Cenários para o Bicentenário

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26/03/2011 | O Globo
Em 2022 o Brasil fará 200 anos como nação independente, e a data já se transformou em referencia para se pensar estrategicamente o futuro do país. É com esta visão que os economistas Fábio Giambiagi, do BNDES, e Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, organizaram o livro "2022: Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário" (Elsevier/Campus), que será lançado dia 31 no Rio de Janeiro e dia 4 de abril em São Paulo.
O livro reúne reflexões de 31 expoentes do pensamento nacional sobre a evolução recente e situação atual do país, e apresenta propostas concretas para que o Brasil chegue em 2022 a um estágio superior de desenvolvimento.

O Brasil que elegeu em 2010 a primeira presidente mulher de sua história está entrando em seu 26 ano de democracia, o mais longo período consecutivo na história política do país, o suficiente para que mudanças se cristalizem e passem a fazer parte da História.

É um espaço de tempo suficiente também para implantar mudanças estruturais em um país, dentro de um processo permanente de avanços que estamos vivendo, apesar de alguns retrocessos.

Dos avanços conquistados, o livro destaca a consolidação da democracia, progressos sociais inquestionáveis e a transformação econômica e institucional do Brasil digna de um país maduro.

Outros pontos relevantes são a estabilização, o fim da hiperinflação da economia, alcance de capacidade para se financiar mediante a entrada de investimentos, redução do endividamento externo líquido e obtenção da confiança dos investidores estrangeiros.

Apesar das vitórias, os organizadores do livro alertam, à moda dos bancos de investimento, que os ganhos passados não são garantia de repetição da performance no futuro.

Os autores classificam as carências e desafios que o país tem pela frente de “maiúsculos”: baixos níveis de investimento, taxa de inflação ainda elevada para parâmetros internacionais, escassez de poupança interna, deficiências graves de infraestrutura e nos sistemas logísticos, baixa capacidade de inovação, restrições à competitividade sistêmica (burocracia, legislação, carga tributária, brechas regulatórias) e má qualidade do gasto público.

Além disso, consideram “preocupante” a situação de degradação do meio ambiente, e, ainda mais grave, os níveis flagrantemente insatisfatórios dos indicadores educacionais e baixo nível de capacitação da população, assim como a proporção “ainda inaceitavelmente elevada” de pessoas pobres e extremamente pobres (1/5 da população é composta por pessoas pobres e 1/10 por pessoas extremamente pobres).

Para Claudio Porto, cuja consultoria tem especial apreço por análises de cenários futuros, o livro é uma contribuição para a reflexão prospectiva de longo prazo, que se mostra ainda escassa no Brasil. “Temos uma cultura imediatista e há ênfase excessiva no curto prazo", comenta.

Com este pano de fundo Claudio Porto, Fábio Giambiagi e Andrea Belfort, descrevem diferentes cenários que o Brasil pode vir a percorrer nos próximos 11 anos.

Para o estudo foram montados quatro cenários, sempre levando em conta a presença do Estado na economia, pois consideram que é certo, ou quase certo, que no horizonte dos próximos dez anos, o Estado continuará a ter um peso econômico relevante na economia nacional.

No primeiro cenário, denominado “De Volta aos Anos 70”, o Brasil faz ajustes na economia tendo como pilar a presença ativa do estado na economia, em face de um cenário externo desfavorável, com riscos de ciclos de crise econômica e recrudescimento do protecionismo. O país mantém uma trajetória de crescimento razoável – entre 3% e 4%.

Outra possibilidade é o cenário “Capitalismo Chinês’ à Brasileira”, no qual a economia global oferece amplas possibilidades para países emergentes mais bem posicionados.

O cenário mostra o Brasil com forte inserção econômica global, mas também presença ampla do Estado na economia. A trajetória de crescimento sustentado se mantém entre 4 e 5%.

O terceiro cenário, “Um Choque Ortodoxo de Capitalismo” do ponto de visa político parece pouco provável, mas pode ocorrer na medida em que o equilíbrio fiscal tornar-se muito ameaçado e houver uma reação dos agentes econômicos e políticos no sentido de um ajuste competitivo.

Neste cenário o Brasil faz fortes ajustes no seu modelo econômico, mantendo uma presença seletiva do Estado na economia, para garantir uma ampla inserção econômica global. O país segue uma trajetória de crescimento entre 4,5% e 5,5%.

O último cenário “Um Novo Recolhimento” é o menos provável e antecipa uma trajetória de dificuldades crescentes no cenário externo que obrigam o Brasil a fazer fortes ajustes no seu modelo econômico.

O Estado passa a ter uma presença moderada na economia e o país tem uma inserção econômica global limitada. A trajetória de crescimento econômico positivo gira entre 2% e 3%.

Também a economista Monica de Bolle, autora de outro capítulo do livro, indica a possibilidade de caminhos distintos para o país no ano do bicentenário da independência.

Com uma análise sobre o cenário mundial e seus impactos para o Brasil em 2022, a economista afirma que é possível vislumbrar tanto um cenário “otimista”, marcado por um esforço de ajuste, com o setor publico reduzindo os gastos correntes como proporção do PIB, quanto um cenário “sombrio”, com o retorno do intervencionismo estatal e expansão do crédito público.

Para ela há uma possível bifurcação da economia brasileira diante dos desafios impostos pelo quadro global. “Cabe ao governo decidir se quer continuar a aprofundar as reformas institucionais e macroeconômicas dos últimos quinze anos, que construíram as bases da prosperidade recente, ou retornar às velhas políticas intervencionistas, cujos resultados costumam ser, na melhor das hipóteses, ruins, e na pior, desastrosos”, diz.

Para que o Brasil siga a trajetória dos melhores cenários até 2022, Claudio Porto e Fábio Giambiagi propuseram algumas metas para que o país aproveite a janela de oportunidades que antevêem:

- Meta de crescimento médio: 4,5 % a.a.

- Inflação em 2022: 3% (previsão 2011: 5%)

- Taxa de investimento em 2022: 24% do PIB (previsão 2011: 19%)

- Poupança doméstica em 2022: 22-23% do PIB (previsão 2011: 16%)

- Proporção de pobres em 2022: 5% (previsão 2011: 20%)

- Proporção de extremamente pobres em 2002: 0% (previsão 2011: 7%)

(Amanhã: os desafios da gestão)