Reféns do volante

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01/06/2008 | O Globo
Empresas reagem à perda de produtividade provocada pelos engarrafamentos.
Trabalhadores também procuram saídas

Recém-casado, o médico niteroiense Carlos Eduardo Campani não pensou duas vezes ao comprar a nova casa do outro lado da Ponte Rio-Niterói. Do imóvel dos pais, em Itaipu, para o apartamento próprio, em Botafogo, ele calcula que ganhou duas horas e meia por dia por estar agora próximo ao trabalho. Há dois anos, a assessora de comunicação Marcia Niemeyer tomou a mesma atitude. Pediu demissão do escritório em que trabalhava, em Copacabana, para abrir um negócio na frente de casa, na Barra.

De um extremo ao outro do Rio, não faltam exemplos de como os congestionamentos começam a afetar a vida do trabalhador e das empresas. Se antes esse era um problema que falava mais alto nas camadas populares ? que até hoje sofrem com transporte público ruim ?, agora atinge em cheio a classe média, refém do volante.

Sites de emprego têm filtros por residência

O impacto desse transtorno já é notado no mercado de trabalho. São executivos que recusam propostas para não perder qualidade de vida com o ir-e-vir, profissionais que trabalham em casa com o auxílio de tecnologia (home office) ou os que simplesmente se mudam para morar mais perto do trabalho. Segundo estudo divulgado pelo Citigroup, as empresas brasileiras registram perda de produtividade de 5%, só por conta dos congestionamentos.

"Eu cruzava a Ponte todo dia, num trajeto de duas horas. Hoje, levo cinco minutos para o Copa D´Or, dez para o Hospital da Lagoa e 15 para o consultório em Ipanema. Ganho, no mínimo, duas horas e meia por dia para estudar, malhar. Isso não tem preço. Fora o aspecto econômico. Economizo R$200 por mês com gasolina" ressalta Carlos Eduardo.
Marcia, nos dias em que não tem reunião fora, vai a pé para o trabalho:

"Antes chegava em casa exausta. Levava quase duas horas para ir e outras duas para voltar. Após a mudança, emagreci 20 quilos e ganhei em produtividade. Hoje, marco reuniões em horários alternativos.

A consultora de RH Jacqueline Resch conta que, em alguns lugares, trabalho perto de casa representa quase um benefício - como ter plano de saúde:

"Essa é uma questão que realmente começa a incomodar as pessoas. Outro dia uma profissional me disse que só queria emprego onde mora (em Niterói). Já outra, moradora do Flamengo, resolveu alugar um apartamento na Barra, para passar a semana perto do escritório. Para quem mora na Barra, aliás, emprego no bairro é quase um benefício.

A socióloga Karla Régnier, consultora da Macroplan, diz que, associada a essa questão, começa a se consolidar uma nova forma de discriminação no mercado de trabalho:

"É a discriminação em relação ao local de residência, uma vez que nem empregador nem empregado têm controle absoluto sobre o cumprimento dos horários acordados em contrato. E a forma de o empregador se defender é minimizar o risco de contratar pessoas que possam estar sujeitas a esse tipo de intempérie. Os sites de emprego já utilizam essa variável em seus filtros de busca de currículos. Quem quiser entrar na disputa por determinadas vagas não pode desconsiderar essa realidade".

Carioca perde 20 dias por ano no trânsito
Profissionais reconhecem que produzem menos do que poderiam,
por conta dos congestionamentos diários


Em média, o brasileiro perde 2,6 horas diariamente no trânsito, de acordo com o estudo do Citigroup. No Rio, isso gera um prejuízo anual de R$12 bilhões, que equivale a 10% do PIB local. O carioca gasta, aproximadamente, duas horas por dia preso em engarrafamentos, calcula o engenheiro Fernando Mac Dowell, especialista em trânsito:

"Fazendo uma conta mais ampla, você perde 20 dias por ano em engarrafamentos. Dos 950 mil veículos que saem de casa diariamente, 23% o fazem no mesmo período, das 7h às 8h. Na volta, é mais diluído. Ainda assim, eu mesmo deixei de dar aula na Santa Úrsula por causa disso. Suportei um ano. Foi um sacrifício. Saía da Barra às 16h,<