivos de alto escalão de 80 empresas, dos setores de celulose, varejo, químico, financeiro e público, mostra que mais de 50% deles não trabalham com um horizonte de longo prazo (sete anos ou mais) para planejamento estratégico dos negócios. Os entrevistados, dos quais 70% ocupam cargos de gerência, diretoria ou presidência nas empresas, apontam a regulação, entendida como segurança jurídica, como o maior risco para o futuro das companhias.

O levantamento foi feito em São Paulo pela consultoria Macroplan, durante seminário que discutiu cenários para os próximos dez anos no Brasil. O objetivo foi mapear o comportamento das companhias frente às incertezas presentes no cenário brasileiro e internacional até 2022, disse Glaucio Neves, diretor da consultoria e coordenador do estudo. Para Neves, o resultado da pesquisa confirma que o empresariado brasileiro precisa pensar rotas alternativas de longo prazo e abandonar o raciocínio de curto prazo que predomina na economia local.

O levantamento questiona os gestores sobre os principais riscos para o futuro dos negócios. A regulação foi citada por 62,1% dos entrevistados e apontada como o maior entrave para as empresas no planejamento de longo prazo, seguida por tecnologia (51,5%), ambiente (37,9%) e comportamento do consumidor (34,8%).

"Nos chamou a atenção a escolha da regulação como maior preocupação das empresas", disse Neves. "O fato sugere desconfiança jurídica em relação à interferência do Estado, principalmente da parte de setores que investem no longo prazo, como infraestrutura, insumos básicos e exportação, já que o tema envolve também o protecionismo."

A tecnologia, segundo fator de risco votado na pesquisa, preocupa mais os setores que lidam diretamente com o consumidor final, como comunicação, varejo e financeiro, porque envolve o surgimento de novos métodos no curto prazo, capazes de alterar fortemente as dinâmicas setoriais.

Para Neves, o investimento em tecnologia deve ser uma frente importante de luta da indústria brasileira. "É preciso trabalhar num ajuste competitivo ofensivo da indústria nacional nos ambientes interno e externo", diz. Lembra que, na década de 90, o país passou por um "ajuste defensivo", com reestruturação e modernização do parque industrial.

"Agora é hora de as empresas promoverem um ajuste ofensivo de competitividade", alerta. "É preciso inovar para competir com a China, com a Índia, agregar valor à pauta de exportação e investir na redução do custo Brasil".

O ambiente foi o terceiro tema mais lembrado nas respostas dos executivos sobre a gestão de risco das companhias. O tema envolve grandes incertezas em relação à legislação ambiental e a questão da mudança climática, destaca Neves. Alterações na lei ambiental por parte do Estado podem afetar até preços de matérias-primas, enquanto a mudança climática começa a impor restrições aos investimentos em várias cadeias produtivas, como mineração, petróleo e celulose.

O comportamento do consumidor foi outro tema que não passou despercebido na pesquisa, devido às fortes mudanças ocorridas nos últimos oito anos. Neves cita "a entrada da classe C na classe média, o envelhecimento da população e melhora na educação como mudanças que têm influído no planejamento das companhias".

Quatro cenários desenhados pela Macroplan para a economia brasileira até 2022 serviram de pano de fundo para a pesquisa. O cenário com maior probabilidade para os próximos dez anos é o de "volta aos anos 70", que consiste numa presença intensa e ampla do Estado na economia doméstica, com uma inserção restrita e moderada do Brasil no mundo. As características desse cenário são forte ajuste fiscal, desvalorização do real, liderança do Estado na promoção e implementação dos investimentos em infraestrutura e energia.

Mais de 90% dos entrevistados afirmaram que as empresas que exploram o futuro, o fazem, em sua maioria (61%), com recursos próprios, sem apoio externo.