Um olhar sobre o país a longo prazo

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22/05/2011 | O Estado de Minas
Claudio Porto: "O risco é se acomodar ao céu de brigadeiro". Fabio Giambiagi: "Há euforia, mas tem que arregaçar as mangas"

Os economistas Claudio Porto e Fabio Giambiagi vieram a Belo Horizonte na quinta-feira lançar o livro 2022: propostas para um Brasil melhor no ano do bicentenário. Os organizadores, com mais 31 especialistas, destrincham cenários para o país no ano em que os brasileiros vão comemorar os 200 anos como nação independente.

Não há conclusão definitiva e, sim, um resumo das principais características que o Brasil pode vivenciar daqui a 11 anos. Será uma conjuntura de fatores. Alguns apostam que o país pode viver um "capitalismo chinês à brasileira", com o Estado sendo o pai do desenvolvimento. "Um dos maiores riscos é acharmos que o governo pode resolver tudo", diz Claudio. Outros concluem que, se não fizermos o dever de casa, o país pode retroceder e entrar em um novo ciclo de recolhimento, se assemelhando ao México atual.

O inegável é que o Brasil avançou nos últimos anos e, apesar de recorrentes, segundo eles, não há desordem fiscal nem inflação descontrolada, mesmo esse binômio sendo o centro das atenções no estudo. "Mas também enfrentamos grandes gargalos como infraestrutura e educação", acrescenta Giambiagi.

No livro, vocês afirmam que o "Brasil velho está ficando para trás" e que não existem mais desordem fiscal e inflação descontrolada no país. Houve uma evolução, mas ainda assim ajuste fiscal e inflação continuam sendo problemas recorrentes?

Claudio Porto - Há 200 anos, quando conquistamos nossa independência, o Brasil tinha tudo para dar errado. Quase 90% da população era analfabeta. O país estava falido e, quando dom João VI voltou para Portugal, levou o nosso dinheiro. O Banco do Brasil estava falido. Mas nos últimos 16 anos tivemos avanços muito importantes. Começamos a ter consciência de que, pela primeira vez, podemos chegar ao primeiro mundo. Por conta de uma conjuntura externa favorável e políticas sociais, o Brasil entrou numa rota de crescimento, que nos fez resistir à crise de 2008. O perigo está em achar que estamos voando em céu de brigadeiro, que está tudo dominado. O Brasil está ganhando, mas ainda temos fatores de riscos.

E quais seriam esses fatores?

Claudio Porto - No curto prazo, o risco do binômio ajuste fiscal e inflação alta. Temos o defeito do pensar no curto prazo. Qual deve ser a meta da inflação em 2022? No livro, afirma-se que deve ser de 3% ao ano, metade do que é hoje. E isso é perfeitamente possível se fizermos o dever de casa, com visão de longo prazo também para a política monetária. A proposta é que se persiga essa meta de 3% e sem arrocho, com taxa de juros mais baixas. Mas é preciso tomar cuidado para dar passos consistentes porque qualquer ajuste fiscal muito forte penaliza estados e municípios.

O corte de R$ 50 bilhões anunciado pela presidente Dilma Rousseff já é um começo para uma política fiscal mais eficiente?

Claudio Porto - Pode ser o começo, mas tem que ser visto apenas como um começo, o caminho precisa ser todo traçado. E não pode ser em dezembro ou daqui a um ano. Haverá um custo social e econômico menor se for feito pensando a longo prazo. Disciplina fiscal se preserva com o controle do gasto público e política monetária de longo prazo. Podemos chegar a ter uma carga de juros sobre o PIB, que hoje é de 5%, de 1% a 2%. O nosso juro real pode ficar em torno de 2%. Isso permitiria aumentar a nossa poupança e, consequentemente, o investimento. Enquanto a poupança dos chineses beira os 45%, a nossa é de 19%. Podemos chegar a 23%.

Fabio Giambiagi - O corte é um começo, mas tímido. Vale lembrar que é um corte previamente assumido no Orçamento deste ano. Em 2011, teremos um crescimento do gasto público entre 3% e 4% em termos reais. Então, não vai haver um corte em relação ao gasto como um todo. Vai haver um corte ao que foi aprovado no orçamento. Será um corte de vento. É como se você tivesse gastado 100 no ano passado, diz que vai gastar 110 neste e depois corta para 105. Na verdade, o que está ocorrendo é um aumento de 5 sobre o ano passado.

Quais os principais gargalos que o país enfrenta, travando um avanço ainda maior?

Claudio Porto - Capital humano e infraestrutura, e são esses fatores que vão definir nossa produtividade. O ensino fundamental tem melhorado no país todo, mas o ensino médio é um gargalo. Precisamos de uma reforma no ensino médio. O país gasta mal e pouco no ensino médio. Um aluno do ensino médio custa ao país R$ 2.387. No fundamental, o valor é R$ 3.067. O custo do ensino médio é menor do que o fundamental e deveria ser o contrário. O que se propõe é que dobre o investimento do ensino médio em 10 anos.

Fabio Giambiagi - Infraestrutura e educação são os grandes gargalos.

E a Reforma da Previdência, pode ser feita?

Fabio Giambiagi - Não acredito que seja feita antes de 2015. Ano que vem é ano eleitoral, o Congresso vai ficar vazio. Mesmo na hipótese de os astros continuarem a sorrir ao Brasil, com crescimento econômico, é um absurdo as pessoas poderem continuar se aposentando aos 50 anos. É um tema que mexe com as emoções das pessoas. Se meus pais tivessem começado a pagar minha carteirinha do INSS aos meus 18 anos, hoje estaria aposentado. Não precisa ser especialista para constatar que isso não faz muito sentido. Reforma da Previdência se faz no primeiro ano de governo ou não se faz depois.

Levando em conta o cenário atual, quais os riscos que o Brasil enfrenta?

Claudio Porto - Acomodação, além de o nosso destino estar muito atrelado ao da China hoje, somando inflação e questão fiscal. Se tiver uma mudança de cenário externo mais brusca, isso também pode travar um pouco nosso desenvolvimento porque gastamos nossa munição toda na crise de 2008. Mas um dos maiores riscos é a gente achar que o governo pode resolver tudo.

Fabio Giambiagi - Tivemos uma expansão importante nos últimos anos em parte pelos preços das exportações brasileiras que foram absolutamente exuberantes. O índice de preços das exportações hoje é 14% superior ao pico de agosto de 2008, antes da crise e por sua vez absolutamente impressionante. Isso gera um quadro externo como nunca antes se viu neste mundo, ampliando a expressão do nosso ex-presidente Lula. Mas a vida fácil está acabando. Não vamos ter preço de exportação crescendo 5% ao mês como vem acontecendo nos últimos tempos e o exército industrial de reserva também está acabando. Por isso, precisamos fazer com que as pessoas que estejam empregadas sejam mais produtivas. E não vamos conseguir isso se o país não investir em uma educação de qualidade.