O Brasil amadureceu, tem chances de atingir padrões de primeiro mundo em 2022, mas precisa de reformas

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26/06/2011 | A Gazeta
O economista Fabio Giambiagi, chefe do Departamento de Risco de Mercado do BNDES, é um dos organizadores do livro "2022 - Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário", um estudo com mais de 30 colaboradores de peso, que deverá ser lançado em Vitória em julho, em evento organizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Estado, o Ibef. Giambiagi tem uma visão otimista do futuro: o país tem um mercado interno dinâmico, com uma classe média que atingiu 94,9 milhões de pessoas em 2009, é um dos maiores produtores mundiais de alimentos e possui um sistema bancário sólido e bem regulado. Mas tem graves deficiências estruturais, como o baixo nível de escolaridade, os gargalos na infraestrutura, a carga tributária, a má qualidade do gasto público. Esses desafios precisam ser enfrentados, mas o problema, assinala o economista, é que hoje estamos sem uma agenda de reformas estruturais para o país.

O Brasil já foi comparado a uma baleia, o que pode ser um elogio. O país, afinal, está dando certo?

A ideia de que o Brasil é um país baleia é de Fernando Henrique, dita quando ele era presidente. Isso foi quando o Brasil enfrentava as crises dos anos 90 e se exigia na época que o país imitasse os chamados tigres asiáticos. Fernando Henrique dizia então que o nosso país não tinha a agilidade dos felinos, mas era como uma baleia ou um transatlântico, que uma vez que mudava de rumo se mantinha nele por muito tempo. Isso foi mal visto durante um tempo, mas passou a ser apreciado quando o rumo foi mantido, em linhas gerais, nos últimos 10 anos, apesar da mudança de governo. O que indicaria que algumas decisões eram nacionais e iam além dos governos A ou B. A expressão adequada então não é exatamente que o Brasil deu certo, e sim que o Brasil amadureceu.

O senhor traça quatro cenários possíveis para o país, para os próximos 11 anos, e o saldo geral é sempre positivo. O Brasil tem mesmo chance de atingir padrões de desenvolvimento de primeiro mundo, apesar da desigualdade, da violência, de carências na infraestrutura, em estradas, portos e aeroportos?

Temos chances de nos aproximarmos do status de um país desenvolvido, sim, mas uma mensagem que permeia boa parte do livro é a ideia de que há muito a fazer e de que aquilo que seremos em 2022, quando a nação estiver fazendo 200 anos, dependerá de como agirmos até lá. A violência, em particular, está diminuindo em alguns dos grandes centros, assim como a desigualdade, o que é muito bom e indica uma melhora do país, mas a infraestrutura deixa muito, muito a desejar e configura aquilo que na língua espanhola os acadêmicos chamam de asignatura pendiente, ou, em bom português, um dever de casa a fazer.

Os cenários que o senhor traça para 2022 variam de acordo com a presença do Estado na economia e a inserção do país na economia global. O melhor cenário, com o maior PIB per capita e crescimento de até 5,5% ao ano, prevê um choque de capitalismo, mas o senhor o considera pouco provável do ponto de vista político. Por quê? Ainda há preconceito contra o capitalismo?

Esse é o cenário que nós, que produzimos o livro, gostaríamos de ver, mas temos a suficiente quilometragem de vida e frieza analítica para perceber que não é nessa direção que os ventos estão soprando. De fato, há no Brasil uma série de preconceitos enraizados que dificultam que se avance mais hoje na direção de um capitalismo ortodoxo. Ao mesmo tempo, os acontecimentos ocorridos no mundo nos últimos anos permitem, no terreno da retórica, que se confunda capitalismo com o laissez faire absoluto.

O que é um equívoco...

É um equívoco, mas nesse caso vale a velha frase de que em política não importa o fato, mas a versão. E a versão de que o capitalismo teria levado ao desastre financeiro de 2008 está muito presente nos corações e mentes, o que aumenta a demanda pela presença do Estado. Na epígrafe do livro nós citamos Karl Popper e sua menção à guerra das ideias, e nesse sentido o livro envolve a defesa, educada mas clara, de certas ideias que sabemos hoje não terem tanta passagem como, por exemplo, há 15 anos. Mas essa é a história. O pêndulo dela se move ao longo do tempo. O livro é uma contribuição ao bom debate. O leitor fará o seu julgamento.

O país já tem uma classe média de mais de 90 milhões de pessoas, tem um mercado interno dinâmico, é um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas as notícias sobre escândalos em Brasília ou as deficiências das estradas parecem causar certo desânimo. Há um descompasso entre o setor produtivo e o setor público?

Cito um velho poeta espanhol, quando a muitos anos atrás ele se referia ao conflito entre modernidade e arcaísmo, fazendo alusão ao momento que se observava entre una España que duerme y una España que bosteza, ou seja, entre uma Espanha que dormia e outra que acordava bocejando aos poucos, mas disposta a encarar um novo dia. O Brasil foi sempre um país dual, mas essa dualidade hoje é menos marcante em termos de classes sociais e mais acentuada em termos do contraste entre uma economia com traços de pujança claros e uma política feita muitas vezes de modo arcaico, que se move muito lentamente e onde predominam caciques que parecem incompatíveis com o século 21.

O senhor aponta a expansão e a má qualidade do gasto público: um crescimento de 48% entre 2002 e 2009, contra um crescimento real do PIB de 28%, no mesmo período. Há sinais de que essa trajetória vai ser revista no futuro próximo?

Infelizmente, esse é um aspecto que preocupa. Há uma tentativa de ajuste em curso, mas muito mais pelo lado da receita que pelo lado do gasto, que deverá aumentar novamente em termos reais este ano em relação a 2010. A ideia de que o governo gasta muito e mal, largamente presente no debate macroeconômico, não parece ter sido devidamente percebida no campo da política, onde se processam as decisões, nem ao nível do Executivo e muito menos no nível do Legislativo.

O país passou por grandes reformas a partir dos anos 90, como abertura econômica, estabilização, privatizações e políticas sociais que reduziram a desigualdade. A reformas estruturais hoje não estão muito lentas, ou empacaram?

Reformas requerem a existência de um pentágono dourado, composto por 5 vértices. Primeiro, diagnóstico para identificar o que está errado. Segundo, convicção para apontar o que deve ser feito. Terceiro, energia para ser utilizada na defesa das propostas. Quarto, persuasão para convencer a terceiros, e por fim, articulação política para transformar propostas em medidas que contem com a aprovação legislativa. Houve isso no governo FHC e houve isso com a reforma previdenciária de Lula e Palocci em 2003. Depois, não houve mais nada. Sem esse pentágono, não há reforma que fique de pé. Hoje não há sequer agenda. Essa é uma temática para 2015. O governo Lula perdeu a janela de oportunidade em 2007 e hoje vamos para um novo governo sem proposta de reforma. Essa inércia me preocupa.

No capítulo sobre a Previdência, o senhor afirma que essa reforma vem sendo tratada de forma evasiva.

Vimos isso nas campanhas eleitorais, tanto de 2006 como de 2010, muito pobres em propostas específicas. O debate partidário acaba sendo muito pouco programático. Nas eleições, discutem-se questões irrelevantes, secundárias ou falsas questões, quando não mentiras. A ideia do livro foi tentar escapar dessa lógica. É essa a razão pela qual lançamos ele em 2011, longe do calor das paixões eleitorais, para tentar ter um espaço um pouco mais racional para o debate.

No livro, há um capítulo sobre gestão pública, de Fernando Abrucio, Gustavo Morelli e Tadeu Barreto Guimarães. Os autores dizem que precisamos de uma reforma da gestão pública, para torná-la mais democrática, transparente e eficiente, com uma agenda de longo prazo. Estamos um pouco distantes disso, não?

Os autores desse capítulo e nós, organizadores do livro, defendemos uma gestão do Estado mais profissional, onde haja espaço para políticas de Estado que sejam mantidas independentemente dos governos. A estabilidade da economia hoje virou uma política de Estado, defendida por todos, e nesse sentido houve um avanço, mas em matéria de modernização institucional há muito a avançar. Eu costumo brincar um pouco com um jogo de palavras, dizendo que o país em 25 anos de democracia avançou muito, mas que no fundo continua sendo um país que nos desanima um pouco, porque o Executivo não executa, o Legislativo não legisla e a Justiça não julga.

Como assim?

O Executivo tem enormes dificuldades para fazer obras decentes, o Legislativo está cada vez mais a reboque do Executivo e o fato de um assassino confesso ter apenas recentemente ido parar na cadeia após mais de 10 anos de ter cometido o crime, caso do jornalista Pimenta Neves, é um pouco emblemático da lentidão da nossa Justiça. Em outras palavras, o Estado funciona mal. A agenda de reformas necessárias é vasta, como se vê.

O Brasil em 2022

No livro "2022", os organizadores Fabio Giambiagi e Claudio Porto traçam quatro cenários para o Brasil, para os próximos 11 anos. "Na 'vida real', muito mais complexa, nenhum deles acontecerá como descrito. Mas eles podem ser úteis para análises", explicam os autores. Segue um resumo:

Cenário 1: De volta aos anos 70. Presença ampla do Estado na economia, com limitada inserção econômica global. Crescimento econômico de 3 a 4% ao ano.

Cenário 2: Capitalismo chinês à brasileira: forte inserção econômica global e presença ampla do Estado na economia. Crescimento de 4 a 5% ao ano.

Cenário 3: Um choque de capitalismo ortodoxo. Ampla inserção econômica global com presença seletiva do Estado na economia. É considerado o melhor cenário, com crescimento de 4,5 a 5,5% ao ano. O PIB per capita alcança US$ 19,8 mil. Hoje é US$ 10 mil.

Cenário 4: Um novo recolhimento: presença moderada do Estado na economia com limitada inserção global. Crescimento de 2 a 3% ao ano. É o pior cenário, com PIB per capita de US$ 13,3 mil.

Leia sem parar

2022 - Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário


Fabio Giambiagi e Claudio Porto, organizadores

Editora Campus: 312 páginas

Leia trecho de 2022, Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário, organizado por

Fabio Giambiagi e Claudio Porto


Aniversários são oportunidades de congraçamento, tanto para indivíduos como para países, e algumas datas são mais marcantes do que outras. Da mesma forma que, para uma pessoa, os 50 anos costumam ser festejados como um marco, centenários ? ou seus múltiplos ? são datas especiais na vida de um país. Mesmo em circunstâncias políticas pouco propícias a um clima de entendimento, com um cenário marcado pelo duro entrechoque entre governo e oposição, e o noticiário do dia a dia dominado por uma violência verbal intensa em decorrência disso, a vizinha Argentina fez uma espécie de trégua, em maio de 2010, quando foram comemorados os 200 anos da Revolução de Maio, que marcaram a independência em relação à Espanha.

Na ocasião, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Buenos Aires e de outras cidades do país, em um belo espetáculo cívico de apego à unidade por cima das divisões da vida política cotidiana. Nosso país está acostumado a promover espetáculos similares de congraçamento em situações como, por exemplo, a passagem do ano, que transcorre sempre com grandes multidões unidas na rua e sem nenhum tipo de problema.

O Brasil fará 200 anos como nação independente em 2022, e isso deve começar a ser motivo de refl exão, com intensidade crescente, ao longo dos próximos anos. Este livro é uma tentativa de contribuir para o debate sobre a que perfi l de nação aspiramos quando esse momento chegar. As democracias maduras do mundo ocidental ? ao qual o Brasil pertence ? se caracterizam não apenas por ter economias avançadas, mas também por ter criado, ao longo da sua história, certos consensos básicos que permitem identifi car alguns traços distintivos dessas sociedades. São países nos quais o bem-estar encontra-se relativamente espraiado pelas diferentes camadas sociais e nos quais a polarização política é algo dissipada pelos aspectos em que os principais grupamentos partidários compartilham a adesão a práticas defi nidas como políticas de Estado, de caráter duradouro e isoladas, de certa forma, dos "zigue-zagues" associados às mudanças de governo.

 O escritor Laurentino Gomes, no seu livro 1822 (Editora Nova Fronteira, 2010), nos chama a atenção para o fato de que "no ano de sua Independência, o Brasil tinha, de fato, tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia (...) em uma economia agrária a rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfi co negreiro (...). O analfabetismo era geral (...). Os ricos eram poucos e, com raras exceções, ignorantes (...). As rivalidades entre as províncias prenunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na divisão do território (...) como já ocorria nas vizinhas colônias espanholas. Para piorar a situação (...) o novo país nascia falido (...) sem dinheiro, soldados, armas e munição para sustentar a guerra [da Independência] contra os portugueses. As perspectivas de fracasso, portanto, pareciam bem maiores que as de sucesso (...) [No entanto,] o Brasil conseguiu manter a integridade do seu território e se fi rmar como nação independente" (pp. 17-18). Isso é uma demonstração evidente de que o futuro não é um prolongamento inevitável e predeterminado pelo passado e pelas condições vigentes. Ao contrário, ele pode ser construído. Hoje, o Brasil desponta como uma das principais nações emergentes do século XXI. Vale lembrar que o país passou por transformações positivas muito signifi cativas ao longo dos últimos 50 anos, das quais oito delas merecem ser citadas:

I. a consciência das possibilidades do país, herança que deve ser atribuída ao efeito dos anos JK, com a superação do "complexo de vira-lata" de que falava Nelson Rodrigues;

II. o expressivo crescimento observado entre meados dos anos 1960 e 1980, que gerou níveis de renda per capita no fi nal desse processo substancialmente maiores que os do começo dos anos 1960;

III. a consolidação da democracia nos últimos 25 anos, em moldes mais sólidos que os vigentes até 1964, agora com o desaparecimento das Forças Armadas como fator de pressão, com plena liberdade partidária, sem qualquer risco de golpe de Estado e com um grau menor de intensidade dos confl itos políticos;

IV. um conjunto de avanços institucionais próprios de uma economia e de um país maduro, como a respeitabilidade adquirida pelo Banco Central, a notável eficiência arrecadadora da Receita Federal, a eficiência impecável do mecanismo da urna eletrônica nas eleições nacionais etc.;

V. a modernização do país em consequência da abertura econômica nos anos 1990, com a exposição à concorrência e o fortalecimento do setor privado, no contexto de uma economia capitalista com empresas que são hoje atores globais na competição internacional;

VI. a estabilização da economia, iniciada com o Plano Real de 1994 e consolidada com o sistema de metas de infl ação e com os baixos níveis desta na década de 2000;

VII. o ajuste fi scal posterior a 1999, que gerou situação fi scal muito mais sólida que no passado, incluindo uma mudança radical nas relações entre a União e os estados em decorrência da vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal;

VIII. os avanços sociais observados desde as primeiras tentativas de inclusão social, com os programas pioneiros para o meio rural ainda nos anos 1970, o desenvolvimento de novos programas nos anos 1990, o aumento do valor real do salário mínimo nos últimos 16 anos e o aprofundamento das políticas sociais na década de 2000, tudo isso consubstanciado na melhora dos últimos anos dos indicadores de distribuição de renda e na redução da proporção de pessoas em situação de pobreza e de extrema pobreza.

Ao mesmo tempo, as carências e os desafios que o país tem pela frente são maiúsculos. Apenas para citar os mais evidentes, podem ser mencionados: o fato de as bases para o crescimento serem ainda bastante precárias, em particular pelos baixos níveis de investimento; a existência de uma taxa de infl ação ainda elevada para os parâmetros internacionais; os níveis fl agrantemente insatisfatórios dos nossos indicadores educacionais; a proporção ainda inaceitavelmente elevada de pessoas pobres e extremamente pobres; as defi ciências da infraestrutura; a situação de degradação do meio ambiente, com destaque para o descuido histórico cometido com a Amazônia etc.

Estando a pouco mais de dez anos de 2022, há tempo sufi ciente para fazer intervenções que modifiquem as características do país no decorrer do processo que nos fará chegar até essa data. Uma década é tempo sufi ciente para que certas políticas amadureçam e apresentem resultados. Para isso, porém, é preciso evitar que o país se deixe ofuscar pelo imediatismo e ter a dimensão precisa do signifi cado das frases de Célio Borja e de Clemenceau citadas em epígrafe neste livro. Foi com esse espírito que os autores deste livro foram convidados a se manifestar sobre o tema. O desafio proposto foi o de pensar que metas realistas poderiam ser estabelecidas como "alvos" a serem atingidos pelo país até 2022, de modo que o Brasil tenha na época um perfi l mais parecido com a "cara" que idealmente gostaríamos que o país tivesse. Que perfi l deve ser esse? Quais os objetivos quantitativos a serem fixados? Que medidas devem ser tomadas para atingir tal propósito? Essas foram as questões colocadas como tema para reflexão. Nem sempre é possível, em todos os casos, quantifi car as questões. Algumas são parte importante dessa refl exão ? por exemplo, apenas para citar um caso, o desafio das grandes cidades ? e não se prestam necessariamente para esse tipo de exercício.

Nesses temas, o que foi proposto aos autores foi que, mesmo sem alvos numéricos, pensassem quais os pontos mais relevantes a serem abordados nessa matéria e postulassem sugestões para dar conta dos problemas diagnosticados. O livro está dividido em três partes, na forma de blocos de capítulos. A primeira parte envolve um conjunto de quatro capítulos, que constituem o "pano de fundo" da discussão posterior. No primeiro capítulo, os organizadores, junto com Andréa Belfort-Santos, traçam as perspectivas do que poderiam ser diferentes cenários que o Brasil pode vir a percorrer nos próximos dez anos. De forma complementar ao capítulo introdutório, Monica Baumgarten de Bolle avalia o contexto em que poderá estar a economia brasileira em 2022. No terceiro capítulo, Helder Queiroz Pinto Junior aborda as diversas questões envolvidas no enfrentamento do tema ? crucial para o desenvolvimento do país nas próximas décadas ? do pré-sal. No quarto, Fernando Veloso analisa os desafi os para o crescimento da economia brasileira.

A segunda parte constitui o resultado do esforço de identifi car metas para os próximos anos, e traz nove capítulos, começando pelo quinto capítulo do livro, de Ilan Goldfajn e Marcelo Kfoury Muinhos, que apresentam uma proposta para um regime "definitivo" de metas de inflação. Na sequência, Maurício Mesquita Moreira e José Tavares de Araújo Junior fazem clara defesa de um aumento da exposição do país à competição internacional, como um elemento importante de uma estratégia de crescimento. José Cechin e Fabio Giambiagi tratam dos desafi os associados ao envelhecimento da população nas próximas décadas.

Fabio Giambiagi e Fernando Honorato Barbosa mostram qual pode ser o cenário fiscal brasileiro até 2022. Rafael Kelman e Jerson Kelman antecipam tendências do que se pode esperar no setor elétrico. Bernardo Tavares e Helcio Tokeshi lançam um olhar inovador sobre os tantas vezes comentados "gargalos" da infraestrutura e apontam para caminhos promissores a serem seguidos nessa área. Paulo Tafner e Márcia de Carvalho, mesmo reconhecendo que a política social tem tido grande sucesso no combate à pobreza, apontam para o risco de que o sucesso dessas ações leve as autoridades a "cristalizar" os instrumentos atuais, comprometendo os objetivos, e procuram mostrar que o sucesso da política social futura dependerá da fl exibilidade dos instrumentos e da busca contínua da sua focalização nos grupos mais desprotegidos da sociedade. Fernando de Holanda Barbosa Filho e Samuel de Abreu Pessoa avaliam as perspectivas de evolução da educação ao longo da década que estamos iniciando. Elimar Pinheiro do Nascimento e Alexandre Mattos de Andrade abordam o desafi o ambiental e defi nem algumas metas a serem perseguidas nesse campo.

Já a terceira parte do livro, de quatro capítulos, é uma tentativa de pensar alguns temas fundamentais que dizem respeito à sociedade e que transcendem as fronteiras estritas ? e estreitas ? da economia, envolvendo elementos econômicos, mas também ambientais, culturais etc., e se inicia com o décimo quarto capítulo do livro. Sérgio C. Buarque e Ariel Pares avaliam as perspectivas de desenvolvimento do país sob uma ótica territorial. André Urani, Glaucio Neves e Michel Gutnik tratam do desafio de repensar as grandes metrópoles. Fernando Luiz Abrucio, Gustavo Morelli e Tadeu Barreto Guimarães mostram as principais tarefas que o Estado brasileiro deveria encarar em matéria de melhorias da gestão pública nos próximos 10-15 anos, na perspectiva de uma evolução institucional favorável do país. Por último, Alberto Carlos Almeida faz uma interessante análise acerca de qual deve ser a mentalidade do brasileiro quando a nação alcançar 200 anos, em 2022.

Mesmo correndo o risco de ser excessivamente esquemático, pode-se, na parte "quantificável" das propostas resultantes da refl exão feita, chegar às seguintes metas que sintetizam os objetivos que o país poderia perseguir até 2022, em termos macroeco nômicos:

Meta de crescimento médio: 4,5 % a.a.

Inflação em 2022: 3% (previsão 2011: 5%)

Taxa de investimento em 2022: 24% do PIB (previsão 2011: 19%)

Poupança doméstica em 2022: 22-23% do PIB (previsão 2011: 16%)

Proporção de pobres em 2022: 5% (previsão 2011: 20%)

Proporção de extremamente pobres em 2002: 0% (previsão 2011: 7%)

Na educação, o movimento Todos pela Educação - devidamente lembrado no capítulo do livro que trata do tema - é um paradigma de compromisso conjunto em relação àquilo que pode ser feito para melhorar os indicadores do país em uma perspectiva de longo prazo. Um alvo particularmente importante desse movimento é alcançar a meta de que 70% ou mais dos alunos tenham aprendido o que é essencial para a sua série, o que exigirá um grande esforço no tocante aos alunos a partir da 5ª série e, principalmente, para os alunos do ensino médio. Analogamente, proposições similares poderiam ser adotadas em outros campos, como na infraestrutura, no meio ambiente etc. O país poderia, por exemplo, para 2022, ter objetivos quantitativos, como universalizar a coleta de esgoto e atingir o tratamento adequado em todas as 81 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes; ou consolidar a profi ssionalização da gestão no serviço público -  fundamentada no mérito, na efi ciência e na transparência  - em todos os níveis de governo e nos três poderes da República.

Se o país conseguir atingir alguns alvos ligados a esse esforço de modernização, terá feito avanços importantes em relação à situação atual. No seu brilhante livro sobre a cidadania do país, Cidadania no Brasil -  um longo caminho (Editora Civilização Brasileira), completado no final do século passado e publicado em 2001, José Murilo de Carvalho conclui a obra com uma refl exão algo sombria: "Percorremos um longo caminho, 178 anos de história do esforço para construir o cidadão brasileiro. Chegamos ao fi nal da jornada com a sensação desconfortável de incompletude. Os progressos feitos são inegáveis, mas foram lentos e não escondem o longo caminho que ainda falta percorrer." Logo a seguir, na mesma página, ele reclama -  com razão -  da realidade, que "não consegue ocultar o drama dos milhões de pobres, de desempregados, de analfabetos e semianalfabetos, de vítimas da violência particular e oficial. Não há indícios de saudosismo em relação à ditadura militar, mas perdeu-se a crença de que a democracia política resolveria com rapidez os problemas da pobreza e da desigualdade" (p. 219).

Hoje, depois de uma década de melhorias sociais inequívocas, a conclusão talvez fosse menos amarga. De qualquer forma, a ideia de que ainda há um longo caminho a percorrer para que o país atinja a maioridade continua sendo inteiramente válida. Ter indicadores econômicos positivos combinados com indicadores sociais marcados pela existência de 1/5 da população composta por pessoas pobres e de quase 1/10 por pessoas extremamente pobres é uma mácula do processo de desenvolvimento do país. Combater tais problemas deve ser prioritário no espaço que nos resta até o Brasil completar 200 anos, entre outras coisas para reforçar a confi ança na democracia como meio de resolver os problemas mais graves do país. Não se percorre um caminho sem um norte, não se defi ne um norte sem um diagnóstico e não se chega a um bom diagnóstico sem um bom debate prévio. Esperamos, com este livro, "lutar com palavras" (no sentido exposto por Popper na terceira frase que abre este livro) e dar nossa modesta contribuição para a necessária refl exão acerca de que caminho trilhar nos próximos anos.

Não poderíamos encerrar esta apresentação sem registrar o nosso agradecimento a todos os autores que, não recebendo qualquer remuneração, dedicaram nos últimos meses parte do seu escasso tempo e do seu conhecimento especializado para entregar os artigos que compõem este livro. Ao coordenar esse esforço, nos sentimos gerenciando uma espécie de "time dos sonhos", dada a alta qualidade dos nomes envolvidos no projeto. Foi uma experiência gratifi cante ter participado desse esforço conjunto. Por último, fica o agradecimento à Natalie Pacheco Victal de Oliveira, que, com seu apoio na formatação fi nal de diversos gráfi cos e tabelas que compõem este livro, facilitou muito nosso trabalho de compilação final dos capítulos.

Os organizadores

Rio de Janeiro, novembro de 2010